01/11/2009

Peles e sentimentos

omo trabalho de conclusão de um curso de Contos de Fadas, tenho que apresentar para o grupo o conto de fadas que mais marcou minha infância, minha vida. Pensei e me lembrei de Pele de Asno. Ao completar oito anos, minha mãe me deu um livro de Contos de Perrault, traduzido por Monteiro Lobato. Tenho este livro até hoje e a história que li quando criança está transcrita nesta reflexão amorosa que trago agora. É amorosa mesmo, porque não posso falar de contos de fadas sem ser pela linguagem do amor, do amor de mãe-filha, do amor do adormecer ouvindo histórias através da voz amada, do amor que me confortava e me dava coragem para enfrentar os meus medos e sonhos ao acreditar que se tinha dado certo para as personagens daria certo para mim também. É o amor e a segurança de um ninho de amor e a crença de que a vida é bela e no final tudo termina bem.


Foi assim a minha relação inicial com os livros, com as histórias encantadas e esse amor me acompanhou a vida toda, fazendo com que eu adorasse ler, com uma paixão intensa, emocionando-me ao entrar numa livraria, deliciando-me ao folhear as páginas de um livro, libertando-me através das palavras mágicas de uma história ou de um poema.

Com esse mesmo amor, contei histórias para os meus filhos. Histórias de livros, histórias de boca, histórias ouvidas e repetidas no aconchego de minha cama, onde a plenitude se instalava ao vê-los de pijamas, mamadeiras e fraldas, e a minha voz repetia o mesmo ritual de amor que vivi quando a criança ainda era eu. Assim, eu estava dizendo a cada um deles um ‘eu amo você, a vida é bela, tudo vai dar certo e você vai ser feliz para sempre’. Ainda hoje, de vez em quando, repetimos esse mesmo ritual e, magicamente, ficamos completamente preenchidos de amor.



Quando criança, ganhei uma máquina de datilografia rosa-choque. Foi a glória. Ali iniciei a minha carreira de escritora, aprendendo a fazer casas de livros para outras pessoas morarem nelas e nelas sonharem, como conta Lygia Fagundes. Hoje, o notebook ocupou o lugar da minha máquina – que está num lugar de honra no quarto de minha filha – e as histórias não estão apenas nas folhas de papel, mas estão espalhadas pelo mundo através das páginas da internet. Os textos ainda são científicos, em sua maioria, mas, aos poucos, os dedos vão tomando vida própria e toda minha alma vai entrando em transe e a história começa... Era uma vez...


Por que escolhi Pele de Asno como o conto de fadas da minha vida? Além de representar um vínculo amoroso com minha mãe, uma viagem ao tempo seguro da infância, descobri, já adulta, que tive que colocar uma pele de asno para encobrir a minha beleza, o meu potencial criativo, a minha inteligência, a minha liderança, enfim, o meu modo singular de ser no mundo e de brilhar. Não é nada fácil para uma mulher, numa sociedade patriarcal, assumi a sua força. Enfrentei muita exclusão, solidão e isolamento porque era muito inteligente, porque só tirava dez, porque inventava formas incríveis de apresentar meus trabalhos, porque era sempre eleita representante de classe, porque era bem-feita, porque minha família era uma delícia (apesar das dores), porque meu namorado me amava, porque minha poodle era linda, porque me comunicava com o coração.

A inveja foi um sentimento muito forte e destrutivo no meu caminhar e fiz o que pude para esconder do mundo e das pessoas que eu amava, que faziam parte do meu círculo pessoal de amizades, o meu brilho, com medo delas fazerem a mesma coisa que as colegas da escola e, depois, do trabalho, usando-me quando precisavam dos meus conhecimentos, do meu cérebro, e me ridicularizando e isolando, machucando o meu coração e a minha alma.



Foi tão forte esse sentimento de exclusão e de uso, de não ser vista e amada como uma pessoa inteira, que troquei de colégio só para não ser mais reconhecida apenas pela minha inteligência. Quantas vezes não fiquei calada para não dar a resposta certa e ser mais uma vez excluída do grupo, desejando com toda a minha essência ser apenas ‘medíocre’!! Quantas vezes não rebatia alguns elogios que surgiram mais tarde nas minhas relações profissionais, sempre apontando algum defeito, para que não fosse mais uma vez rejeitada!!


Depois de muito chão de vida – hoje aos 42 anos – e de muita terapia, pude tirar minha pele de asno, sem medos e sem precisar fugir, e comecei a assumir o meu potencial e as minhas dificuldades com muita tranqüilidade. Como me comunico muito bem, tenho arrasado em palestras, aulas, programas de televisão, artigos e até já consegui colocar na internet um site (www.caleidoscopio.psc.br), onde compartilho o meu caminhar. Trabalhando com mulheres em oficinas que têm o objetivo de resgate do feminino, observo que muitas delas também usam suas peles de asnos para esconderem o seu potencial, pois se sentem ameaçadas pelos seus maridos, seus filhos e até pelas suas amigas. Que esse trabalho possa ajudar cada uma delas a tirar a pele de asno e assumir o seu destino de brilho e felicidade! (...)



Patrícia Vasconcellos, psicóloga.

30/10/2009

O sentido está em ti


gora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Balthus

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.

A realidade, Maria, é louca.


Balthus

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar – comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.



Balthus

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria têm de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"



Balthus

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou ?" É bobice Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.





Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinicerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.



Pilar Correia

Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.


Joseph Cornell

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal comp
lacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.



Paula Rego

Paulo Mendes Campos

Fonte: Para Maria da Graça, in Para gostar de ler, crônicas, São Paulo, Ática, 1979, v.4, p.73-76.

Histórias reais



u sempre me senti como Cheherazade, a moça esperta das mil e uma noites. Não porque sou esperta, mas porque de algum modo sempre soube que contar histórias me salvava de perder não a cabeça, como era o caso de Cheherazade, mas de perder a mim mesma. Quando era muito pequena e ainda não sabia ler, imaginava histórias para escapar do medo do escuro. Contava para mim mesma na minha cama de bebê crescido. Quando entrei na escola, imaginava enredos que me carregavam para além das crueldades infantis que me aterrorizavam tanto ou mais que os monstros noturnos. Quando cresci virei jornalista e passei a contar histórias reais para poder viver. Sempre soube que contar histórias me salvava da versão adulta do medo do escuro. Agora, que sou gente grande, contar histórias ordena o caos da vida, me dá sentido e identidade.

Eliane Brum, jornalista.

22/10/2009

Nunca fui chapeuzinho


Sarah Moon


unca fui chapeuzinho, nem tive medo do Lobo mau.
Das histórias que ouvi na infância sempre fui levada a observar com olhos críticos antes mesmo de pensar em estudar a psicánalise.
Não vejo homens como lobos, que me metem medo e que deva tomar cuidado.
Mulheres não são as tolas que as histórias quizeram mostrar, orfãs precisando de proteção, ou do príncipe que viria no cavalo branco lhes resgatar.
Acho que interpretar os contos de fadas desde menina teve um lado bom e um mal.
O mal é que a inocência, a fantasia logo ficaram pra trás.
O lado bom é que o ser humano ficou mais transparente na minha óptica.(...)

Syl Signoretti

Veja o texto completo

21/10/2009

Cantos de Fadas

Florence & The Machine "Rabbit Heart" PMS from PrettyMonkeyStudio on Vimeo.

07/10/2009

O horror nos contos de fadas


beleza e o horror do pé de junípero, com seu principio extraordinário e trágico, o abominável cozido canibalesco, os ossos repulsivos, o alegre e vingativo espírito do pássaro que emerge de uma nevoa que se erguia da árvore, permaneceram comigo desde a infância, e no entanto sempre o principal sabor dessa história presa na lembrança não foi a beleza nem o horror e sim a distância e um grande abismo de tempo. Sem o cozido e os ossos – de que as crianças de hoje são muito frequentemente poupadas em versos suavizadas dos Grimm – essa visão teria se perdido em larga medida. Não penso que fui prejudicado pelo horror no ambiente dos contos de fadas, não importa de que obscuras crenças e práticas do passado ele possa ter vindo. Tais narrativas têm agora um efeito mítico e total... elas abrem uma porta para um outro tempo, e se a atravessarmos, nem que seja por um momento, estaremos fora de nosso tempo, talvez fora do próprio tempo.

Tolkien

Entre as leituras por excelência para crianças constam contos de fadas (...) o mergulho nesse mundo mágico não é sentimental ou vago; desemboca numa percepção precisa do cotidiano. Esse universo lúdico e de magia não tem nada a ver com a romantização do mundo feita em nome dos contos de fadas pelos adultos. O mundo autêntico dos contos não é idílico, é belo e cruel. Suprimir nos contos o canibalismo, ou modernizá-los para um mundo de fábricas e de concreto armado ou ainda adaptá-los às necessidades humanas, como querem certos pedagogos, liquida com essa forma de cultura.

Walter Benjamin

01/10/2009

Sr. Lobão



oje fui dar uma aula sobre Chapeuzinho Vermelho. Os comentários foram os melhores. Um aluno subitamente perguntou: Por que será que a Chapeuzinho não perguntou pro lobo para que servia aquele pênis tão grande? Outra aluna completou: Não quero nada com príncipe encantado, já que o lobo me ouve melhor, me vê melhor, me abraça melhor e ainda por cima me come melhor!

Adriana Peliano, contadora de histórias sobre histórias.

28/09/2009

Três Histórias



o final da vida Charles Dickens confessou que Chapeuzinho Vermelho foi seu primeiro amor: “Eu sentia que se eu tivesse me casado com Chapeuzinho Vermelho, teria encontrado a felicidade”.


Angela Carter relembra seu primeiro encontro com a Chapeuzinho Vermelho de Charles Perrault: “Minha avó costumava dizer: ‘levante a trava e então entre e para concluir, quando o lobo pulava em cima da Chapeuzinho Vermelho, minha avó fingia que iria me comer, o que me fazia vibrar de prazer.” A avó de Carter vira o jogo da versão popular do conto em que a neta come a carne e bebe o sangue da avó. O depoimento de Carter sobre sua experiência com Chapeuzinho Vermelho mostra que o conto se trata da rivalidade entre gerações além de revelar como o sentido da história se faz quando ela é contada. A cena em que uma história é lida ou contada pode afetar a sua audiência de forma mais poderosa do que suas morais e verdades atemporais incorporadas no texto por Perrault, Grimm e outros.


A experiência infantil de Luciano Pavarotti foi muito diferente da de Carter:

Na minha casa, quando eu era um menino, era o meu avô que contava as histórias. Ele era maravilhoso. Ele contava histórias violentas e misteriosas que me encantavam. Minha história favorita era Chapeuzinho Vermelho. Eu tinha os mesmos medos que ela. Eu não queria morrer, embora não soubesse ao certo o que fosse a morte. Eu esperava ansiosamente pela chegada do caçador.

A morte de Chapeuzinho Vermelho não é engraçada ou erótica. Ao contrário, é um espaço de violência, drama e mistério. A mistura de medo e encantamento captura o fascínio que atrai as crianças. Pavarotti, como Dickens, é apaixonado pela Chapeuzinho Vermelho, mas o que o atrai é a capacidade de Chapeuzinho de sobreviver à morte e ressurgir da barriga do lobo, desafiando a morte.


The Classic Fairy Tales. Edited by Maria Tatar. New York: A Norton critical edition, 1999.

25/09/2009

Out of old tales



et us agree on this: that we live our lives through texts. These may be read, or chanted, or experienced eletronically, or come to us, like the murmurings of our mothers, telling us of what conventions demand. Whatever their form or medium, these stories are what have formed us all, they are what we must to make our new fictions.
...Out of old tales, we must make new lives.


Carolyn Heilbrun in. The Classic Fairy Tales. Edited by Maria Tatar. New York: A Norton critical edition, 1999.

23/09/2009

Bruxeta e Bruchanel


ruxeta, malemolente, dengosa, insinuante, é chamada por Bruchanel com urgência. Bruchanel trajando um modelito do estilista mais nojento do pedaço, um longo preto com babados de abóboras, rendas de teias de aranha e um decote com cortes de peixe espada, elegantérrima, diz a Bruxeta: vá e dê uma poção desastrosa para Alice, que deve estar no País das Maravilhas, transforme-a na apresentadora de TV mais inoportuna que você já tenha tido notícia! Chega de maravilhas o tempo todo, ela não pode e não deve ser mais que eu que vivo nas maravilhas das trevas, de bruxarias em bruxarias insuperáveis, e nunca sou lembrada por ninguém, somente nos contos das outras, das fadinhas de nada, quando então sou morta ou transformada em sapo fedorento ou confinada em estátua sem qualquer charme ou roupa de grife! Bruxeta vai mas volta logo.Bruchanel irritadíssima pergunta o que aconteceu e a esquentadinha responde: olhe, fui e quando deparei a casa toda desarrumada vi que era a Gata Borralheira, mas sem antes verificar que ela estava dormindo como a Bela Adormecida e, como estamos no inverno, totalmente pálida como a Branca de Neve. Afinal, fiquei sem saber quem ela era e vim me certificar com você! Bruchanel totalmente tresloucada de raiva num golpe inolvidável transforma Bruxeta no bicho peçonhento que ela mais detestava: uma imensa hidra gosmenta. Não deu outra, a hidra antes molhadinha e agora gosmenta se chateia como nunca dantes navegara, se explode de brucharia e avança de repente, abre as pernas, ou melhor, os tentáculos, e se apodera de Bruchanel, devorando-a inteira com um prazer exponencial. Ficaram as duas brigando uma com a outra, uma dentro da outra, se uma bruxa sozinha já é um desassossego, duas então numa só um destempero incalculável. Uma queria ir para um lado, a outra para o outro, uma queria ir ao banheiro, a outra à cozinha, uma dormir, a outra esfriar a periquita. Ficaram as duas nesta situação pelos séculos dos séculos para alívio das fadas, duendes e a comunidade das santas e santos do mundo afora. Moral da estória se é que estória tem moral: em bruxarias, não deixe outra bruxa se meter, se não o feitiço acaba com a estória!.


José Carlos Peliano, escritor.

22/09/2009

Os lobos de hoje


u penso que nos dias de hoje o lobo está solto, são as pessoas que roubam crianças recém nascidas, sequestram, matam, seduzem. Os pedófilos que vêem nas crianças objetos de desejo e ditam as regras falando o que as pobrezinhas querem ouvir.O fato da chapeuzinho ir sozinha nos faz pensar: CADÊ ESSA MÃE? Trabalhando, ou ela vive solta, como tantas crianças. Hoje em dia é tão normal ver uma criança um pouco maior buscar seu irmão na escola, claro que, décadas atrás isso podia ser normal e as mães de hoje viveram na pureza de andar na rua sem medo, mas hoje o lobo tá solto e pode ser até o velhinho ingênuo que todo dia agrada seu filho. As crianças esclarecidas já tem medo e receio por que foram criadas nesse contexto que o homem do saco existe, que alguém pode fazer mal... mas.... mesmo vivendo nesse mundo violento existem mães que soltam seus filhos, sem dar atenção, sem estarem presentes na vida escolar, deixando-os soltos na floresta. E quando questionadas falam sempre que é falta de tempo. O lobo mau é aquele que tem tempo, que chega, que seduz com bala, doce, palavras de atenção e carinho... As crianças estão perdendo a inocência e ficando cada vez mais carentes de família.

Drika, 37 anos.

Imagem: cartaz do filme "Hard Candy" deDavid Slade.

Fada abafada


fada abafada de tanto ser fada por atender aos inumeráveis pedidos de estórias de fadas, olhou-se no espelho e disse: é foda ser fada! Sou fada para todos que me pedem encantos, empurrõezinho, jeitinhos e outros que tais e madrinha para os meus diletos eleitos, mas não tenho o troco de fada alguma nem sou eleita dileta por ninguém. É tudo uma questão de interesse, necessidade e proveito próprio! Só toma lá; dá cá, nadica de nada! E olhe que sou uma fada fada porque há fada foda! A temida bruxa que desanca o candidato quando quer! Se bem que há foda fada, o que compensa de uma certa maneira os efeitos do trocadilho. Mas voltando ao meu desabafo: nem cantando um fado de fada dá para amenizar o sentimento de ser foda ser fada porque o fado de fada torna a fada enfadada, engarrafada! O jeito é fazer uma magia para rejuvenescer o espírito de fada. Que tal deixar de ser fada para me tornar uma foda de fada, assim eu vivo no gozo e na completa satisfação, mesmo nas interrompidas! Lá vai ... pirlimpimpim! E assim em lugar da fada madrinha surge a madrinha da foda de fada: a modelo deslumbrante e desabafada deslizando seu dom de fada entre os eleitos e diletos nas passarelas!

José Carlos Peliano, poeta e trocadilhista.

20/09/2009

O teatro de bonecos



Do filme Les quatre cents coups
Direção de François Truffaut (1959)

18/09/2009

Comunismo nos contos de fadas



Fanny Abramovich, escritora.

16/09/2009

O dever das histórias



ara que uma história realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam."

Bruno Bettelheim, “Psicanálise dos Contos de Fadas”.

Lembranças


ão é supreendente descobrir que a psicanálise confirma nosso reconhecimento do lugar importante que os contos de fadas populares alcançaram na vida mental de nossos filhos. Em algumas pessoas, a rememoração de seus contos de fadas favoritos ocupa o lugar de lembranças de sua própria infância; eles transformaram esses contos em lembranças encobridoras."

