20 de mai de 2009

Tudo se completa


ui criada ouvindo estórias tradicionais e contos de fadas. Branca de Neve, Cinderela e outros mais. Meu pai era médico e viajava muito. Por isso não fiz o curso primário. Três meses de aula e lá íamos nós de novo para uma nova cidade, como ciganos. Depois eu fazia os exames e acabava passando.

Nessa época eu lia muito. Foi quando caíram em minhas mãos incríveis estórias de cavalaria. Me lembro bem de Amadis de Gaula, uma obra marcante do ciclo de novelas de cavalaria da Península Ibérica do século XVI. Aos dez anos entrei em contato com a obra de Monteiro Lobato e achei chatíssima. Minha grande paixão era mesmo Alice no país das Maravilhas. Alice foi o primeiro personagem com quem eu de fato me identifiquei. Eu usava sapatinho de verniz, vestido de boneca e avental de organdi. Na minha cabeça eu era a própria Alice.

Descobrimos mais tarde que a nossa carência financeira vinha da atitude secreta de meu pai de doar tudo para os pobres. Eu também ficava sem graça de pedir livro sendo que tanta gente passava fome. Eu acabava lendo os livros dele. Tinha Dostoievsky, José de Alencar e tantos outros, mas eu sempre voltava às estórias infantis. Eu me lembro que buscava o sentido de tudo aquilo, mas ainda estava muito perdida. Então fiz o pedagógico onde estudei literatura infantil mas na maneira de outrora, antes do Bettelheim.

Tive uma professora de psicologia muito moderna. Eu comecei a ver um outro lado desse universo fantástico. Minha família era muito agnóstica e científica, não tínhamos espaço para a fantasia. Com vinte anos descobri que esse outro lado era bem maior do que a racionalidade científica. Na mesma época me apaixonei pela Índia e comecei a estudar mitologia. Aos dezessete anos fui estudar literatura na Aliança Francesa e descobri, entre outras coisas, que Vitor Hugo era espírita.

Me envolvi novamente com as estórias infantis e descobri naquele momento que as estórias não estavam prontas e acabadas, ao contrário, se transformavam através do tempo além de existirem várias versões para cada estória. Quando eu li o livro da Nelly Novaes Coelho sobre contos de fadas, comecei a suspeitar de que as fadas realmente existissem.


Quando moramos em Uraí, no Paraná, estudei um pouco de japonês pois lá tinha uma colônia japonesa e meu pai, como médico, atendia aquela gente. Tinha uma música de ninar que eu gostava muito que dizia assim: “ Chô, chô pavão! Sai de cima do telhado e deixe esse menino dormir seu sono sossegado.” Descobri então que em japonês existia a mesma canção só que com outro pássaro. Aos nove anos refleti: Se no Japão cantam a mesma música, será que esse pássaro não existe de verdade?

Perto da casa dos meus avós tinha morcego e coruja. Há uma lenda que diz que quando a coruja canta anuncia a morte de alguém da casa. Era o sobrenatural me chamando e eu buscava relações na psicologia e na mitologia. Na minha ânsia de entender melhor esse universo eu ia atrás da literatura francesa medieval, do espiritismo de Alan Kardec, de Maupassant e Mallarmé entre outros, costurando todos esses vínculos com o fantástico.

Além da literatura, eu sempre fui fascinada por arte. Comecei a relacionar os seres alados da Grécia antiga por exemplo, com os contos de fadas. As explicações psicológicas não me satisfaziam. Será que essas figuras não existiam de verdade?

Fotografia autêntica das Fadas de Cottingley.

De uma amiga querida eu recebi um exemplar da revista planeta. Foi quando eu fiquei sabendo do caso de duas meninas inglesas que fotografaram fadas de verdade. Na mesma época eu me apaixonei pela Índia através do meu grupo de Yôga e meu professor que tinha uma cabeça muito aberta. Comecei a suspeitar que de fato existiam energias invisíveis que podiam se manifestar e aparecer para as pessoas.

O tempo foi passando. Meus interesses foram se ampliando. Literatura infantil, contos celtas, mitologia grega e hindu, novos campos se abriam. Foi quando dois eventos especiais me surpreenderam muito. Um deles foi a aparição de espíritos para mim. Em uma noite de insônia eles tentaram se comunicar comigo, ao mesmo tempo que me transmitiam uma grande energia de cura. Só que eu tive muito medo no dia. Contei para um amigo que era espírita e ele exclamou: “mas que maravilha!”. Senti que na natureza, de fato, tudo se transforma e portanto, quando a pessoa morre, a energia dela se conserva em uma outra dimensão.

Comecei a estudar o trabalho energético dos celtas nas florestas e lagos, paralelamente com o candomblé e a mitologia grega. Me encantei com o mundo das fadas e fui à Bretanha num local onde se acredita ter existido um reino de fadas muito sofisticado. Por que lá? Creio que seja em função de uma grande concentração de energia na região que se comprova pelos dolmens como Stonehenge.

Mais tarde tive a chance de ver de fato um disco voador de perto. Não só eu mas um também um grupo que estava comigo e as pessoas que estacionaram nos acostamentos. Chegou até a sair no jornal. Enorme, colorido, ele passou lentamente sobre nossas cabeças. Aqui em São Paulo mesmo.

Diante disso me ficava a pergunta: os monstros e seres fantásticos serão realmente meras entidades psíquicas ou eles existem de fato? Me lembro de uma autora que viu fadas no Central Park. Essa autora inglesa teve a sorte de nascer na Índia, um país que não faz a separação entre a fantasia e a realidade.

A todo momento presencio fenômenos que transitam entre mundos. Como a estória de um imóvel aqui perto de casa, onde nada dava certo. A crença geral era de que havia uma caveira de burro enterrada lá. Até que um padre exorcista foi ao local e indicou o ponto exato onde um trabalho de macumba podia ser encontrado debaixo da terra. O mesmo padre foi visitar uma conhecida minha que passava por sérias dificuldades. O padre pediu que ela trouxesse o seu travesseiro onde ele encontrou uma pequena boneca feita de cabelo. Ele podia sentir aquela energia negativa em atividade.

Os contos de fadas foram então ganhando mais peso na minha vida depois de adulta. Quando criança era o fascínio pelo maravilhoso, pela possibilidade de ter poderes mágicos, de fugir dos desconfortos da realidade cotidiana. Envelhecendo eu fui analisando esses fenômenos sob outros aspectos e relacionando com esse mundo dos seres imaginários, que eu sempre suspeitei que fosse real. Desde a surpresa com canção do pavão busco a conexão entre as diferentes culturas e momentos históricos, entre a mitologia e a psicologia, entre o real, o sobrenatural e o imaginário e assim vou cruzando fronteiras. Depois de tanto analisar, hoje eu busco a síntese, pois fui descobrindo ao longo dos anos, que tudo se completa. Tudo é um!


Baseado no depoimento oral de Tereza Vasques, 70 anos, professora de cinema e literatura.

Um comentário:

  1. as fadas de Cottingley éram mentira aqui tem um video de uma das duas meninas admitindo http://www.youtube.com/watch?v=Tx8yD_cymKA

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