Sigmund Freud

15/09/2009

My favourite Story


hen I was very young, four or five, my favorite story was “Little Red Riding Hood”: I would ask for it over and over again; protest when my mother would skip a detail in her retelling or change a word; and wear my bright red coat and hat with an air of self-possession. My mother and I did not know at the time that we were reenacting the well-known scene of storytelling, both of us predictably and yet with unintentional effects remaking the tale. I do not recall the ending of this fairy tale as told to me then, but the image of the girl has stayed with me and has taken different forms."

Cristina Bachilega in “Postmodern Fairy Tales: Gender and Narrative Strategies”.

13/09/2009

Livros, desejo e paixão em Clarice Lispector


Ilustração de J. Guillin: Reinações de Narizinho, 1930.

elicidade Clandestina (o livro) foi publicado pela primeira vez em 1971, e reúne 25 contos que tematizam a adolescência, a infância, e a família, sem deixar, em momento algum de se referir as angústias da alma, tal como é próprio da autora. Felicidade Clandestina (o conto) é o primeiro texto da coletânea. Nele Lispector desenvolve a história de uma menina, protagonista e narradora, que vive uma paixão intensa pelos livros, em especial, pelos de Monteiro Lobato.

A narrativa, carregada de pequenas epifanias e mergulhada no estilo intimista característico da autora, gira em torno do desejo, por parte da narradora, de ler o livro As Reinações de Narizinho, e da promessa, por parte de uma colega, de emprestar a obra a ela. A colega não valorizava a leitura, muito menos o privilégio de possuir os mais diversos títulos, e inconscientemente se sentia inferior às outras, sobretudo à “menina devoradora de livros.” Certo dia, a filha do livreiro informou à narradora que podia emprestar-lhe o referido livro, mas que fosse buscá-lo em casa.

A narradora passou a sonhar com o livro. Mal sabia a ingênua menina que a colega queria vingar-se: todos os dias ela passava na casa e o livro não lhe era entregue, sob a alegação de que fora emprestado a outra pessoa. Esse suplício durou muito tempo, até que a mãe da colega cruel interveio na conversa das duas e percebeu a atitude da filha; então, emprestou o livro à sonhadora por tanto tempo quanto desejasse. Neste momento o leitor do conto se surpreende com a atitude da narradora: “Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava umas falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.” (LISPECTOR, 1998, p. 06).

A felicidade clandestina da menina, expressão que intitula o texto e o livro, refere-se ao fato da narradora fazer questão de “esquecer” que estava com o livro para depois ter a “surpresa” de achá-lo. Trata-se da maneira que ela encontrou de deliciar-se lentamente com a posse do livro, além de alastrar, desta maneira, o prazer da espera da “degustação” da leitura. Ao final do conto Lispector sintetiza a paixão da menina pelos livros, e por aquele livro em especial na seguinte expressão: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.” (LISPECTOR, 1998, p. 06).



Fragmento do texto de Fabiano Tadeu Grazioli, mestre em Estudos Literários e diretor do Teatro de Gaiola.

Acesse o texto completo

09/09/2009

Um mundo sem fadas


“ra uma vez uma menina tímida que passou sua infância ouvindo contos de fadas. Cresci sonhando cor-de-rosa e continuo reverenciando estas histórias tão anacrônicas de princesas lindas e indefesas. Junto com os sonhos, esta mesma tia incutiu em mim uma fervorosa paixão pela narrativa, pelo texto, pelas histórias. Virei jornalista; não deixo, pois, de ser uma contadora de histórias. No livro estão reunidas reflexões sobre meu papel de mulher num mundo sem fadas ou príncipes encantados.”

Kátia Canton, no livro “E o príncipe dançou...” O conto de fadas da Tradição Oral à Dança Contemporânea.
São Paulo: Editora Ática, 1994.

Repertório emocional



sse processo foi narrado no livro de Raimund Hoghes que permaneceu com a companhia de Pina Basch durante os ensaios da peça. Os contos de fadas foram usados como fontes na criação de cenas da peça Barba Azul, empregados para estimular as lembranças e o repertório emocional dos intérpretes. As diversas frases, brotadas das memórias dos intérpretes – de diversos países e formações culturais – recordam vários contos. Apesar disso, todos se referem a clichês que homogeneizaram e mitificaram as histórias:

“Eu sou Cinderela e o sapato serve em mim ... Agora o Imperador tem um rouxinol mecânico mas vou esperar até que ele quebre e cantarei para ele... Sou a Chapeuzinho Vermelho e mal posso esperar para encontrar o lobo na casa da vovó... Já joguei 11 sapatos contra a parede, mas não tinha nenhum príncipe dentro... Sou a bela adormecida e estou dormindo há 99 anos. Espero que algo aconteça logo! Sou Pinóquio e comecei a viver.”



Kátia Canton, no livro “E o príncipe dançou...” O conto de fadas da Tradição Oral à Dança Contemporânea.
São Paulo: Editora Ática, 1994.

05/08/2009

Mais Branca que a Neve





ranca de luz.


Foto de WLAD ( FOTO KIDS | RETRATOS, IMAGENS, PIRAÇÕES )

04/08/2009

Ida de Neve


esde que comprei essa fantasia de Branca de Neve há cerca de 3 anos, para ir a uma festa a fantasia onde eu ia trabalhar, tentei já me encaixar no personagem. Como o meu nome é Ida - virei a Ida de Neve. Na primeira vez arrasei no modelo na festinha, mas usei a mesma roupa pra ir discotecar num bar. E fiz muito sucesso. É muito bom ter 1 fantasia no armário. Nem precisa esquentar a cabeça quando te convidam. Dá pra coisas de fetishe também. Tipo namorar um príncipe.... Eu adoro.

Ida Feldman.








01/08/2009

Aladim e o Silvo maravilhoso...

sso aconteceu quando eu tinha 8 anos.
Foi assim...

Era noite e eu estava assistindo televisão. Comecei a divagar como seria bom ter um gênio numa lâmpada à minha disposição. Eu suspeitei então que ele talvez já existisse dentro da minha própria casa e resolvi abrir o armário da sala para investigar. Para disfarçar eu peguei uma lata de Silvo e assim poderia esfregar a prataria sem ninguém desconfiar. Esfregava tudo para ver se aparecia algum gênio. Fui me animando e já estava polindo toda a prataria. Foi quando as pessoas lá de casa acordaram com o barulho e me flagraram com toda aquela confusão. Logo eu que achei que estava tão bem disfarçado...


Anos depois eu tenho esse disco na minha coleção:

Luciano Padilha, 45 anos, médico.

A dança da morte

lá Adriana, conheci o seu blog e me encatei com o que vi.

Com 41 anos e ainda que bem velhinha para acreditar em contos de fadas, confesso: eu acredito. Acredito sobretudo que a literatura ilumina os caminhos obscuros da nossa chamada vida real.

Na UFPA desenvolvo um trabalho com literatura oral, vem daí o encanto pelos contos de fadas, lendas, fábulas, etc. Por isso lhe escrevo, para contar uma das histórias que a minha mãe contava a mim e meus irmão para dormir. Era mais ou menos assim:


MAIS UMA HISTÓRIA DE MARIA

Maria morava em uma pequena cidade, com sua mãe, seu pai e sua irmã.
Uma noite Maria resolveu ir à uma festa. Escondida de sua mãe, Maria se vestiu e da sua casa saiu.
Dançou a noite quase toda com um estranho e esse estranho lhe disse que na noite seguinte iria até a sua casa buscá-la.
Maria sentiu muito medo, pois na mesma noite ela descobriu que o estranho com quem ela dançara era a Morte. E que iria buscá-la em sua casa na noite seguinte.
Arrependida de ter desobedecido as ordens da mãe, Maria ansiosa, temia a chegada da noite e com ela a chegada da Morte para levá-la.
Naquela noite, Maria foi deitar mais cedo, a mãe estranhou, mas nada disse. E Maria se embrulhou dos pés a cabeça. E ainda que estivesse toda agasalhada, Maria tremia, de medo...
Chegando a hora prometida, Maria, somente Maria ouvia uma voz que dizia:
_ Maria, estou na calçada da tua casa.
_ Maria estou no pátio da tua casa.
_ Maria, estou na sala da tua casa.
_ Maria estou no quarto dos teus pais.
_ Maria estou no quarto da tua irmã.
_ Maria estou no teu quarto.
_ Maria estou debaixo da tua rede...
_ ...E TE PEGUEI.


Era o grito minha mãe finalizando a história que deveria nos fazer dormir. Mas agora, nós, meus irmãos e eu nos imaginávamos no lugar da Maria. E o medo nos fazia companhia... Todas as noites ouvíamos a mesma história e todas as noites era o mesmo medo dentro de nós.

Obrigada Adriana por dividir a sua visão artística com os que estão tão distantes.

Giselle Ribeiro, 41 anos, poeta, colagista e professora de Teoria Literária na Universidade Federal do Pará.

12/07/2009

Sobre botinhos e botões


erguntei ao meu amigo Hélio Leites, mágico e contador de histórias, sobre o seu conto de fadas favorito. Ele respondeu encucado que quando se metia com contos de fadas, começava logo a entrar em castelo, sair de castelo, entrar em castelo, até se embaralhar todo e não saber mais para onde ir.

Em sua imaginação delirante, transbordante de encantamento, colecionador e mestre dos botões, Hélio faz bailarina de palito de fósforo dançar em uma casca de nós e cria mundos dentro de uma caixa fósforo. Imaginei então em sua homenagem uma colagem de conto de fadas: o pequeno polegar, uma miniatura de gente, tentando calçar um verdadeiro “botão” de sete léguas.

"Assim que vamos sonhar ou pensar no mundo da pequenez tudo se engrandece." Gaston Bachelard

Com vocês Hélio Leites:


"Olhar para o que todo mundo está vendo e pensar uma coisa diferente" Albert Szent-György


livro sobre Hélio Leites

04/07/2009

Menina de Fases


orena é uma menina de fases. Teve a fase Chapeuzinho, a fase gibis, a fase Alice, e por último, a fase Branca de Neve. Adora ouvir estórias. Na hora da comida ela ouve a estória da menina que não comia nada e ficava tão levinha que saia voando. Ela precisava então comer de novo para poder voltar pra terra.

A pouco tempo ela ganhou um livro pop-up da Alice. Ficou “alicinada”. Vaidosa e feminina, estuda numa escola desencanada, onde pisa na terra e se lambuza de tinta. “É pra não ficar perua!” diz o pai, preocupado e orgulhoso. No cabelereiro, vestida cor de rosa e usando a sua tiara de princesa, ela diz assim: “papai, não pode ir na floresta! Tem logo mau!” Ela é apaixonada pelo DVD da Branca de Neve da Disney. Lindo de morrer! Tem bruxa feia, tem princesa, príncipe, anão... Quando a Branca de Neve é colocada no caixão de vidro, os anões começam a chorar. Ela então pergunta: “mamãe, por que os anões estão chorando?” A morte é uma realidade que ela ainda não conhece. E também fica indignada quando Branca de Neve diz que ama o príncipe encantado. “Ela não ama ninguém não! Ela é só minha!”


Lorena, 3 anos.

03/07/2009

Branca de neve viciada


ra uma vez 7 anões que eram escravizados por uma linda princesa, a terrível Branca de Neve. Ela era viciada em pó de ouro e por isso obrigava seus escravos a trabalharem em uma mina de ouro para saciar o seu vício. Está é a história do clipe SONNE da banda Rammstein. Eu conheci esta banda em 2006 quando comecei a estudar alemão. Achei muito interessante ver a imagem da Branca de Neve distorcida e subvertida, ela deixa assim de ser uma princesa boazinha, bobinha e ingênua e passa a ser uma viciada que quase morre de overdose. Espero que vocês gostem do clipe.

Karen Rego, 22 anos, atriz.

26/06/2009

Nos dias de hoje


m uma sala de quarta série, a professora de língua portuguesa trabalhou com os alunos o conto Cinderela. Para a finalização do projeto as crianças tinham que recontar a história transportando-a para os nossos dias. E então, a história foi contada da seguinte maneira:

O pai da Cinderela seria o dono de uma grande empresa. Sua madrasta seria a chefe de Cinderela que, por sua vez, seria a secretária, pois afinal, ser secretária hoje em dia não é nada fácil. E o baile da Cinderela, para variar, acontece toda sexta, numa balada!


Cristiane Berlanca, 24 anos, professora e bailarina.

23/06/2009

Contos, retalhos e tijolos

s crianças têm um particular prazer em visitar oficinas onde se trabalha visivelmente com coisas. Elas se sentem atraídas irresistivelmente pelos detritos, onde quer que eles surjam – na construção de casas, na jardinagem, na carpintaria, na confecção de roupas. Nesses detritos, elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas assume para elas, e só para elas. Com tais detritos, não imitam o mundo dos adultos, mas colocam os restos e resíduos em uma relação nova e original. Assim, as próprias crianças constroem seu mundo de coisas, um microcosmo no macrocosmos.

O conto de fadas é uma dessas criações compostas de detritos – talvez a mais poderosa na vida espiritual da humanidade, surgida no processo de produção e decadência da saga. A criança lida com os elementos dos contos de fadas de modo tão soberano e imparcial como com retalhos e tijolos. Constrói seu mundo com esses contos, ou pelo menos os utiliza para ligar seus elementos. O mesmo ocorre com a canção e com a fábula.


Walter Benjamin (1892 - 1940), crítico literário, tradutor e filósofo.

Trecho extraído do livro “Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.” São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

22/06/2009

Sobre as ilustrações


As pessoas têm me perguntado bastante sobre as ilustrações desse blog. Fui eu que fiz? Encontrei na internet?

Um pouco de cada. Respondi uma vez que as ilustrações são colagens que faço sobre imagens que pesquiso bastante e, em geral, capturo na rede. Tem algumas que mudo muita coisa, outras faço uma leve interferência no original. Quando a imagem aparece tal e qual eu encontrei, eu costumo avisar. Agora, como é natural numa colagem, dificilmente se precebe quem fez o que. Independente disso o principal é o sentido da ilustração. Ou seja: uma imagem de outro contexto, com outro sentido, se desloca e passa a participar de um novo jogo de idéias em relação com o texto.

Depois disso achei num livro "por acaso" esse texto oportuno.

Novas formas surgem ao longo do processo criador, muitas vezes, a partir da metamorfose de formas já existentes, inclusive formas do próprio artista. O “novo” é uma inflexão de uma forma anterior; a novidade é, portanto, sempre uma variação do passado. Esse aspecto, que envolve o ato criador, abre espaço para se observar questões relativas à intertextualidade.

As combinações intertextuais dão origem a “textos” que são tecidos de citações, saídas dos mil focos da cultura que, para Barthes, implica a morte do autor. A transformação se dá, portanto, por meio de re-significações e deformações de formas apreendidas. Assim, combinações insólitas acontecem na complexidade da ação criadora que, segundo a perspectiva aqui proposta, abre espaço para as autorias novas.

Essas novas formas estão, certamente, relacionadas com os diferentes processos de apreensão do mundo. Encontramos, assim, a unicidade de cada obra e a singularidade de cada artista na natureza das combinações e no modo como estas são concretizadas.


Cecília Almeida Salles. Gesto Inacabado. São Paulo: Annablume, 2007.

19/06/2009

Ritos primitivos

ueria relatar uma história bastante impressionante e que leva a pensar. Ela retrata o caso de uma menina de dois anos e meio, na sua primeira fase de teimosia, que, quando ela e a mãe faziam compras, recebeu de presente uma ilustração de Chapeuzinho Vermelho e o lobo. Na imagem era visível que o lobo, vestido com a touca e a camisola da avó, esperava Chapeuzinho Vermelho. A menina, que conhecia o conto de fada somente até o encontro do lobo com Chapeuzinho Vermelho no bosque, agora queria saber porque o lobo estava na cama. Ela ouviu atentamente o conhecido diálogo entre o lobo e Chapeuzinho Vermelho. O diálogo precisou ser repetido umas dozes vezes, pelo menos.

Nas noites seguintes a criança dormia muito inquieta e acordava com pavor do lobo mau. Não houve melhor meio para ajudá-la do que procurarem a figura, cortarem o lobo fora dela e o queimarem. Assim a criança ficou mais calma durante a noite, porém durante o dia ela perguntava muitas vezes, interessada, pelo animal. Cada vez era necessário dizer que o lobo tinha sido queimado, que não havia mais lobo nenhum, a não ser bem longe na Rússia.

Umas semanas apos estes fatos o pai da menina queria levá-la a um passeio até o bosque vizinho. A mãe, preocupada, dizia-lhe enquanto a vestia para sair: “Agora você vai com papai ao bosque para ver os coelhinhos engraçadinhos!” Radiante, a menina saiu. Mas na escada da casa encontraram um vizinho idoso que perguntou à menina aonde ela ia. Para surpresa de todos a menina respondeu, bem decidida, sem hesitar: “Ao bosque, para ver o lobo da Ússia”!

É interessante notar como mesmo essa criança sensível procura o encontro com o lobo poderoso e temível, e isso por iniciativa própria. Parece que ela dispõe de forças que a estimulam a buscar esse monstro devorador de crianças e opor-se a ele.

Observamos que essa criança espontaneamente procura um acontecimento que encontramos, em forma cristalizada, nos ritos de iniciação das culturas primitivas. Aparentemente, nesses rituais parte-se do princípio que o amadurecimento só advém por meio do sofrimento, dor e tormento. Um grau de maturidade ulterior só pode ser alcançado apos dissolução do grau anterior. Durante as solenidades introdutórias à puberdade, nas culturas primitivas, ainda se evocam de “fato” no iniciando, e dispõe de uma catálogo para nós incrível, de crueldades. Nas formas mais altas dessas solenidades de iniciação que, como é sabido, podem ir até os processos espirituais mais elevados, eles só se apresentam sob forma simbólica. Suas imagens mostram, porém, inteiramente, o mesmo caráter que conhecemos pelos contos de fadas e ritos primitivos.


Trecho extraído do livro “Contos de fadas vividos” de Hans Dieckmann. São Paulo: Paulinas, 1986.

Chapeuzinho Amarelo

Essa é uma estória que eu adoro escrita pelo Chico Buarque. Ela também fala sobre como os contos de fadas transformam a vida das pessoas e como as pessoas transformam as estórias, se transformando.

Chapeuzinho Amarelo


ra a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.

Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra.
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo.

Era a Chapeuzinho Amarelo...
"E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.

Mesmo assim a Chapeuzinho tinha cada vez mais medo do medo do medo do
medo de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.

E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele.
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós, .
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz...
E um chapéu de sobremesa.

Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.

O lobo ficou chateado de ver aquela menina olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
-E feito um lobo sem pêlo.
Um lobo pelado.

O lobo ficou chateado.

Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada, com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO umas vinte e cinco vezes,
Que era pro medo ir voltando e a menininha saber com quem não estava falando:
LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO

Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!"
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.

Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo, porque sempre preferiu de chocolate,
Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
Com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
Com a sobrinha da madrinha
E o neto do sapateiro.
Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.

E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:
O raio virou orrái; barata é tabará; a bruxa virou xabru; e o diabo é bodiá.

FIM

(Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo: o Gãodra, a Jacoru, o Barão-tu, o Pão Bichôpa... E todos os tronsmons. )

A vida real dos contos de fadas

uando comecei a minha pesquisa para esse blog, investiguei no Orkut as comunidades existentes sobre contos de fadas. A grande maioria delas se dividia no seguinte dilema: A vida é ou não é um conto de fadas? Existem vários exemplos tendendo para os dois lados.

Recebi recentemente algumas imagens que brincam com essa idéia de maneira crítica e divertida. Acredito que são também "Dizcontos de Fadas" por fazerem esse cruzamento entre a ficção e a realidade, revelando uma apropriação subjetiva desses contos. Estou divulgando as imagens exatamente como as recebi. Não sei o autor.

Tente descobrir quem são as "princesas".








Fotos: Dina Goldstein
Fonte: Revista Bravo!/Ago 09.

15/06/2009

Contos de fadas vividos

uando se pergunta a um grande número de pessoas, sem preparo analítico: “Qual foi, na sua infância, o seu conto de fadas preferido?”, poucas poderão dar resposta verdadeira e honesta. Na maior parte essas histórias estão submersas no inconsciente, e é por isso que se coloca questão – por meio de qual estratégia podem elas ser trazidas à consciência? Outra pergunta é, quais os meios para que esses contos possam ser usados na terapia, a fim de promover o processo de cura e de individuação durante o tratamento?
Não só os motivos oníricos de contos e fadas, mas também certos contos de fada, em si mesmos, podem apresentar relações profundas com o destino, o mundo interior, certas formas de experiência, modos de comportamento, doenças e fraquezas e ainda como méritos e forças do homem. Pode ser o caso de um conto de fada um uma história parecida com conto de fada, pela qual uma pessoa foi profundamente fascinada em sua infância, por que a amava muito ou ficou por ela aterrorizada. Mais tarde esse conto foi esquecido ou reprimido e submergiu no inconsciente, onde, porém, conservou vitalidade notável e desenvolveu efeitos que o adulto nunca tinha percebido como tendo qualquer conexão com o conto.

Trecho extraído do livro “Contos de fadas vividos” de Hans Dieckmann. São Paulo: Paulinas, 1986.

13/06/2009

As maçãs


Existe uma famosa compilação de contos de fada da Índia cuja primeira história começa assim: Todos os dias aparece na sala de audiência do Rei um mágico que lhe entrega uma linda maçã. Distraído, o Rei remete a seu ajudante de ordens que, por sua vez, manda jogá-la num quarto distante. Assim se faz durante um ano inteiro, até que um dia o macaco da Rainha, que se tinha soltado, pula dentro da sala de audiências, pega a maçã e a morde. Quando faz isso, todos vêem com admiração que esta maçã contém em seu interior uma pedra preciosa muito bela. Aí o Rei, naturalmente, investiga às pressas o lugar onde estavam as outras maçãs. De fato, encontram-se de baixo da polpa apodrecida das frutas desprezadas, um monte de pedras preciosas de grande valor, cujo número corresponde exatamente aos dias do ano.

Assim acontece conosco quanto aos contos de fadas. Após a infância jogamo-los fora como se não tivessem valor. “É somente um conto de fada”, dizemos, e os deixamos apodrecer num quarto distante. Até que quem sabe, passamos a viver uma situação – seja uma séria doença da alam, seja uma crise na vida – em razão da qual, por necessidade, abrimos esse quarto.

A força criadora plástica e a sabedoria profunda dos contos de fadas nunca mais me deixaram desde que pela primeira vez estive em contato com a sua plenitude, quando menino ainda, na casa da minha avó. Os contos de fadas se reavivaram quando comecei a contá-los ao meu primeiro filho, e finalmente reencontrei todos esses amados da minha infância no inconsciente de meus pacientes quando fui ser psicanalista. Freqüentemente, os contos estavam esquecidos, há tempo, na consciência dos pacientes, mas lá no inconsciente estavam vivos. Surgiram nos seus sonhos e disseram a essas pessoas muitas coisas estranhas, às quais nunca haviam prestado atenção e ao largo das quais tinham passado, mas que vieram evidenciar-se agora, de repente, como as maiores preciosidades da sua alma.


Trecho extraído do livro “Contos de fadas vividos” de Hans Dieckmann. São Paulo: Paulinas, 1986.

10/06/2009

Qual é o seu conto de fadas favorito? (parte 1)


ual é o seu conto de fadas favorito? – É uma pergunta que gosto de fazer a amigos e conhecidos.

A maioria das mulheres responde “Cinderela” sem pensar, enquanto homens parece confusos, fazem uma pausa e respondem:
- Não consigo me lembrar de nenhum. Será que “Peter Pan” vale?

Depois de alguns minutos de reflexão, contudo, a maioria das pessoas pesca algumas imagens que vêm à superfície, carregadas de significado, mesmo que o esboço do enredo tiver sido esquecido. A escolha (que, afinal, pode acabar não sendo “Cinderela”) oferece uma visão de vislumbre da alma do interlocutor, ainda que sua relevância permaneça oculta. Tantas imagens enchem os contos de fadas clássicos que eles estão destinados a conter uma dúzia de diferentes matizes para uma dúzia de leitores, o que torna a interpretação de contos de fadas para uma pessoa algo tão tentador e arriscado quanto desenredar o sonho dela.



Trecho extraído do livro "Fiando Palha, Tecendo Ouro" de Joan Gould. São Paulo: Rocco, 2007.

Qual é o seu conto de fadas favorito? (parte 2)


ual é o seu conto de fadas favorito? – É uma pergunta que gosto de fazer a amigos e conhecidos.

- "Rumpelstiltskin” – disse-me uma mulher, uma resposta incomum. – Éramos pobres, de modo que eu não tinha muitos brinquedos quando era pequena, e pensava como seria maravilhoso pegar um fardo de palha e entrelaçá-lo até virar ouro de modo que pudesse comprar todos os brinquedos que queria.

- "Rumpelstiltskin” – disse-me outra mulher, mais jovem. – Eu me via como a heroína que era ameaçada com a morte se não fiasse a palha de modo que se transformasse em ouro, e assim prometeu ao anão que se ele tecesse a palha para ela iria lhe dar seu primogênito. Esse é meu medo secreto, um sentimento de que meu bebê não é realmente meu. Eu não o fiz, posso não merecê-lo, ele pode não ficar comigo, por não ser meu. Algum dia precisarei pagar um resgate para salvá-lo do destino.

- O anão, não a Rainha, é o pivô da história – observou um psiquiatra. – Seu sentimento de que seu nome, que é a sua identidade, tem de ser mantido em segredo, caso contrario ele será revelado ao mundo como o corcunda, a criatura ridícula, murcha e enrugada que ele sabe ser. E se isso acontecer, ele desaparecerá.


Trecho extraído do livro "Fiando Palha, Tecendo Ouro" de Joan Gould. São Paulo: Rocco, 2007.

09/06/2009

Prisioneiro de um quarto assimétrico


epois de um dia extenuante de trabalho, sou despejado no hotel. Subo diversos andares e adentro o quarto escuro. Tateio as paredes até encontrar o interruptor, acendo as luzes apenas p/ checar se está tudo certo, neste momento o que mais desejo é escuridão e dormir. O clima é frio, tomo um banho quente e deslizo para debaixo das cobertas, apago as luzes, olhando para o teto penso em dormir para sempre naquele quarto.

No meio da madrugada acordo, olho para o celular para ver as horas, o visor está apagado, decido me levantar na escuridão e topo com a parede, minha memória do espaço do quarto era outra, fico com a impressão de que levantei do lado errado da cama. Procuro localizar o interruptor para acender as luzes e começo a tatear as paredes, a impressão é de um local diferente, estou agora em um quarto com paredes assimétricas sem portas ou janelas e um espaço minúsculo ao redor de uma cama. Concluo se tratar de um sonho.

No meio da madrugada acordo, olho para o celular para ver as horas, o visor está apagado, decido me levantar na escuridão e topo com a parede, minha memória do espaço do quarto era outra, fico com a impressão de que levantei do lado errado da cama. Procuro localizar o interruptor para acender as luzes e começo a tatear as paredes, a impressão é de um local diferente, estou agora em um quarto com paredes assimétricas sem portas ou janelas e um espaço minúsculo ao redor de uma cama. Concluo estar aprisionado naquele quarto e lamento ter desejado dormir ali para sempre.

No meio da madrugada acordo, olho para o celular para ver as horas, o visor indica que são cinco horas e vinte e três minutos.

Isso não é um conto de fadas, mas uma participação querida de um amigo especial.


Jum Nakao, 42 anos, Estilista e Diretor de criação.

07/06/2009

Dona Daluz e sua filha

oma o rolo dum livro, e escreve nele todas as palavras que tenho falado, desde os dias de Josias até hoje.
Jeremias, 36:2

Era uma vez, no meu tempo do era proibido, em que duas coisas me eram expressamente interditadas. A televisão é a primeira, a segunda era todo livro que não fosse a Bíblia. Nesse caminho do dois posso apontar também dois fatores que preponderavam nessas duas proibições. O primeiro era a Fé da minha mãe e o segundo, não menos relevante, era a nossa situação precária de camponeses nômades.

O fato é que a minha primeira meninice foi muito longe de Fadas e Bruxas, Príncipes e Princesas. Se esses personagens quisessem alguma chance de se aproximar de mim teriam uma luta ferrenha com meus Anjos, Demônios e Bestas de sete cabeças e dez chifres. E do lado destes estavam também sacis, caiporas, mulas-sem-cabeça e até os caipiras da quadrilha de Festa Junina. Era “tudo coisa do Satanás!”, dizia a minha mãe. “E o Coisa-ruim é um trem traiçoeiro!”, continuava ela, “Foi exatamente numa dessas festa de quermesse que você fica de olho, que um dia ele apareceu transformado num home lindo, todo cheroso e vestido com terno branco. Tinha também um chapéu na cabeça que não tirava por nada. A sua boa dança e a sua beleza chamou a atenção de todo mundo no baile. Todas essas mocinha sem-vergonha que vão pra forró queriam dançar com ele. Já tava dançando com a última delas quando o calor no baile ficou infernal. De repente a mocinha percebeu que estava saindo uma fumaçinha da cabeça do seu parceiro e assustada tirou o chapéu dele. O Oh foi geral. Era gente correndo pra tudo qu’é lado, pois tudo tinha ficado claro. Na cabeça do tar bunitão tinha dois chifres! Ao ver que tinha sido descoberto, o Capeta fez um estouro e desapareceu de repente, deixando o ambiente todo cheio de fumaça e cheirando enxofre. Por isso é que eu digo, meu filho, essas música, essas dança, é tudo coisa Dele!”. E foi assim que quando eu tive a oportunidade um pouco tardia de entrar na escola, sempre fugia, orgulhosamente, de ser noivo, cavalheiro ou qualquer outro personagem nas quadrilhas juninas. Na ocasião dessas festas ficava em casa bem a salvo do Coisa-ruim.

Mas foi bem antes d’eu aprender a ler, lá na minha alturinha magricela dos quatro e cinco anos, que a minha avó materna inaugurou algo levado à continuidade por minha mãe durante longo tempo. A velha que já tinha dado à luz onze vezes, como num ritual muito sagrado e toda carinhosa lia-me a Bíblia. Eram deliciosas e, ao mesmo tempo, assustadoras histórias que faiscavam meus olhos e ficavam dias crepitando na minha imaginação. Ao perceber o meu grande interesse a Dona Daluz não exitou em passar a me chamar de anjinho e me eleger como um instrumento do Senhor. Concepção que lhe deu a idéia de me fazer decorar salmos e histórias inteiras da Bíblia para recitar no púlpito da igreja no culto reservado aos jovens em louvação ao Senhor. Ela relia, pacientemente, trecho a trecho inúmeras vezes até eu conseguir reproduzir de memória ipsis litteris o que estava no texto bíblico.

Quando aquele pitoco de gente, magricela e orelhudinho, pronunciava a última palavra do salmo ou da história era uma comoção geral. As senhoras presentes choravam e gritavam “Aleluia!”. “É um anjo!”, exclamavam e repetiam para os ouvidos orgulhosos de dona Daluz e sua filha Serdilete, a minha mãe.

O entusiasmo para continuar com a obra do instrumentinho do Senhor só aumentava. Lembro-me que não havia censura de qual história da Bíblia eu poderia decorar, já que todas eram de inspiração de Deus mesmo! Era assim que a minha caminhada bíblica ia do Éden à Ilha de Patmos. Peregrinação que me fez passar por Abraão, Josué, Moisés e o seu cajado mágico, Davi e o gigante Golias, Elias e sua capa mágica, o temente rei Josias que foi coroado com oito anos, o paciente Jó, o sábio rei Salomão e inúmeros outros. Passei pelo caminho do Gólgota várias vezes e fiz o caminho de Damasco diversas outras.
Mas entre os meus maiores fascínios estavam as mulheres bíblicas. E começava lá com a Eva, esse pedaço da costela de Adão que os levou à expulsão do Paraíso. Depois posso recomeçar a enumerar pela rainha vilã Jezebel, a sedutora Cleópatra, a extravagante rainha de Sabá, a ardilosa Dalila, a ambiciosa Salomé, a fiel Maria Madalena e dentre tantas outras a mítica, e para mim a sempre mais fascinante, mulher que foge do dragão. Esta última é puro símbolo, nem nome ela tem. Está, portanto, muito distante da densidade chã de uma Dalila ou Salomé. Coisa que sempre me faz perguntar o que nela me impressiona tanto. Por isso terei que contar aqui a história dela para ver se alguém se habilita a me ajudar na investigação do que seria tão impressionante nessa mulher:

A mulher e o dragão

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça.
E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz.
E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas.
E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho.
E deu à luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono.
E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias.
E houve batalhas no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhava o dragão e seus anjos.
Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. [...]

E quando o dragão viu que fora lançado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz o varão.
E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente.
E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar.
E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a sua boca e tragou o rio que o dragão lançara da sua boca.
E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao resto da sua semente, [...].
(Apocalipse 12. Da tradução de João Ferreira de Almeida.)

O que dizer dessa fugitiva toda vestida de sol, coroada com estrelas e com a lua debaixo dos pés?!

O fato é que a vovó Daluz ficou para trás, se tornando apenas uma lembrança cercada pela imaginação na memória de um rapagão, hoje com 29 anos, que aos cinco anos teve que deixar os avós para acompanhar o pai nômade.

Movido pela promessa de riqueza, meu pai resolveu sair do sul e migrar para o norte. Foi em 1984 que, junto a mais outra família, atravessamos o país escondidos na sufocante carroceria de um caminhão. E foi lá, no território amazônico, morando na floresta e em situações cada vez mais precárias, que as minhas histórias bíblicas mantidas acesas pela minha mãe passaram a conviver com as aventuras do Pedro Malasarte e histórias de assombração contadas por meu pai ao pé da lamparina. Mas isso já é outra história!


Josias Padilha, 29 anos, Ator e Contador de Histórias

30/05/2009

Num contínuo e interminável “Conto de fadas”...


ara começar, peço licença de contar um pouco o que significou, para a criança que fui, ainda antes de chegar ao Brasil, a constante convivência com a palavra, a literatura, as histórias maravilhosas, encantadas, fantásticas, incríveis, mas sempre “verdadeiras”! Histórias em prosa e em versos, de várias fontes, origens e idiomas, num contínuo e interminável “Conto de fadas”. Histórias que povoavam a minha cabeça, o meu coração, manha imaginação, minhas emoções e, sim, levavam ao pensar! A ponto de contribuírem, sem dúvida, ao desenvolvimento da minha – e não direi precoce – weltanschaung juvenil, ao alimentarem o meu insaciável apetite por mais e mais “alimentos”.

E por que falo aqui da minha experiência pessoal? Por que ela não é pessoal, mas sim, como entendo, geral e coletiva, atingindo todas as crianças que tenham a sorte de ser expostas ao conto maravilhoso, ao conto de fadas – e a todas as outras.


Tatiana Belinky , 90 anos, escritora.

Fragmento colhido do livro O Conto De Fadas (2008) de NELLY NOVAES COELHO. Edições Paulinas, 2008.

29/05/2009

O homem e seus lobos

Freud explica...


ecordava ele que havia sofrido de um medo na infância, que sua irmã explorava com o propósito de atormentá-lo. Havia um determinado livro de figuras no qual estava representado um lobo, de pé, dando largas passadas. Sempre que punha os olhos nessa figura começava a gritar, como um louco, que tinha medo de que o lobo viesse e o comesse. A irmã, no entanto, sempre dava um jeito de obrigá-lo a ver a imagem, e deleitava-se com o seu terror.

Entretanto, ele se amedrontava também com outros animais, grandes e pequenos. Certa vez estava correndo atrás de uma grande e bonita borboleta, com asas listradas de amarelo e acabando em ponta, na esperança de apanhá-la. De repente, foi tomado de um terrível medo da criatura e, aos gritos, desistiu da caçada. Também sentia medo e repugnância dos besouros e das lagartas. Ainda assim, conseguia lembrar-se de que, nessa mesma época, costumava atormentar os besouros e cortar as lagartas em pedaços. Também os cavalos despertavam nele um estranho sentimento. Se alguém batia num cavalo, ele começava a gritar, e certa vez foi obrigado a sair de um circo por causa disso. Em outras ocasiões, ele próprio gostava de bater em cavalos.

Certa vez em que as crianças ganharam uns confeitos coloridos em forma de bastão, a governanta, que era propensa a fantasias desordenadas, disse que eram pedaços de cobra cortada. Ele lembrou-se, depois, de que o pai encontrara uma vez uma cobra, ao caminhar por uma picada, e a fizera em pedaços com uma vara. Ouviu a história lida em voz alta, de como o lobo queria pescar no inverno e usou a cauda como isca, e como, dessa maneira, o rabo do lobo se congelou e partiu. Aprendeu os diferentes nomes pelos quais se distinguem os cavalos, conforme estejam intactos ou não os seus órgãos sexuais. Assim, ocupava-se com pensamentos sobre a castração, mas ainda não acreditava nela, nem a temia. Outros problemas sexuais surgiram para ele nos contos de fadas com que se havia familiarizado nessa época. No ‘Chapeuzinho Vermelho’ e em ‘Os Sete Cabritinhos’, as crianças eram tiradas do corpo do lobo. Seria o lobo uma criatura feminina, então, ou poderiam os homens ter também crianças dentro do corpo? Nessa época, a questão não se colocara ainda. Mais que isso, na época dessas perguntas ele não tinha ainda medo de lobos.

"Meu Sonho". Sergei Pankejeff, 1964.

Esse foi um sonho que teve na ocasião:

‘“Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. (Meu leito tem o pé da cama voltado para a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho, e de noite.) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães pastores, pois tinham caudas grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como cães quando prestam atenção a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei. Minha babá correu até minha cama, para ver o que me havia acontecido. Levou muito tempo até que me convencesse de que fora apenas um sonho; tivera uma imagem tão clara e vívida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na árvore. Por fim acalmei-me, senti-me como se houvesse escapado de algum perigo e voltei a dormir.

A única ação no sonho foi a abertura da janela, pois os lobos estavam sentados muito quietos e sem fazer nenhum movimento sobre os ramos da árvore, à direta e à esquerda do tronco, e olhavam para mim. Era como se tivessem fixado toda a atenção sobre mim. - Acho que foi meu primeiro sonho de ansiedade. Tinha três, quatro, ou, no máximo, cinco anos de idade na ocasião. Desde então, até contar onze ou doze anos, sempre tive medo de ver algo terrível em meus sonhos.”

Ele acrescentou um desenho da árvore com os lobos, que confirmava sua descrição. Em todo caso, suas afirmações e atitudes justificam a suposição de que, durante esses anos da sua infância, passou por um ataque de neurose obsessiva, facilmente reconhecível.

A análise do sonho trouxe à luz o seguinte material: Ele sempre vinculara este sonho à recordação de que, durante esses anos de infância, tinha um medo tremendo da figura de um lobo num livro de contos de fadas. Na figura, o lobo achava-se ereto, dando um passo com uma das patas, com as garras estendidas e as orelhas empinadas. Achava que a figura deveria ter sido uma ilustração da história do “Chapeuzinho Vermelho”.

‘Por que havia seis ou sete lobos? Não parecia haver resposta para esta pergunta, até eu levantar uma dúvida sobre saber se a figura que o assustava estava vinculada à história de “Chapeuzinho Vermelho”. Este conto de fadas só oferece oportunidade para duas ilustrações - Chapeuzinho Vermelho encontrando-se com o lobo na floresta e a cena em que o lobo se deita na cama, com o capuz de dormir da avó. Teria de haver, portanto, algum outro conto de fadas por trás de sua recordação da figura. Ele logo descobriu que só podia ser a história de “O Lobo e os Sete Cabritinhos”. Nesta, ocorre o número sete, e também o número seis, pois o lobo só comeu seis dos cabritinhos, enquanto que o sétimo se escondeu na caixa do relógio. O branco também nela aparece, pois o lobo fizera branquear sua pata no padeiro, após os cabritinhos haverem-no reconhecido, em sua primeira visita, pela pata cinzenta. Além disso, os dois contos de fadas possuem muito em comum. Em ambos existe o comer, a abertura da barriga, a retirada das pessoas que haviam sido comidas e sua substituição por pesadas pedras, e, finalmente, em ambas o lobo mau perece. Além disso tudo, na história dos cabritinhos aparece a árvore. O lobo deitou-se sob uma árvore, após a refeição, e roncou.

Durante o tratamento, ele se dedicou com perseverança incansável à tarefa de vasculhar os sebos até encontrar o livro ilustrado da sua infância, reconhecendo o seu mau espírito numa ilustração da história de ‘O Lobo e os Sete Cabritinhos’. Achou que a postura do lobo nessa gravura poderia ter-lhe recordado a do pai. Em todo caso, a ilustração tornou-se o ponto de partida.

Este é o mais antigo sonho de ansiedade que o jovem que sonhou recordou de sua infância, e seu conteúdo, tomado juntamente com outros sonhos que o seguiram pouco após e com certos acontecimentos de seus primeiros anos de vida, é de interesse muito especial. Temos de limitar-nos aqui à relação do sonho com os dois contos de fadas que têm tanto em comum um com o outro. “Chapeuzinho Vermelho” e “O Lobo e os Sete Cabritinhos”. O efeito produzido por estas histórias foi demonstrado no pequeno que as sonhou mediante uma fobia animal comum. Esta fobia só se distinguia de outros casos semelhantes pelo fato de o animal causador da ansiedade não ser um objeto facilmente acessível à observação (tal como um cavalo ou um cão), mas conhecido dele somente de histórias e livros de figuras. Observarei apenas, que essa fobia acha-se em completa harmonia com a característica principal apresentada pela neurose de que o atual sonhador padeceu mais tarde na vida. Seu medo do pai era o motivo mais forte para ele cair doente e sua atitude ambivalente em relação a todo representante paterno foi o aspecto dominante de sua vida, assim como de seu comportamento durante o tratamento.

‘Se, no caso de meu paciente, o lobo foi simplesmente um primeiro representante paterno, surge a questão de saber se o conteúdo oculto nos contos de fadas do lobo que comeu os cabritinhos e de “Chapeuzinho Vermelho” não pode ser simplesmente um medo infantil do pai. Além disso, o pai de meu paciente tinha a característica, apresentada por tantas pessoas em relação aos filhos, de permitir-se “ameaças afetuosas”; e é possível que, durante os primeiros anos do paciente, o pai (embora se tornasse severo mais tarde) pudesse, mais de uma vez enquanto acariciava o menininho ou com ele brincava, tê-lo ameaçando por brincadeira “de engoli-lo”. Uma de minhas pacientes contou-me que seus dois filhos nunca puderam chegar a gostar do avô, porque, no decurso de seus ruidosos e afetuosos brinquedos, com eles, costumava assustá-los dizendo que lhes cortaria as barrigas.’

Pra encurtar a história, ao estudar as associações do "Homem dos lobos" durante a sua terapia, Freud chegou à conclusão de que o sonho refletia uma "cena primária" testemunhado pelo paciente, de seus pais tendo relações sexuais.


Adaptação dos textos ‘A Ocorrência, em Sonhos, de Material Oriundo de Contos de Fadas’ (1913) e “História de uma neurose infantil” (1914), de Sigmund Freud.

28/05/2009

Conte a sua história


uem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopedia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.

Ítalo Calvino (1923 – 1985), escritor.
Fragmento colhido do livro “Seis propostas para o próximo milênio”.

27/05/2009

Almas como aves


muito tempo atrás - para ser mais precisa, nos anos 50 – o conhecimento dos contos folclóricos europeus era muito restrito na América do Norte. A maior parte deles era censurada e apenas alguns contos circulavam entre o grande público. Entre esses estavam algumas versões cor-de-rosa de "Cinderela" ou "A Bela Adormecida", histórias que apresentavam heroínas passivas à espera de serem salvas pelo príncipe encantado. É fácil de entender por que muitas mulheres se opuseram a essas histórias, vistas como estímulos à inércia feminina. Mesmo essas poucas histórias chegaram a sofrer censuras. Naquele momento se condenava tudo aquilo que incentivasse ou mesmo reconhecesse as emoções mais sombrias do ser humano. Para as meninas bem comportadas dos anos cinquenta, a principal atração dessas histórias era de fato as roupas das princesas.

Eu não era uma menina bem comportada nos anos cinqüenta. Eu tinha nascido em 1939, logo após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando não era possível varrer as emoções mais sombrias para baixo do tapete. Elas estavam expostas ostensivamente aos olhos de todos: medo, ódio, crueldade, sangue e destruição. Um conto de fadas com alguns corpos desmembrados, não era naquele momento tão ameaçador assim.

Eu fui exposta a um grande número desses contos em uma idade bastante precoce, antes das versões açucaradas tomarem conta. Quando eu tinha cinco ou seis anos, meus pais me deram de presente um livro com os contos de fadas dos irmãos Grimm. Este não era um livro para agradar às crianças pequenas. Para alguns, acredito, deve mesmo ter provocado terríveis pesadelos. As diversas cenas violentas e assustadoras que apresentavam estavam bem distantes das roupas deslumbrantes e encantadas que agradariam às boas moças.

Mas por que então eram tão atraentes essas histórias? É difícil dar uma resposta definitiva. Com certeza elas não têm qualquer aplicação direta para a nossa vida real. Elas não são muito úteis do ponto de vista prático. Não era para nossa vida exterior que os contos de Grimm se endereçavam, mas para o nosso mundo interno. Estas histórias têm sobrevivido ao longo de tantos séculos e com tantas variantes, porque elas são muito ricas para a nossa vida interior - pode-se dizer que são acolhidas pelo nosso mundo dos sonhos, porque reúnem os pesadelos e o pensamento mágico. Como diz Margaret Drabble, há um mistério em tais histórias que vai muito além do alcance da mente racional.

Se me perguntassem que história era a minha favorita não saberia dizer. Pensando hoje, cerca de cinqüenta anos mais tarde, acredito que eram aquelas que tinham pássaros no enredo.

Nos contos de fadas, as aves são mensageiras que conduzem o herói na floresta escura, trazem notícias, aconselham, executam vinganças, como o pássaro na história "O Noivo ladrão", ou as pombas bicando os olhos das irmãs no final de "Cinderela". Tinham ainda aqueles pássaros que se transformavam em gente. Esses eram o meu tipo predileto.

Encontramos muitos pássaros assim em contos dos irmãos Grimm como: "A cotovia que canta e pula", “Jorinda e Joringel” , “Os seis cisnes” , “Os sete corvos” , “Os doze irmãos” . No meu ponto de vista as duas histórias mais impressionantes de metamorfose em pásaros são: “A árvore de Junípero” e “O pássaro de Fichter” . Naquela época eu não sabia nada sobre as muitas lendas em diferentes culturas em que as almas dos mortos se tornam aves de vários tipos. Ainda assim eu já sabia que as pessoas que transformam em aves nos contos de fadas na verdade estavam mortas, e que portanto transformá-las novamente em humanos não era apenas um gesto de metamorfose, mas de ressurreição.

Porque é que eu estava interessada em trazer os mortos de volta à vida? A maioria das crianças tem essa preocupação, especialmente quando conhecem alguém que tenha morrido, ou que estejam perto da morte. Sua compreensão da morte não costuma ir tão longe aos reinos abstratos do “não ser”, especialmente tendo sido informadas de que os mortos vão para o céu, ou partem em uma longa viagem, ou ainda se tornam anjos. As crianças foram portanto induzidas a acreditarem que os mortos ainda existem em algum outro lugar.

Ainda assim, a ressurreição é uma idéia que é muito atraente para as crianças. Significa que nada nem ninguém vai ser perdido de uma vez por todas. Então, essa possibilidade de ressureição foi para mim foi o principal apelo de "A árvore de Junípero".

Em "O pássaro de Fichter", a menina fica horrorizada ao descobrir que suas duas irmãs foram cortadas em pedaços, mas ela se descobre capaz de montar suas partes de novo no lugar para que as meninas voltem a viver. Já adulta descobri que esse gesto se aproximava de antigos rituais xamânicos de morte e renascimento do norte da Europa.

Por outro lado, a casa do bruxo na “floresta escura” se assemelha ao reino da morte, com o bruxo sendo uma espécie de Hades que rapta a donzela Perséfone. Então o que temos é uma menina que é forçada a entrar no palácio da morte e acaba adquirindo uma nova forma para o corpo (a caveira que ela deixa para trás) e uma forma para a alma (o pássaro). De fato, ela realiza a sua própria ressurreição. É um poderoso façanha, todos devíamos começar a recolher mel e penas de pássaro imediatamente.

Porque é que nessas histórias as almas se tornam aves em vez de outra coisa? Eles podem, evidentemente assumir a forma de outras criaturas como sapos, ursos, raposas, árvores, borboletas, e assim por diante. Aves e almas, no entanto, parecem ter uma afinidade natural – talvez pela leveza, pelo vôo, pelas asas, ou pelo canto. Mas todos os animais e as aves nos mitos e na tradição folclórica existem em uma zona de fronteira - a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Uma das grandes tarefas dos antigos xamãs era a de conduzirem a alma para fora do corpo, quando ela assumia formas animais e visitava o mundo dos mortos. Para quê? Para reunir informações úteis para o mundo dos vivos e se comunicar com os mortos.

Essas estórias dos Grimm com metamorfoses de aves são, portanto, parte de uma estrutura muito maior. As irmãs que ter fazem votos de silêncio e costurar para desencantar seus irmãos transformados em aves, ou que entram no escuro mortal das casas de bruxas e feiticeiros a fim de resgatar os seus entes queridos, ou então, para salvar a si mesmos, são herdeiros de uma longa tradição. De acordo com Carlo Ginzburg em "Êxtases: decifrando os Sabás das bruxas", ir para o além e retornar não é apenas um entre muitos motivos do folclore e da mitologia: é o motivo, o "núcleo elementar da narrativas” que tem acompanhado a humanidade durante milhares de anos. A participação no mundo dos vivos e dos mortos, nas esferas do visível e do invisível é um traço distintivo da espécie humana.

Não admira, então, que essas histórias de aves, essas histórias de viagens para o mundo dos mortos, me intrigaram quando criança. Eles são parte da história que tem intrigado a todos nós, como seres humanos, por muito mais tempo do que qualquer pessoa possa se lembrar.

Margaret Atwood, 69 anos, escritora.

Texto adaptado do livro “Mirror, mirror on the wall: women writers explore their favorite fairy tales” editado por Kate Bernheimer – 2nd Anchor Books, 1998.

A primeira imagem é uma colagem minha, as outras foram colhidas de artistas como Polly Morgan, Jenny Bird, Maggie Taylor, Nathalie Shaun e David Stoupakis, entre outros artistas que adoro.

O Baguá da Branca de Neve


ejam vocês como são as coisas. Estava eu num misto de sono e impaciência na sala de espera da minha médica essa semana. Eis que eu me deparo com um livro semi aberto sobre a mesa da secretária e eu resolvo dar uma espiada. Não é que justo naquela página que dava pra ver eu enxerguei em itálico as palavras Branca de Neve?
Eis o que estava escrito:

“ ... Finalmente comecei a realizar meu antigo sonho. Sempre adorei arrumar as casas das pessoas. Quando criança, assistia encantada ao clássico Branca de Neve e os Sete Anões. De modo especial, cativa-me até hoje o momento em que ela entra na casa dos anões e coloca ordem na confusão. Arruma tudo, organiza e prepara uma comidinha bem gostosa. Pois é, Branca de Neve faz um maravilhoso Feng Shui no lar de seus amigos.
Meu prazer é justamente esse: criar espaços sagrados onde as pessoas possam viver com alegria, além de ensiná-las a levar beleza e paz para esses ambientes. Prossegui portanto trabalhando com decoração ...”


Silvana Helena Occhialini, consultora de Feng Shui.
Feng Shui – o poder de atrair prosperidade.

24/05/2009

O Super - anjo


uando tinha 12 ou 13 anos sonhava sempre com meu anjo da guarda, meu primeiro amor. Sempre tive uma relação com os sonhos diferente, me pareciam reais em outra dimensão ou espaço. Tenho sonhos recorrentes, que continuam ou se repetem com o tempo, acrescentando ou alterando situações. Desde criança domava os sonhos vez ou outra, conseguia pará-los, mudar o cenário, a situação, ou acordar (deveria me suicidar no sonho para passar pra outro ou acordar). Às vezes meu sonho me enganava e eu sonhava que estava acordada, mas logo percebia que o quarto estava diferente e tentava novamente acordar. Nunca dissociei muito bem realidade e ficção, minha percepção do mundo é fantasiosa e fabulosa.

De repente, percebi que em momentos em que eu me via em apuros, um garoto aparecia e me salvava, sem me tocar. Ele era formado de outra coisa, diferente dos demais. Diferente também dos mortos, que nos meus sonhos, conseguia separá-los dos vivos - pois conversávamos por telepatia ao invés de usar a voz ou os movimentos da boca.

O garoto simplesmente aparecia e me salvava de monstros, acidentes, perseguições, do escuro, da floresta, da violência da cidade... e desaparecia rapidamente assim que eu estivesse a salvo. Não conseguia me aproximar, era tão rápido que nunca conversamos. Acordava e suspirava lembrando-me de suas feições, mesmo sabendo que estas feições eu havia inventado, que sua forma física eu havia idealizado. Sabia também que cuidar de mim era o trabalho dele, mas adolescentes não sabem que não se deve misturar a vida profissional e a pessoal, mesmo metafisicamente.

E foi assim durante um longo tempo – um romance delicioso, que preenchia todas as aspirações na vida real. Era mágico, contraventor, tinha aventura, bons personagens e figurinos maravilhosos, ritmo e a sensação de ser único e especial – como todos os amores.

No decorrer dos dias e meses eu vivia apenas para esperar a noite, para dormir. Sabia que ele era o meu anjo da guarda verdadeiro, mas que eu conseguia ver apenas nos sonhos. Dentro deles comecei a me aventurar mais, me arriscar, me colocar em apuros... ele sempre aparecia, com muita eficiência, resolvia tudo e desaparecia. Isto se tornou recorrente e desesperador, esperar a noite, esperar o sonho em que ele apareceria. Ficava aguardando o sono, que vinha conturbado e estava sempre aflita quando o dia começava a chegar.

Fiquei perdidamente apaixonada pelo meu anjo da guarda. Havia alegria pelo encantamento da relação e um pouco de tristeza perante sua impossibilidade. Assim me jogava na frente de carros, me deparava com abismos, aproximava-me de monstros e do medo, da morte. Começava a me distanciar dos amigos durante o dia, na varanda da minha casa aguardava o final da tarde e o começo da noite, sonhando acordada com os sonhos dormindo.

Até que a situação ficou desgastada, perigosa. Forças que controlam as coisas começavam a se preocupar e resolveram intervir. Eu estava desafiando demais o que já estava estabelecido, eu não poderia viver nestes dois mundos, então onde este romance iria acontecer? Gostava da minha vida mas gostava tanto dele, queria beijá-lo, abraçá-lo - apenas desejava esse momento sem pensar como poderia acontecer.

E foi assim que um dia, Deus nos concedeu um encontro. Era um não-lugar, um buraco no tempo e espaço, com muita luz e amplidão. Lá estava ele – e eu. Ele me olhou nos olhos e me abraçou, disse que me amava - não da forma como eu entendia como amor ou gostaria que fosse. Disse que gostava muito de ficar comigo (ser meu anjo da guarda) mais que aquela situação havia chegado ao limite: Ele não ficaria mais comigo e Deus enviaria outro anjo em seu lugar.

Chorei, chorei muito, abraçada a ele. Fiquei arrasada e com a fúria insolente dos adolescentes, não quis entender a situação. Voltei a Deus (nos meus sonhos converso com o nada – que é ele) e gritei com muita dor. Disse que - já que não poderia amar e ser amada por aquele anjo - não gostaria de saber quem seria o substituto e nunca mais gostaria de sonhar com isto. Eu e o anjo nos despedimos, acordei aos prantos.

E foi o que aconteceu...


Juliana Freire, 28 anos, artista plástica e galerista.

23/05/2009

Meu sonho guardado nas estrelas


s contos de fadas que me acompanharam durante minha infância fizeram-me acreditar na magia do amor. Mais precisamente todos aqueles contos onde existe um príncipe encantado a procura de sua amada. Eu sempre achei lindo e fui crescendo com a vontade de viver uma verdadeira história de amor digna de virar conto de fadas. Fui crescendo e acreditando que o verdadeiro amor existe.

Hoje com 28 anos ainda sonho em encontrar meu "príncipe encantado". Mas hoje já aprendi que o príncipe não é um homem perfeito. É sim um amor verdadeiro. Sim, ainda sonho em encontrar meu verdadeiro amor. E viver eternamente ao seu lado.

Eu sou amante das estrelas, adoro ficar deitada ou sentada somente olhando e admirando. Me trás força, me trás paz e me trás a certeza que o amor é capaz de existir. Há muito tempo atrás eu tinha adesivos iluminados em forma de estrelas numa parte do teto do meu quarto. A noite ficava como se tivesse um buraco no teto onde dava a impressão de eu realmente se via as estrelas num céu de verdade. E numa noite eu desejei o homem perfeito pra mim, como seria seu jeito e até mesmo suas características. Fiz o meu pedido.

E dentro de mim eu acreditava que esse mesmo homem estaria em algum lugar olhando as estrelas e pensando em mim. Esse é um segredo meu de menina. Mesmo depois de tanto tempo e tantas decepções amorosas. Meu pedido não foi esquecido. Meu sonho não foi deixado de lado. Hoje me pergunto se perdi a chance de ter encontrado.Ou se contos de fadas não existem. Mas algo me diz que não, que ainda existe um sonho guardado pra mim nas estrelas esperando o momento certo para ser realizado.

Pra mim as estrelas são mágicas.Tenho certeza que ainda vou encontrar o meu príncipe encantado.


Ana Cláudia Abreu, 28 anos, estudante de geologia.

O lobby dos contos de fadas


Boi-da-Cara-Preta-da-Silva caminhou até a janela mais uma vez, irritado pela demora do e-mail daquele felino. O gato do Atirei-um-pau-no-ga-to-to-de-Souza prometeu conseguir as assinaturas de muitas fadas, lobisomens, artistas, para que também eles pudessem entrar para os contos de fadas, ou pelos menos nas fábulas. Mas até agora somente políticos de Brasiliana Tropical assinaram o abaixo-assinado. Mas igual nas CPIs, eles sempre acabam retirando a assinatura.

O Boi-da-Cara-Preta-da-Silva desde o início deste movimento social foi contra o sistema de cotas para os bois pretos, coisa que alguns queriam fazer. Ele acha um absurdo para a educação infantil aquelas mães que cantam para seus filhos aquela música terrorista que diz: “Boi-Boi-da-Cara-Preta, vem pegar essa menina que tem medo de careta”. Isso pode, e também pode colocar a cara dele numa lata de cerveja, e com cara de bravo.

Muitas horas de terapia já foram gastas pela letra dessa música. É injusto. O Boi-da-Cara-Preta-da-Silva quer isonomia, igualdade de direitos e o cumprimento da constituição brasileira. Afinal, a Gata-Borralheira pode aparecer em contos de fadas. E com final feliz. A Bela-Adormecida é despertada por um príncipe que vai montado num cavalo branco. Cavalo pode. Mas Boi-da-Cara-Preta não pode. E muito menos o Boi-da-Cara-Preta-da-Silva, ele.

E existe o Gato-de-Botas, além do fato de muitas princesas terem sempre um gato ao seu lado. Até bruxas, como a Madame Mim tem um gato, o Miaurício. Magos, bruxas, feiticeiros, sempre têm um gato subserviente ao seu lado, usufruindo do poder. É o próprio PMDB. Só a bruxa-feiticeira dançante cantante, Madame Mon, tem quatro cães ao seu lado.

Na história da Chapeuzinho Vermelho tem um Lobo. Tem ainda outro lobo na história dos Três Porquinhos. Ou seja, o lobby dos cães e lobos tem funcionado. E o da Sadia e da Perdigão também, tanto com os suínos quanto com a galinha dos ovos de ouro. Até o lobby dos cavalos obtém resultados. O Pégassus é sustentado pelas escolas de samba e pelo GLS. E os urubus do La Fontaine foram adotados pelo Flamengo.

O Boi-da-Cara-Preta-da-Silva, além do descaso do felino, o de Souza, acha que as divisões internas da sua espécie, com os ramos do Bumba-Meu-Boi e do Boi-Bumbá também atrapalham. Sem contar que o Garantido e o Caprichoso que nunca se largam, mas não se compõe. Isso é igualzinho a um partido político que está no poder. Sempre. Isso é que é conto de fadas.

Os teóricos dizem que nos conto de fadas não precisa ter fadas. Eles são significativos para a criança que ainda não consegue compreender o sentido dos conceitos éticos abstratos. Os contos de fadas mandam à mente da criança, ao seu consciente e inconsciente, a mensagem de que as dificuldades existem, mas que podem ser enfrentadas. As histórias se desenrolam, mostram caminhos para o alívio das pressões psicológicas do ego e mostram que existem caminhos para enfrentar as dificuldades.

E o Boi-da-Cara-Preta-da-Silva continua querendo sair da letra da música, sair do rótulo da lata de cerveja e da quadrilha do Atirei-um-pau-no-Ga-to-to-de-Souza, aquele lobista. O que vale é que no país que vai sediar a Copa de Futebol de 2014 o churrasco que se serve nos estádios é churrasquinho de gato. Em breve os felinos serão apenas gatos-pingados.

Assim, o conto de fadas é uma necessária construção sócio-histórica. É transgeracional e sobrevive principalmente pela história oral. E pelo lobby que patrocina, segundo afirma o Boi-da-Cara-Preta-da-Silva.


Amadeu Roselli Cruz, psicólogo e professor universitário.

22/05/2009

Por debaixo dos panos


m algum momento no final dos anos 60, eu tive uma boneca que era de um lado Chapeuzinho Vermelho, e do outro lado, o lobo e a avó. Você virava a saia da Chapeuzinho Vermelho sobre sua cabeça e encontrava a avó, cuja toca você desdobrava para revelar a cara do lobo. Eu chegava a ter medo dessa boneca que eu escondia sempre que podia. Alguma coisa me parecia errada em encontrar alguém vivendo debaixo da saia dela. Mas logo depois eu superei e medo e a curiosidade passou a me dominar. Eu ia então atrás da boneca e virava e desvirava sua saia inúmeras vezes. Posso dizer que essa estória nunca deixou de me fazer cócegas. (Nessa época ainda não conhecia “A história da avó”). (...)

Kate Bernheimer

Texto adaptado do livro “Mirror, mirror on the wall: women writers explore their favorite fairy tales” editado por Kate Bernheimer – 2nd Anchor Books, 1998.

A História da Avó

(...) "Tire a roupa, minha criança", disse o lobo, "e venha para a cama comigo."
"Onde eu devo colocar meu avental?"
"Jogue no fogo, minha criança. Você não vai precisar mais dele."
Quando ela perguntou ao lobo onde colocar todas as outras coisas, o corpete, o vestido, a saia, as meias, cada vez ele dizia: "Atire ao fogo, minha criança. Você não vai precisar mais deles." (...)

A dama e a vagabunda


u me apaixonei pelos contos de fadas ainda muito jovem. Tive muitas bonecas de pano e insistia em chamá-las de Elizabeth, ou Ella pra encurtar, que rimava com Cinderella. Por muitos anos insisti em ser Cinderella no Halloween, mas ela antes da transformação. Eu ia no quintal e sujava meu cabelo e rasgava um vestido de festa (eu pensava que seria mais autêntico se minhas roupas fossem maltrapilhas, assim como as roupas dela). Minha irmã mais velha teve também sua obsessão com contos de fadas, mas de uma forma diferente. Ela foi uma noiva por nada menos que seis Halloweens. Eu posso até estar exagerando, mas isso é assim a história ficou na minha memória. (...)

Kate Bernheimer

Texto adaptado do livro “Mirror, mirror on the wall: women writers explore their favorite fairy tales” editado por Kate Bernheimer – 2nd Anchor Books, 1998.

Sede de Rapunzel


a minha infância tinha uma sede enorme de saber sobre a história da Rapunzel. Não tinha o livro em casa e minha mãe não lembrava bem da história... Cada vez que ela me contava era de uma forma diferente.
Passei tempos com vontade de conhecer a verdadeira versão. Até que acabou caindo no esquecimento.

Anos e anos se passaram e eu tive uma filha que se encantou, dentre outras, com a história da Bela e a Fera. Através dela conheci o mundo mágico e belo desse conto. Emocionava-me cada vez que chegava a parte em que Bela percebe que a Fera conseguiu conquistá-la realmente. É uma história tão bem elaborada e tão rica em detalhes, que me faz viajar.

Essa história, diferente das outras mais conhecidas sobre princesas, mostra uma moça que quer ser alguém além de uma passiva "esposa do príncipe". Ela é interessada em literatura e artes em geral, como seu príncipe, que cada vez mais tenta se superar para conquistar o amor da princesa e "quebrar o encanto" que o aprisiona no corpo de uma fera. Acredito que é um dos contos que mais estão em sintonia com a atualidade!


Daniela Roxo, 37 anos, publicitária.

Cinderela no século XXI


inderela é uma histórias que ouvimos, nós meninas, desde cedo. Muitas continuamos um pouco Ciderelas, mesmo algum tempo depois... Pensar em Cinderela hoje é pensar numa mulher não tão passiva, à espera do príncipe. É pensar em uma mulher que vai à luta, não se deixa submeter. Ainda assim, é preciso que o príncipe nos encontre, e que encontremos o príncipe. Pensamento romântico por excelência, que não deixa de povoar a mente de meninas e algumas mulheres até o século XXI. (...)

Fragmento colhido do livro “Era uma vez – Irmãos Grimm: Histórias recontadas por Kátia Canton".

Anna Kesselring, 48 anos, artista plástica.

21/05/2009

A menina e a figueira


u escutei esta história quando era adolescente (nem foi minha avó quem me contou!) e fiquei bastante impressionada... Mexeu muito comigo, de verdade. Além disso, eu adorava a canção que tinha bem no meio dela. É uma história que faz parte da cultura popular; um conto de encantamento...

Outro dia, minha mãe foi me ouvir em uma das apresentações como contadora de estórias. Eis que me deu um troço, e fiquei com vontade de contar a dita cuja! O fato é que minha mãe chorou muito e disse que jamais esquecerá da emoção que eu lhe transmiti, enquanto contava a história. Fiquei também muito emocionada! Espero que goste.

A menina e Figueira

Era uma vez, um senhor viúvo, que tinha uma filha muito bonita, com os cabelos longos e da cor do ouro. Sua mãe em vida, penteava e cuidava dos seus cabelos como se realmente fossem fios de ouro.
Na vizinhança morava uma moça que queria se casar com o pai da menina e, por isso, fazia-lhe tantos agrados, que ela chegou ao pai e lhe disse:
- Meu pai, por que você não se casa com a vizinha? Ela é tão boa para mim! Todos os dias quando vou a sua casa, ela me dá pão com mel.
- Minha filha, quando ela se casar comigo, lhe dará pão com fel.
Mas a menina não acreditava, e tais agrados a moça lhe fez que o pai acabou se casando com ela.
Depois do casamento, a madrasta começou a maltratar a menina, castigando-a pela falta mais insignificante.
O marido tinha no jardim uma enorme figueira, e a pequena era obrigada a vigiá-la o dia todo, para que os passarinhos - seus amigos - não comessem os figos e quando isto acontecia, a madrasta batia-lhe sem piedade.
Aconteceu, um dia, que os pássaros comeram os figos, e tendo viajado o marido, a madrasta enterrou a menina num capinzal que havia no jardim.
No dia seguinte, o marido chegou e procurou a filha; a madrasta disse-lhe que havia desaparecido.
Mais tarde, o jardineiro foi cortar capim para dar ao cavalo e ao passar a foice no capim, ouviu este canto triste e se pôs a escutar:

Jardineiro de meu pai
Não me corte os meus cabelos,
Minha mãe me penteou, minha madrasta me enterrou,
Pelos figos da figueira que o passarinho bicou.
Xô passarinho, xô passarinho, da figueira de meu pai.

Então o jardineiro foi contar ao patrão o que acabara de ouvir. Este foi ao capinzal, mandou o jardineiro passar a foice no capim, e novamente ouviram o canto.
Reconhecendo a voz da filha, mandou o jardineiro cavar a terra e, encontrando a menina ainda com vida, levou-a para casa. Botou a mulher para fora e não quis mais saber dela ficando só com a filha.
Era uma vez a vaca Vitória. Caiu no buraco; depois vem outra história...


Débora Kikuti, 40 anos, contadora de histórias.

Blog da Débora

Fairyland


y introduction to Fairyland, in all its numerous manifestations, came through the now sadly out-of-fashion English writer, Enid Blyton. My father taught me to read before I started school, and I quickly exhausted the limited supply of ‘suitable’ books in our tiny little house and wanted more. So one glorious day, I was wrapped up in my 1950s duffle coat, and marched down to the local library, which had a children’s section in a side room; it seemed immense to me at the time, and I thought there could not be so many wonderful books in the world, although I believe now that I probably have more volumes on my own shelves than there were in that bright and airy little room.

In those days, Enid Blyton was a hugely popular author for children, and her countless works out-numbered those by other writers as I scoured the library bookshelves. She was able to write for any age of child, and her different series of books took me from pre-school days (with Noddy and his Toytown chums) to my early teenage years, when I was hooked on ‘The Famous Five’ and the various ‘Adventure’ stories.

But the books that affected me most deeply and most permanently were the three about The Magic Faraway Tree. This was a tree in an enchanted wood, inside of which lived all manner of fairies and elfs and other eccentric creatures. Most magically of all, if you climbed to its very top, you would gain access to a different land, but the lands themselves moved around, so each one was only there for a short period of time, and you had to get back to the tree before it moved, or you would be trapped there for ever. Some lands were lovely, and others were less so. They included Nursery Rhyme Land, The Land of Tea Parties, The Land of Know-alls, The Land of Treats, The Land of Spells, The Land of Dreams, The Land of Do-What-You-Please, and many others. In each chapter of the three books, the child heroes and heroines would climb the tree, have an exciting adventure in the marvellous land, and be home safely in time for tea, often having learnt an important life lesson as a result of their experiences. Even now, I find it hard to think of a more versatile and imaginative premise for a book for children.

Although I eventually outgrew the Faraway Tree, it left me with a love of magical worlds, and specifically of magical worlds that could be accessed from our own mundane one. Not for me the self-contained and self-sustaining universes of Middle-Earth or Discworld; my love is for lands like Wonderland and Oz and Neverland and Narnia, worlds that I might one day discover myself, stepping out of my front door and tumbling down a rabbit hole or being whisked away by a cyclone. A few years ago, I was driving along a motorway when I came upon a stretch of road where a builder’s lorry had spilt some of its sand, and turned the road yellow. Just for a moment, the little child inside me grew excited, and shouted out to follow the yellow road because it would take me to Oz.

And that is the effect Enid Blyton’s Magic Faraway Tree had on my life. Even now, I always think there could be a Fairyland round the next corner. And even now, I keep seeking it.


Michael O’Connor, 55 anos, editor e escritor, Inglaterra.

Site do Michael

Elogio à concisão

Agora estou colecionando também depoimentos de escritores sobre a importância dos contos de fadas em suas vidas e em suas obras. Aceito colaborações.


e num determinado período da minha atividade literária senti certa atração pelos contos populares e as historias de fadas, isso não se deveu à fidelidade a uma tradição étnica ( dado que minhas Raízes se encontram numa Itália inteiramente moderna e cosmopolita), nem por nostalgia de minhas leituras infantis (em minha família as crianças deviam ler apenas livros instrutivos e com algum fundamento científico), mas por interesse estilístico e estrutural, pela economia, o ritmo, a lógica essencial com que tais contos são narrados. Em meu trabalho de transcrição de fábulas italianas, que fiz com base em documentos de estudiosos de nosso folclore do século passado, encontrava especial prazer quando o texto original era muito lacônico e me propunha a recontá-lo respeitando—lhe a concisão e procurando dela extrair o máximo de eficácia narrativa e sugestão poética. Por exemplo:

"Um Rei adoeceu. Vieram os médicos e disseram: “Majestade, se quereis curar-vos é necessário arrancar uma pena do Ogro. É um remédio difícil de arranjar, pois o Ogro come todos os cristãos que encontra.
O Rei falou a todos mas ninguém se prestou a ir. Pediu a um de seus súditos, muito fiel e corajoso, e este disse: “Eu vou”. Mostraram-lhe o caminho: “Em cima de um monte há sete cavernas; numa delas está o Ogro.”
O homem lá se foi e a noite o surpreendeu no caminho. Parou numa hospedagem..." (Fábulas Italianas, 57)


Nada se informa sobre a doença de que sofre o Rei, de como será possível que um Ogro tenha penas, ou como podem ser tais cavernas. Mas tudo que é nomeado tem uma função necessária no enredo. A principal característica do conto popular é a economia de expressão: as peripécias mais extraordinárias são relatadas levando em conta apenas o essencial; é sempre uma luta contra o tempo, contra os obstáculos que impedem ou retardam a realização de um desejo ou a restauração de um bem perdido. O tempo pode até parar de todo, como no castelo da Bela Adormecida, bastando para isso que Charles Perrault escreva:

“(...) até mesmo os espetos no fogo, cheios de perdizes e faisões, haviam adormecido e bem assim o fogo. Tudo isso aconteceu num breve instante: as fadas não perdiam tempo no executar dos seus prodígios.”

Ítalo Calvino (1923 – 1985), escritor.
Fragmento colhido do livro “Seis propostas para o próximo milênio”, p.50

Mínima estória






quando eu acordei, o lobo mau ainda estava lá...

20/05/2009

Tudo se completa


ui criada ouvindo estórias tradicionais e contos de fadas. Branca de Neve, Cinderela e outros mais. Meu pai era médico e viajava muito. Por isso não fiz o curso primário. Três meses de aula e lá íamos nós de novo para uma nova cidade, como ciganos. Depois eu fazia os exames e acabava passando.

Nessa época eu lia muito. Foi quando caíram em minhas mãos incríveis estórias de cavalaria. Me lembro bem de Amadis de Gaula, uma obra marcante do ciclo de novelas de cavalaria da Península Ibérica do século XVI. Aos dez anos entrei em contato com a obra de Monteiro Lobato e achei chatíssima. Minha grande paixão era mesmo Alice no país das Maravilhas. Alice foi o primeiro personagem com quem eu de fato me identifiquei. Eu usava sapatinho de verniz, vestido de boneca e avental de organdi. Na minha cabeça eu era a própria Alice.

Descobrimos mais tarde que a nossa carência financeira vinha da atitude secreta de meu pai de doar tudo para os pobres. Eu também ficava sem graça de pedir livro sendo que tanta gente passava fome. Eu acabava lendo os livros dele. Tinha Dostoievsky, José de Alencar e tantos outros, mas eu sempre voltava às estórias infantis. Eu me lembro que buscava o sentido de tudo aquilo, mas ainda estava muito perdida. Então fiz o pedagógico onde estudei literatura infantil mas na maneira de outrora, antes do Bettelheim.

Tive uma professora de psicologia muito moderna. Eu comecei a ver um outro lado desse universo fantástico. Minha família era muito agnóstica e científica, não tínhamos espaço para a fantasia. Com vinte anos descobri que esse outro lado era bem maior do que a racionalidade científica. Na mesma época me apaixonei pela Índia e comecei a estudar mitologia. Aos dezessete anos fui estudar literatura na Aliança Francesa e descobri, entre outras coisas, que Vitor Hugo era espírita.

Me envolvi novamente com as estórias infantis e descobri naquele momento que as estórias não estavam prontas e acabadas, ao contrário, se transformavam através do tempo além de existirem várias versões para cada estória. Quando eu li o livro da Nelly Novaes Coelho sobre contos de fadas, comecei a suspeitar de que as fadas realmente existissem.


Quando moramos em Uraí, no Paraná, estudei um pouco de japonês pois lá tinha uma colônia japonesa e meu pai, como médico, atendia aquela gente. Tinha uma música de ninar que eu gostava muito que dizia assim: “ Chô, chô pavão! Sai de cima do telhado e deixe esse menino dormir seu sono sossegado.” Descobri então que em japonês existia a mesma canção só que com outro pássaro. Aos nove anos refleti: Se no Japão cantam a mesma música, será que esse pássaro não existe de verdade?

Perto da casa dos meus avós tinha morcego e coruja. Há uma lenda que diz que quando a coruja canta anuncia a morte de alguém da casa. Era o sobrenatural me chamando e eu buscava relações na psicologia e na mitologia. Na minha ânsia de entender melhor esse universo eu ia atrás da literatura francesa medieval, do espiritismo de Alan Kardec, de Maupassant e Mallarmé entre outros, costurando todos esses vínculos com o fantástico.

Além da literatura, eu sempre fui fascinada por arte. Comecei a relacionar os seres alados da Grécia antiga por exemplo, com os contos de fadas. As explicações psicológicas não me satisfaziam. Será que essas figuras não existiam de verdade?

Fotografia autêntica das Fadas de Cottingley.

De uma amiga querida eu recebi um exemplar da revista planeta. Foi quando eu fiquei sabendo do caso de duas meninas inglesas que fotografaram fadas de verdade. Na mesma época eu me apaixonei pela Índia através do meu grupo de Yôga e meu professor que tinha uma cabeça muito aberta. Comecei a suspeitar que de fato existiam energias invisíveis que podiam se manifestar e aparecer para as pessoas.

O tempo foi passando. Meus interesses foram se ampliando. Literatura infantil, contos celtas, mitologia grega e hindu, novos campos se abriam. Foi quando dois eventos especiais me surpreenderam muito. Um deles foi a aparição de espíritos para mim. Em uma noite de insônia eles tentaram se comunicar comigo, ao mesmo tempo que me transmitiam uma grande energia de cura. Só que eu tive muito medo no dia. Contei para um amigo que era espírita e ele exclamou: “mas que maravilha!”. Senti que na natureza, de fato, tudo se transforma e portanto, quando a pessoa morre, a energia dela se conserva em uma outra dimensão.

Comecei a estudar o trabalho energético dos celtas nas florestas e lagos, paralelamente com o candomblé e a mitologia grega. Me encantei com o mundo das fadas e fui à Bretanha num local onde se acredita ter existido um reino de fadas muito sofisticado. Por que lá? Creio que seja em função de uma grande concentração de energia na região que se comprova pelos dolmens como Stonehenge.

Mais tarde tive a chance de ver de fato um disco voador de perto. Não só eu mas um também um grupo que estava comigo e as pessoas que estacionaram nos acostamentos. Chegou até a sair no jornal. Enorme, colorido, ele passou lentamente sobre nossas cabeças. Aqui em São Paulo mesmo.

Diante disso me ficava a pergunta: os monstros e seres fantásticos serão realmente meras entidades psíquicas ou eles existem de fato? Me lembro de uma autora que viu fadas no Central Park. Essa autora inglesa teve a sorte de nascer na Índia, um país que não faz a separação entre a fantasia e a realidade.

A todo momento presencio fenômenos que transitam entre mundos. Como a estória de um imóvel aqui perto de casa, onde nada dava certo. A crença geral era de que havia uma caveira de burro enterrada lá. Até que um padre exorcista foi ao local e indicou o ponto exato onde um trabalho de macumba podia ser encontrado debaixo da terra. O mesmo padre foi visitar uma conhecida minha que passava por sérias dificuldades. O padre pediu que ela trouxesse o seu travesseiro onde ele encontrou uma pequena boneca feita de cabelo. Ele podia sentir aquela energia negativa em atividade.

Os contos de fadas foram então ganhando mais peso na minha vida depois de adulta. Quando criança era o fascínio pelo maravilhoso, pela possibilidade de ter poderes mágicos, de fugir dos desconfortos da realidade cotidiana. Envelhecendo eu fui analisando esses fenômenos sob outros aspectos e relacionando com esse mundo dos seres imaginários, que eu sempre suspeitei que fosse real. Desde a surpresa com canção do pavão busco a conexão entre as diferentes culturas e momentos históricos, entre a mitologia e a psicologia, entre o real, o sobrenatural e o imaginário e assim vou cruzando fronteiras. Depois de tanto analisar, hoje eu busco a síntese, pois fui descobrindo ao longo dos anos, que tudo se completa. Tudo é um!


Baseado no depoimento oral de Tereza Vasques, 70 anos, professora de cinema e literatura.

19/05/2009

O menino lobo


i Luísa, tudo bom?
- tudo.
- Deixa eu te perguntar uma coisa. Quando você era criança, ouvia muitas estórias?
- Ah, não sei não?
- Tem certeza? Nenhum conto de fadas, estória de assombração?
- É, tô lembrando. Isso é antigo! Eu morava no interior, sabe? Tinha estória de bruxa, de princesa, de final feliz, de final triste ... Tinham também aquelas que fingiam que eram boas no começo e no final eram ruins que só...
- Tem alguma estória que você gostava mais?
- Tinha a estória da onça que comia as crianças e a do menino lobo também.
- Menino Lobo? Como era essa estória, se lembra?
- Eu me lembro que dizia assim: Pra que esse orelhão tão grande? Pra que esse bocão tão grande!?


Luísa de Magalhães, 59 anos, cozinheira.

Floresta de símbolos


esde que vi esse blog fiquei pensando na possibilidade de escrever. Fui vendo as coisas escritas, mas não me senti enquadrado no perfil das estórias que estavam aparecendo porque as histórias que, de fato, povoaram a minha infância, não vinham dos disquinhos nem dos filmes da Disney (teve a "Montanha enfeitiçada"!) ou da literatura infantil (teve o “Menino do dedo verde”... ) que, no geral, eu odiava por serem no final vinculadas a uma moral que eu sempre achava horrível.

Passei a infância em Brasília na SQN 415, uma quadra no final da Asa Norte absolutamente isolada, nem ônibus chegava lá. Havia a quadra no meio, o lago no fundo e o mato em volta, tanto que parte desse mato, hoje, virou um parque. Então as coisas que povoavam a minha infância eram criaturas que viviam no mato, na "floresta", e histórias que contavam sobre uma suposta casa de fazenda que teria existido próxima ao laguinho do parque. Nós, as crianças, fazíamos viagens de exploração na "fazenda". Descobrimos os restos de um calçamento no meio do mato e de uma construção em alvenaria. Isso funcionou como um "selo" capaz de garantir a veracidade de todas as histórias que contavam sobre a fazenda.

Tinham as histórias de escravos, os espíritos da floresta, as histórias de bichos (cobras principalmente) e das crianças perdidas. Nossa, essas eram um terror! Sempre alguém havia sido raptado semana passada. O velho tarado do parquinho, a velha do saco, a eterna memória da morte da Ana Lídia; lembra dela? O primeiro assassinato de criança em Brasília? E o pior é que eu estudava no mesmo colégio que ela, o Madre Carmen Salles que, aliás, contavam, tinha o corpo sem se decompor em uma capela em um lugar na Itália. Teve o caso de um japonês encontrado morto dentro do laguinho, boiando com uma cobra enrolada em volta do corpo. Olhando assim parecia que eu estava no meio de um cemitério: era gente morta para todo o lado e de todas as épocas. Para piorar a situação, o meu pai era espírita.

Tinha também o clima. Pela proximidade com o lago e gente sempre pegava a neblina de manhã quando íamos para a escola, a mesma neblina de "A casa de noite eterna" que passou no sábado a noite, depois da novela, que eu vi escondido ora no corredor do apartamento, ora em baixo da mesa e depois, por vários anos, assim que eu fechava os olhos para dormir.

Passou um pensamento na minha cabeça agora: Peter Pan. Essa era uma história que eu gostava. Não era num reino distante; não era na idade média e a realidade fantástica vinha visitar a gente de noite. Tinha a confusão de ser uma coisa de verdade. As crianças realmente saíram de casa, os pais ficaram preocupados e no final voltaram de um lugar em que realmente estiveram. Eram como as almas que estavam no mato, ou no meio da neblina. Eram figuras reais, históricas e não figuras de estórias. Eu não entendia como é que não saia no jornal nacional todas as vezes que Tóquio era destruída por um monstro, nem como ninguém entrevistava o Spectreman.

Eu me lembro de um programa de rádio AM, “Histórias que o povo conta”, que a empregada sempre ouvia de manhã, às10:00 e um quadro no fantástico que tinha o mesmo mote, com histórias medonhas. Uma especificamente me alucinava: contava a aventura de um homem que comprou uma fazenda no interior da Bahia, na Serra da Capivara, depois de Ibotirama, (eu sei porque sempre passávamos por lá indo de carro para Pernambuco nas férias e eu sempre entrava em pânico) e foi à casa de um amigo de infância buscá-lo para uma caçada. Encontrou com o sujeito e foram para mata. Chegou a noite e o amigo sumiu. O sujeito deu tiros para o sinalizar ao amigo que não respondeu. Procurou um canto para dormir no meio da noite foi atacado por uma criatura como um pé-grande. Deu uns tiros na criatura que nem se abalou e deu-lhe uma surra. Foi acabar na caverna da criatura em meio a um monte de ossos humanos. Conversa vai conversa vem e ele conseguiu fugir do lugar. Voltou à casa do amigo e encontrou com a esposa dele que lhe relatou que o marido havia sido morto por um bicho em uma caçada havia dois anos.

O tema de raptos e abduções era frequente. Ana Lídia, as histórias do rádio, Peter Pan, João e Maria, os quadros do fantástico. Meu pai tinha um sítio perto de Luziânia e ia para lá todo sábado. Era um inferno! Ele costumava chegar em casa por volta das seis da tarde. Quando dava sete horas e ele não chegava, eu entrava em pânico. Sabia que as estradas eram escuras e que a realidade era muito variada. Nessa hora toda aquela maluquice de todas as estórias juntas tomavam forma. Vez por outra ainda faltava luz! Era a morte! Naquela época sempre faltava luz em Brasília. Tinha até torcida quando a luz volatava.

Quando no sábado, às sete da noite, meu pai estava desaparecido e faltava luz, era a visão da besta-fera! E na década de 70 era tudo muito sem explicação. A falta de luz eram problemas nas linhas de transmissão, mas ninguém explicava nada para a gente. Mas todas as crianças sabiam que tudo o que acontece tem uma causa. E como todo mundo dizia que a causa de todas as coisas - o copo que quebrou, o ralo que entupiu, o peido no ar - é culpa da criança, a causa de todas as coisas fantásticas poderiam até não ter explicação, mas com certeza haveria uma causa que poderia ser eu mesmo. Apesar de criança, tinha consciência das minhas máculas. Havia motivos que me faziam crer na fatalidade de ser punido. No meu caso específico, eu adorava roubar frutas na venda! Até os oito anos de idade eu era um mão-leve da melhor qualidade. Adorava roubar laranjas, mangas e goiabas. E sabe quando se passa debaixo de um poste e ele, só ele, dentro todos os postos da rua, apaga? Vem a reação: "Credo!"; "uruca!"; "preciso de um descarrego!" etc. Então era só somar dois e dois.

Outra coisa eram os sinais fantásticos. Era imprescindível saber lê-los. Se podíamos perceber os efeitos dessa realidade ampliada, sofrer sua ação - o poste que se apagava, o pai que se atrasava - então havia como manipular essa realidade. Os exemplo eram vários. O mais impressionante deles eram os grupos marianos, de adoração à Nossa Senhora, que juntavam um monte de gente e atravessavam a quadra com velas acesas, eventualmente no meio de um apagão e antes que as velas se apagassem a luz voltava! Havia variantes de comportamento menos coletivos: nunca andar de costas, senão a mãe morre; nunca deixar porta aberta, para não atrair ladrão. Então quando se via alguém andando de costas, essa pessoa tinha problemas com a mãe e por aí vai.

Anos mais tarde no meio de um encontro de estudantes em Natal/RN, uma estudante foi raptada. O pânico da infância voltou com todo o seu poder e me agarrei aos meus cristais e mentalizei uma barreira policial e a menina sendo salva. Isso de fato aconteceu. Em uma barreira policial parou um carro e a menina estava no porta malas. O meu cristal estourou, quebrou, partiu bem na ponta. para os usuários de cristal, isso acontece quando muita energia é deslocada através cristal; gera um curto circuito.

Bom, isso tudo é para dizer que a minha relação com as histórias - contos de fadas - é muito mais próxima do que eu imaginava quando comecei a escrever esse texto. Mas eu sempre entendi que se tratavam não de histórinhas para boi dormir. Elas montavam o meu entendimento das coisas. As relações que eu fazia para gostar das histórias - personagens que se parecessem comigo, a idéia de uma realidade histórica - foram coisas que eu vivia o tempo todo. Não era uma quarta parede que separava realidade do palco, eu era personagem também. E ainda sou até hoje.


Sávio Ivo, 38 anos, arquiteto e artista plástico.

Blog do Sávio

Só pra imaginar


inha tia tinha um vinil colorido.
Quando eu ouvia a voz sinistra da bruxa, com aquela trilha sonora de arrepiar, meu coração disparava que só.

Eu gostava mesmo era de estória contada. Preferia ouvir do que ver. Só pra imaginar melhor...



Baseado no depoimento oral de Soni Miranda, 51 anos, manicure.

A xícara de chá


á em casa não são os contos de fadas, mas os contos budistas que nos comovem. Temos um livro ilustrado de estórias budistas para crianças, que meu filho por muitos anos dormiu com ele debaixo do travesseiro. Ainda criança ele começou a questionar sobre a morte. Eu então encontrei esse livro que traduzia com enorme sutileza uma compreensão profunda da natureza humana.

O aprendiz deixa cair e quebrar a xícara do mestre. Então esconde os cacos. Quando o mestre chega ele pergunta: Mestre, por que as pessoas morrem? O Mestre então esclarece que é plenamente natural que tudo acabe um dia. Nesse momento o menino entrega os cacos da xícara.

A estória acalmou suas angústias como uma boa xícara de chá.


Baseado no depoimento oral de Marilene Cardeal, 46 anos, professora de Yoga.

O sonho da TV

Essa não é uma estória sobre contos de fadas, mas sobre um sonho desfeito. A cores.


uando criança eu tinha um sonho. Ter uma televisão. Mas, meus pais não tinham condição financeira para isso. Então eu só assistia quando ia a casa de alguém da família ou de algum vizinho. Também adorava ler histórias em quadrinhos e imaginava aqueles personagens se movimentando numa tela de TV. Mas eu imaginava tudo isso em cores. No Brasil ainda não havia TV colorida. Estávamos na década de 60.

Um belo dia, meu vizinho, o Sr. Jorge, um velhinho muito simpático e falante, me chama no muro: - Alzirinha, você quer ver a minha televisão colorida????? Eu fiquei estática. Meu coração disparou. Corri até a minha mãe e implorei: - Por favor, me deixa ir ver a televisão colorida, por favor. E lá fui eu, correndo portão afora, sem respiração, coração disparado. Mil coisas passando pela cabeça. Entrei como um foguete na sala do Sr. Jorge, procurando a TV........................
E o que vejo?????

Uma placa de plástico com listras coloridas como um arco-íris na frente da TV preto e branco. O mesmo personagem tinha uma cor para cada lado do corpo. A decepção que tive foi tremenda. Me senti traída. Uma dor no peito, eu não sabia se chorava ou xingava o velhinho. Voltei pra casa com uma tristeza e essa cena jamais saiu do meu pensamento.

Um sonho desfeito.

Hoje, no alto dos meus 53 anos, adoro assistir desenhos animados.
É a minha forra.


Alzira Dinelli, 53 anos, terapeuta holística.

Minha varinha mágica


s estórias de fada sempre me encantaram, quando criança gostava de pensar que quando eu crescesse seria uma também. Sim essa seria minha profissão: ser fada!... Quer saber? Vou contar um segredo! Me sinto fada de vez em quando! Sério! Não é brincadeira, tenho uma varinha de condão que eu mesma fiz (sim eu sei fazer varinhas de condão)! Vou contar como foi que eu fiz a minha, daí você pode fazer a sua também.

Bom, primeiro você precisa ter tido experiências marcantes na sua vida e aprender com elas (isso é MUITO importante), daí em cada experiência você pega um pouco de conhecimento, de fé, otimismo, muita vontade de lutar e sensibilidade de perceber pequenos detalhes. Daí você junta dentro de uma meia bem colorida e quando quiser realizar algum sonho calça a meia! Depois é só acreditar que vai conseguir e correr atrás de realizar o sonho, pois tem uma coisa que aprendi (e demorei para isso), os sonhos não chegam na gente sozinhos, temos que lutar por eles, aí é que entra todos aqueles ingredientes que falei acima. Bom, é verdade que às vezes não acontece, mas mesmo assim, a varinha nos fornece outro sonho melhor, que nem sabíamos que precisávamos dele.

A verdadeira meia de condão de Ana!

Quando criança queria aprender a voar e realizar sonhos
Desejei ter nascido fada
Com asas longas e varinha de condão
Daí eu cresci
E hoje acredito que sou fada
Pois percebi que posso voar
Voar alto
Voar longe
E posso até realizar meus sonhos
Minha varinha mágica?
A fé e a força


Ana Maria de Abreu Siqueira, 31 anos, Engenheira de Alimentos.
Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos. Doutoranda em Biotecnologia.

Blog da Ana

18/05/2009

No meu Jardim...


empre morei na mesma casa, que está sempre mudando e reformando. Ela já foi de várias formas, no início era um barracão e depois virou um casão, também pudera, sou a quarta filha numa "escadinha" de cinco. Quando éramos crianças havia um jardim grande e gramado e tinha balanço, escorregador e alguns cogumelos. Eu e minha irmã caçula jurávamos que nestes cogumelos havia de verdade alguns "smurfs" e olha que nem gostávamos tanto assim do desenho. Mesmo assim ficávamos às vezes horas sentadas no jardim vigiando pra ver se víamos os "smurfs", e nada. Logo pensávamos que os passarinhos tinham avisado e eles se escondiam, porque não podiam ser vistos por nós, porque para eles éramos os gigantes que faziam ruindade, que iríamos destruí-los. Desse modo começamos a pensar em uma maneira de mostrar para os "smurfs" que éramos do bem, e então enfeitávamos a grama colocando flores e balas e nada. Chegamos à conclusão de que eles estavam achando que era uma "armadilha", resolvemos então pedir ajuda para os passarinhos e como também nada acontecia, começamos a achar que os passarinhos faziam fofoca por ciúmes, não querendo dividir a amizade dos "smurfs".

Com o tempo fomos nos desapegando dessa história e embarcando em outras tantas, como a cigarra seca ou a "bruxa" do colégio Batista Mineiro (BH), ou que Carapebus (Praia no E.S) ficava atrás de uns pinheiros que víamos da vista da cozinha, ou não ir no minhocão do parque para não acontecer conosco como no desenho "Caverna do Dragão", ou o desejo de encontrar um "Cavalo de Fogo" que levaria a gente para visitar outros mundos e sempre voltar, ou que as formas das nuvens em objetos, pessoas, animais, e tal, eram feitas pelos ursinhos carinhosos...
UFA! que "tempo bom!"....


Milena Mendes, 28 anos, Designer Gráfica.

Cinderela e eu

resci ouvindo histórias: meu avô era escritor e contador de “causos”, desses que exigem a esposa ao lado para confirmar suas narrativas inverossímeis. Meu pai era artista sonhador e vivia a inventar enredos sobre galáxias distantes, confessando-me, como só se confessa a uma criança, que achava que nosso Universo era um pedaço de mundo perdido dentro da barriga de algum gigante. Minha mãe, menos dada a mirabolar histórias, mas sabendo apreciar as boas, costumava contar-me um conto de fadas a cada noite. Pelo menos era isso o que ela pretendia, porque certo dia inventou de me contar a história da Cinderela e nesta narrativa eu empaquei por meses, feito mula teimosa.

Dona Wal conta (porque nós, filhos, acabamos por virar histórias das histórias que nos contavam) que, por volta dos três anos, eu, já debaixo das cobertas, invariavelmente pedia para que ela narrasse a famosa história da menina que, após perder a mãe, vê-se mediante uma madrasta malvada e suas filhas hediondas, antagonistas perversas que decidem transformar a nobre menina em escrava suja e segregada. Conta também que eu costumava chorar copiosamente quando dos maus tratos à pobre Borralheira, sempre a sofrer sozinha em seu leito de cinzas. E que eu perguntava com veemência: “Por que, mamãe? Por que as pessoas são tão ruins com ela?” Minha mãe não sabia o que responder, dizia que o mundo era feito de gente boa e gente má, e que era bom eu saber quem era quem o mais cedo possível. “Mas então por que - eu insistia - há gente tão má no mundo?”. Dona Wal não sabia o que responder, também ela procurava resposta. Acabava com um “o mundo é assim e pronto, vamos parar com essa história, esqueça a Gata Borralheira e trate de pegar no sono”. Mas eu não esquecia... No dia seguinte lá vinha pedido novo para a mesma velha e triste história. E mais uma sessão de prantos e perguntas...

Por que as crianças teimam em ouvir o que lhes perturba? - continuo eu a perguntar, depois de grande, depois de também ter tido filhos para contar histórias, depois de ter sido má e boa, princesa e madrasta, de ter comido cinza e ouro numa mesma vida. Para compreender? Para aceitar? Para perdoar? Ainda não sei a resposta. Só sei que ouvir Cinderela era como ser iniciada num mundo novo cujas regras eu ainda não conhecia. Um mundo de injustiças, predileções, ardis, golpes de sorte e magia. Não podia apreender essa novidade em uma única narrativa. O martelo do ouvido precisava de repetições e repetições e repetições, até estar a lição devidamente aprendida. Ainda gosto de ouvir a história da Cinderela, embora outros contos sejam mais apropriados para me apresentar as armas necessárias ao meu momento atual. Como transformar um marido fera em príncipe bondoso, tal como fez a Bela? Como fazer com que meu linho profissional seja reconhecido, como conseguiu Vassilissa, a Formosa? Como enredar meus leitores como o fez Sherezade, nas Mil e Uma Noites? São tantas as tarefas e tantos os ensinamentos a serem aprendidos! Mas o muro em construção começou lá atrás com a minha mãe e a Cinderela de todas as noites.

Dizem que toda mãe é um pouco madrasta, na tentativa inconsciente de perpetuar os filhos na condição de dependência. Mas fico achando que a outra faceta dela é a sempre bondosa fada madrinha, não por transformar abóbora em carruagem ou trapo em vestido reluzente, mas por nos oferecer esse material mágico e transformador que tanto nos emociona, nos fornece imagens para compreender o incompreensível, e ao qual costumamos chamar inocentemente de “Conto de Fadas”.


Majori Claro, 40 anos, psicóloga e escritora.

17/05/2009

Sonho vestido de realidade


ão me restou na lembrança de meninice nenhum conto de fadas detalhado. Lembro de lerem pra mim varias estórias, lembro da cor dos disquinhos e de como sentava perto da caixa de som para ouvir melhor.

A recordação me vem colorida, como um sonho vestido de realidade. Não me lembro sonhando, mas me lembro voando pela casa em tardes de brincadeira. Voava bem baixinho a ponto de tocar o chão para me impulsionar para frente. Demorou para eu entender que não voava e que esses fragmentos de memória eram na verdade sonhos. Já adulta continuei com sonhos de voar, mas dessa vez bem mais alto. Continuou também a sensação de que o mundo do “faz de conta” é muito mais interessante e que minha personalidade é muito mais apegada à imaginação do que ao mundo concreto das impossibilidades.... tenho ainda em mim esse super-poder, talvez como uma anti-heroína lutando melancolicamente com esse universo chamado REAL.


Maria Paula Magalhães, 29 anos, psicóloga.

Angústias


ozinho em uma noite fria no quarto de um prédio de periferia uma pesada sensção de vazio dominava meus sentimentos. Um copo de vinho barato e um computador de segunda mão ajudava a passar o tempo. Pensamentos vagavam pela cabeça sem fixarem-se em nada de interessante e o olhar passeava pela tela sem encontrar qualquer coisa que despertasse a atenção. Eis que, de repente, uma proposta inovadora se destacou em uma infinidade de coisas desinteresssantes: buscar no passado histórias infantis que tivessem, de algum modo, marcado sua vida ou fossem alvo de boas recordações. Por que nâo? Se o futuro nada prometia, por que não voltar ao passado para buscar alguma inspiração? Já havia passado muito tempo sem que tivesse me preocupado com isso e a memória não ajudava a recuperar algo que fosse interessante. Passado alguns minutos duas histórias muito conhecidas e repetidas pipocavam em minha mente - os 3 porquinhos e a cigarrra e a formiga. Por que, raios, só me contavam histórias com subliminares mensagens de ensinamentos morais: responsabilidade, trabalho e prudência. Talvez por isso tenha me rebelado e me tornado um cantor de tango. Pouco trabalho, muita festa e alegria. Afinal sempre achei que a cigarra era mais interessante que a formiga e que o lobo era um personagem menos perigoso que os porquinhos ( a gripe suina está aí para confirmar). Mas, para que fui seguir o que a proposta me recomendava? A lembrança me deixou ainda mais deprimido. Agora que os amantes da boa música estão desaparecendo não há mais emprego para cantores de tango. Sem dinheiro e sem perspectiva, o retorno ao passado aumentou o vazio. Resta ao menos encher o copo de vinho e me esquecer dessas histórias e de suas lições.

Ramón Vargas, cantor de tango, 61 anos, aposentado

Tudo é possível ...

uando penso nos contos de fadas e histórias fantásticas, me vem a cabeça o quanto elas me fizeram e fazem acreditar em um outro mundo onde tudo é possível. Eu me lembro, por exemplo, que quando eu era criança eu engoli uma semente de laranja e por muito tempo eu acreditei que iria nascer uma árvore em mim. Tinha pesadelos com o tronco saindo de minhas orelhas, com folhas saindo de minha boca e com minha pele se transformando em um musgo verde. Era tão real essa possibilidade que eu já pensava o que fazer para disfarçar das pessoas que eu me transformaria em árvore.

Isso é possível de verdade! Olha só:
Outra lembrança que tenho e que provavelmente também foi fruto dessas histórias foi a primeira vez que andei de avião. Eu olhava para as nuvens e ficava triste de pensar que não era possível sair do avião para andar sobre elas, e perdia um bom tempo pensando em alguma estratégia de chegar até lá, além de não parar de imaginar se os lugares encantados que existiam por cima do pezinho de feijão estavam no meio das nuvens ou em algum lugar que eu ainda não conseguia avistar lá de cima.

Outra influência que também aconteceu em minha vida foi um período de mais ou menos 3 anos seguidos, onde eu deveria ter entre 10 a 13 anos. Nesta época eu acreditava ser o rei dos mares. Eu conseguia conversar com as ondas e com o oceano, sendo que estes me obedeciam, mesmo quando estava em Belo Horizonte. Me recordo de um dia na sala de aula que eu fiquei com saudades do mar e me concentrei e comecei a conversar com ele, dizendo que breve eu estaria lá, mandei as energias para que ele pudesse se alimentar e alimentar o universo, tentei sentir a areia do fundo da água, pois era ela que me fazia saber como estava o temperamento do oceano naquele dia e, por fim, quando percebi, o tempo de entregar a prova tinha passado e eu tirei zero.

Pensando em fadas e anjos, quando eu era criança eles apareciam para mim em forma de vulto, e seus nomes me apareciam na imaginação. Confesso que eles não me vinham sempre que queria, e precisava de certo esforço para conseguir vê-los. Até hoje não sei se todas essas histórias são apenas frutos de minha imaginação ou se minha imaginação é que é frutos dessas histórias, mas sei que elas foram, são e serão sempre parte de mim.


Escandar Alcici Curi, 28 anos, ator.

O Saco


sta é uma história real. Mas eu não sei se é um sonho.

Eu tinha quatro anos de idade. Morava no limite entre a cidade e o fim da cidade. Ali tinha muito mato, lotes vazios, montinhos de terra. Um certo dia eu saí de casa e aindei até o campinho, destes de terra batida mesmo; não era gramado não. Ali eu já tinha brincado de rolar pneu comigo dentro dele. Tudo estava vazio, não se via ninguém. Ao fundo do lote, mais afastado da rua, havia uma matinha com um córrego lá embaixo. Andei até uma casa branca com janelas de madeira. Caminhei acompanhando o muro da casa, e quando me virei na sua quina, tive o maior susto de que consigo me lembrar. De pé, em minha frente, entre a casa e a mata, estava um saco. Um saco destes de linho, que serve para carregar batatas, serve para carregar areia, serve para carregar muitas coisas. Mas não era um saco comum. Tinha desenhado nele uma face, dois olhos e uma boca, quase três linhas somente, o que não era pouco. Um horror completo me fez estremecer.

Aquele saco não era só um saco, tinha vida. A prova disso é que ao me ver ele se jogou em direção à mata, e rolou até lá embaixo. Isso eu não vi, porque fechei os olhos com força e corri.


Luís Santiago, 22 anos, estudante de arquitetura.

Quem tem medo de Papai Noel...


sobrinha da minha amiga adora ouvir estórias. Ela depois reconta misturando os personagens, inventando novos finais, cantando junto, mudando tudo de lugar e fazendo uma sopa de imaginação e confusão. Só que quando numa festinha ou num parque de diversão, ela vê alguém vestido de estória, de fantasia, ela reclama amedrontada: - Eu não gosto de personagem!

Quando criança um dos personagens que eu mais tinha medo era do Papai Noel. Tinha quase certeza de que Ele era o homem do saco. Para começar distribuía balinha. Minha mãe sempre dizia para não receber doces de estranhos. Depois entrava na casa da pessoas, a noite, no escuro, sem ninguém ver. E o pior, a prova decisiva: andava atrás das crianças carregando um saco nas costas...

Depois de um tempo descobri que o Papai Noel não existia. Então conclui que a estória era outra... O homem do saco que era o Papai Noel disfarçado! Afinal, o que o velhinho fazia nos outros 364 dias do ano?


Adriana, muitos anos depois, advogada de acusação.

A vingança do matinho


uando eu estava no jardim, representamos a peça “A linda rosa juvenil” na chegada da Primavera. A menina mais bonita da classe foi escolhida para ser a Rosa. O mais alto e mais forte, foi o Rei. A esquisitona, foi a bruxa.

Eles eram os “especiais”. Nós, os comuns mortais, éramos simplesmente o matinho que crescia ao redor. Balançávamos de lá para cá conforme o vento. Posso dizer que fiquei revoltada. Desde então no meu caminho, Rosa, Rainha ou Bruxa, faço de tudo para não ser, ainda, apenas e tão somente o matinho que cresce ao redor.

Reproduzo aqui a cantiga que deu origem à peça.

A linda Rosa juvenil, juvenil, juvenil
.
A linda Rosa juvenil, juvenil.
Vivia alegre no seu lar, no seu lar, no seu lar.

Mas uma feiticeira má, muito má, muito má.
Adormeceu a Rosa assim, bem assim, bem assim.

Não há de acordar jamais, nunca mais, nunca mais.

O tempo passou a correr, a correr, a correr.

E o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor.

Um dia veio um belo rei, belo rei, belo rei.

Que despertou a Rosa assim, bem assim, bem assim.
 

Digamos ao rei muito bem, muito bem, muito bem.


Florinda Pertence, 30 anos, paisagista.

O Mapa das Maravilhas


m uma de suas cartas, Monteiro Lobato fala de seu projeto de escrever um livro onde as crianças quisessem morar, experimentando o mesmo sentimento vivido por ele em sua infância na leitura de Robinson Crusoé. Não só as crianças, mas personagens das mais diversas origens do mundo das maravilhas quiseram morar em seus livros e chegaram mesmo a se mudarem para o Sitio do Picapau Amarelo.

No Sitio do Picapau Amarelo a entrada é franca para os visitantes de diferentes universos ficcionais, que se identificam e convivem no Sítio: um mundo fantástico sem fronteiras de tempo e espaço e entre a realidade e a fantasia. Feito o contato, as idas e vindas entre o mundo imaginário e o mundo real são constantes. Os mundos se interpenetram no mosaico de histórias e personagens que desperta o leitor para outras dimensões através da criatividade e do espírito crítico. O maravilhoso lobatiano constrói uma espécie de realidade paralela onde as regras do mundo real são alteradas. O sucesso imediato entre os leitores decorreu de a realidade quotidiana, comum e familiar à criança, ser súbita e naturalmente povoada pelo maravilhoso.

Uma vez no Sítio, todas as narrativas consagradas são revistas e modificadas, adaptadas ao clima e à imaginação das personagens. Assim, a Carochinha é a contadora de histórias julgadas antiquadas e bolorentas. Há uma crítica à mesmice com que a infância é tratada. As personagens querem “novidade”, “novas aventuras”. É Pedrinho quem diz: “Se Polegar fugiu é que a história está embolorada. Se a história está embolorada, temos de botá-la fora e compor outra. Há muito tempo que ando com esta idéia – fazer todos os personagens fugirem das velhas histórias para virem aqui combinar conosco outras aventuras”

Os personagens do “mundo das maravilhas” nessa obra visitam o sítio do Picapau amarelo em duas ocasiões principais: vão participar de uma grande festa e assistir a uma apresentação do "circo de escavalinho" preparada pelo pessoal do sitio, depois se mudam para lá em outra estória. No dia da festa chega mais tarde um personagem invisível, Peninha, que todos desconfiam ser Peter Pan, que mostra aos meninos o mapa do “Mundo das Maravilhas” e diz que está em toda parte. Pedrinho encontra no mapa o próprio Sítio do Picapau Amarelo, o mar dos piratas, a terra das mil e uma noites, a ilha de Robinson Crusoé, Liliput, a terra do Nunca e o castelo da bela adormecida. O país das maravilhas e a casa da Alice também estão lá, numa verdadeira cartografia intertextual.
A seguir, o diálogo entre Peninha e Pedrinho:

“– (...) O mundo das maravilhas é velhíssimo. Começou a existir quando nasceu a primeira criança e há de existir enquanto houver um velho sobre a terra.
– É fácil ir lá?
– Facílimo ou impossível. Depende. Para quem possui imaginação, é facílimo”

Mais adiante, são os personagens do Sítio que irão ao mundo dos personagens célebres da cultura universal. Peninha apresenta para Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde o pó de Pirlimpimpim, “o pó mais mágico que as fadas inventaram”, verdadeiro subversor de qualquer concepção racional de espaço e tempo, a ponte de intertextualidades inusitadas. É cheirando o pó que os meninos podem partir para o Mundo das Fábulas. Cheirar o Pó de Pirlimpimpim se assemelha atravessar o espelho ou penetrar na toca do coelho: desterritorialização da consciência, abertura para outras “terras” e “reinos” e diálogo com as figuras da imaginação que habitam em cada um de nós.

Se as personagens dos contos de fadas, em Reinações de Narizinho, mostraram-se insatisfeitas por viverem sempre as mesmas aventuras, quando vêm ao Sítio, em O Picapau Amarelo, têm suas experiências modificadas, subvertidas. E vieram os personagens do mundo das Fábulas. O Pequeno Polegar puxou a fila e, logo depois, Branca de Neve com os sete anões, as Princesas Rosa Branca e Rosa Vermelha, o Príncipe Codadade, com Aladim, a Sherazade, os gênios e o pessoal todo das ‘Mil e Uma Noites’. A seguir, a Menina da Capinha Vermelha, a Gata Borralheira, Peter Pan e os Meninos Perdidos da ‘Terra do Nunca’ e o Capitão Gancho com o crocodilo atrás e os piratas; e o Senhor de La Fontaine em companhia de Esopo e de todas as suas fábulas; e Barba Azul; e o Barão de Munchausen; e os personagens todos dos contos de Andersen e Grimm. Veio também D. Quixote junto de Sancho Pança, Alice e os personagens do pais das Maravilhas“Mas não vinham a passeio, não; vinham com armas e bagagens, com os castelo e palácios para morar ali toda vida”

Conto isso pra vocês em homenagem ao meu encantamento pela obra de Lobato e em especial, pelo fabuloso mapa do mundo das maravilhas. Tendo ele como inspiração, pretendo aqui cartografar pouco a pouco devaneios da fantasia, propor associações e deslocamentos fantásticos, cruzar as fronteiras entre o real e o imaginário, fabular pontes intertextuais. E ir viajando com o pó de pirlimpimpim nesse mundo maravilhoso que “está em toda parte”.

Com amor,
Adriana por enquanto

Leia o texto completo em:
http://adrianapeliano.blogspot.com/2009/01/traduo-de-as-aventuras-de-alice-no.html

Leia-me


“Chave do Tamanho” de Monteiro Lobato foi um dos livros que mudaram a minha vida. Assim como Alice. Passei a ver o mundo em ângulos diferentes. Ora do gigante, ora da miniatura de gente. Ainda procuro pela chave, pelo biscoito e pela garrafinha tutifruti que nos convidam para um mundo de maravilhas. “Coma-me!” “Beba-me!”

Quando criança também via com um encantamento especial o seriado “Terra de Gigantes”. Nesse seriado os seres humanos, reduzidos a condição minúscula, passavam maus pedaços para sobreviverem num planeta de gigantes. E se por acaso eu fosse a gigante e chegassem os liliputianos ao meu planeta? Tracei então um plano estratégico. Queria ser amiga dos pequeninos. Distribuía farelo de biscoitos pelos cantos da casa e algodão para servir de roupa e caminha. Pipocas entre os livros para o Visconde. Manuais de sobrevivência. Ainda hoje espero por eles. Se você um dia vier à minha casa, por certo encontrará surpresas pelos cantinhos.

Como Lewis Carroll, o filósofo Walter Benjamin amava as coisas pequenas como selos, brinquedos, cartões postais e em especial os pequenos globos onde a neve cai. Perto de sua morte ele queria escrever um ensaio sobre a miniatura como um artifício da fantasia e do devaneio. Para ele, a predileção pelo minúsculo é um sentimento que liga a infância e a melancolia. Para os olhos de um melancólico o mundo em miniatura se torna um lugar único e especial: um refúgio encantado.


Adriana Peliano, 35 anos, artista plástica.

16/05/2009

Acontece


m dia fomos os dois ao parquinho, meu neto e eu. Ele ia vestido de Batman, todo crente de si. De repente uma moça se aproximou e perguntou: -“Qual é o seu nome quando não está com essa roupa?” E ele, ainda crente de si, respondeu calmamente: “Bruce Waine!”

Naquela época ele tinha por volta dos 4. Chegando aos 8, a situação já era outra. Depois de andar um tempo a cavalo numa fazenda, ele de mim se aproximou para ouvir uma estória. Foi quando eu contei uma aventura de cavaleiros, com peripércias mirabolantes até chegar a hora em que o cavaleiro deu um salto fenomenal e chegou na lua! Foi quando Guilherme, não mais Bruce Waine, reclamou: “Vovó, por que você não conta estória de alguma coisa que acontece?


Baseado no depoimento oral de Ana Nogueira, artista plástica.

O Patinho que era cisne


a minha infância eu adorava ouvir o vinil azul do Patinho feio que ficava na casa da minha vó. Não me lembro de ter visto filme, desenho, livro dessa mesma história que tenha me marcado tanto. O narrador, com sua voz grave, denotou uma feiúra para o patinho que imagem nenhuma poderia representar. E como isso me entristecia. Como pode ter sido tão humilhado, tão desprezado? Afinal, feio ou bonito, são as diferenças que nos fazem ser quem nós somos.

Claro que, naquela época, eu não formulava esse raciocínio em minha cabeça, mas sabia que isso era o que me incomodava. E se eu também fosse feia? Nunca seria aceita? O pobre patinho, que na verdade era um cisne, enfrentou até bicadas de galinhas. Sentia profundamente aquelas bicadas. Chegava a imaginar a dor do coitado. Com lágrimas nos olhos, ouvia o canto das avezinhas que entoavam com suas vozinhas finas a canção “nós somos as garcinhas, somos umas gracinhas...”. Imaginava se elas eram mesmo tão bonitinhas e quanto devia partir o coração do patinho ouvir isso. Ele que era só um cisnezinho novo que nem conhecia o mundo, que nem conhecia a si próprio.

Ainda bem que no final tudo se resolvia. Sentada ao pé da vitrola, sem quase nem respirar para não fazer barulho e perder a história, eu realmente sentia um grande alívio quando a tormenta passava. Quando terminava o vinil, eu o pegava e ficava admirando. Como cabia uma história tão pesada como aquela daquele disquinho azul claro? Guardava na capinha rota de nem sei quantos anos. Sempre pensava que um dia ouviria de novo. No fundo, queria que na próxima vez a história tivesse mudado. Queria que o patinho não sofresse tanto. Já naquela idade eu tentava aprender formas de não enfrentar a dor.


Sabrina Davanzo, 26 anos, publicitária.

Blog da Sabrina

Nuvens Doces


uando pequena eu assistia o Daniel Azulay dizer assim:
“Alô, alô, garotada! Algodão doce pra vocês!”
Eu mesma, Adorava o algodão doce branco.
Parecia estar comendo nuvens.
Já a minha amiga preferia o rosa e assim dizia: Ah, isso é coisa de fada!?
Almofada ou fumaça da varinha de condão?'


Adriana Peliano, 35 anos, artista plástica.

15/05/2009

Aerofada



aquela época eu queria ser aeromoça. Eu que sempre viajava sozinha, pensava que ela era uma espécie de anjo da guarda ou de fada madrinha, que morava no céu e trazia tudo o que agente queria bastando pra isso apertar o botão mágico.



Eu sou Alice, 7 anos e meio, viajante.

Blog da Alice:
http://adrianapeliano.blogspot.com/

O nome dela é Cindi


indi é o diminutivo de Cinderela, mas eu só percebi isso bem depois. Esse nome surgiu mesmo foi de um filme do Schwarzenegger, que tinha uma aeromoça chamada Cindi. Eu queria que minha filha fosse Marjorie, que significa pérola, mas o pai insistiu que fosse Cindi. No dia do batismo o padre perguntou o que significava Cindi. Agente não sabia a resposta então ele falou que devia trocar para Maria Cindi, o pai dela avançou no padre.

A sua primeira festa de aniversário foi de ursinhos carinhosos. Quando criança ela adorava. Outro dia ela procurou uma boneca antiga. Eu disse: Cindi, você não é mais criança! Ela aceitou mas foi atrás dos ursinhos carinhosos. Aos dois aninhos se vestiu de Moranguinho. Ela sempre usava aquela roupa. O mundo da Moranguinho foi seu conto de fadas quando pequena. Agora o conto de fadas dela é o casamento perfeito com final feliz. Como eu e o seu pai nos separamos, ela muitas vezes se agarra no álbum de fotos do meu casamento e sonha com um vestido de noiva. Acho que ela quer que eu me case de novo. Eu faço tudo pela minha filha, mas isso, nem pensar! Ela também sonha com seu casamento. Em vez de Cindi, ela queria ser a Sandy e o seu príncipe encantado, vê se pode, é o Kiko do KLB!


Baseado no depoimento oral de Soni Miranda, 51 anos, manicure. Sua filha é a Cindi, 20 anos, sonhadora.

... levar esses doces para a vovozinha! ...


a escola onde eu ensino, trabalhamos com projetos escolares todos os meses. Certa vez os temas eram alimentação saudável e contos de fadas. Então juntei os dois projetos e trabalhei com o conto “Chapeuzinho Vermelho!”

Em uma de suas versões, Chapeuzinho leva doces para a vovó que está doente. Neste momento da história parei de contar e questionei: Será que são doces que devemos comer quando estamos doentes? Como todas as crianças, meus alunos são apaixonados por doces, até mesmo quando estão doentes e a comida fica de lado. Será que os doces têm as vitaminas que precisamos para não ficarmos doentes?

Propus a eles uma atividade prática: vamos montar um cesto de frutas com massinha e garrafas pet e entregaremos a alguém que esteja doente, e assim foi.


Cristiane Berlanca, 24 anos, professora e bailarina.

14/05/2009

Cinemas de minha infância


o ler o texto de Anairda Onailep nesse Blog fiquei emocionado! Acabei motivado a escrever o texto a seguir:

Lá pelos meus poucos anos, já sabendo entender as coisas, estava num dos cinemas de minha infância vendo um filme do Walt Disney sobre o Zé Carioca na cidade do Rio de Janeiro. De repente, o Zé Carioca, que também estava vendo um filme sobre a cidade do Rio de Janeiro em seu próprio filme, resolve entrar na tela projetada e acabou dentro do filme da cidade do Rio de Janeiro que ele e eu estávamos vendo. Ponto. Voltei para casa extasiado e aparvalhado com o fenômeno: como pôde o Zé Carioca ter feito o que fez? Como ele conseguiu entrar no filme e ficar lá de dentro trabalhando no próprio filme e, de quando em vez, dar adeus para mim e os demais espectadores? Pois bem, hoje percebo claramente que realidade e fantasia é uma simples questão de ponto de vista ou de vista de ponto, isto é, depende de como se olha e de onde e para onde se olha! Assim, quando estou meio saturado do dia a dia, apenas imagino qualquer lugar, arranjo uma boa companhia e para lá vou de malas e bagagens; mesmo quando estou de vento em popa, procuro dar mais vento a minha popa e imagino um mar mais azul ainda e uma claridade sem tamanho e lá me encontro usufruindo do bom e do melhor! Salve o Zé Carioca!

Jos Perpel, idade desconhecida, sobrevivente.

Certos dias de chuva...



ão era um conto de fadas, mas uma indignação. Quando eu era pequena, sempre ouvia essa musiquinha e não entendia muito bem. “Tomara que chova uma chuva bem fininha, pra molhar sua cama e você dormir na minha!”. Na minha adorável ingenuidade eu então pensava assim (voz de criança):
“Poxa, se você vai dormir na minha, eu durmo aonde?”


Adriana Peliano, 35 anos, artista plástica.

... All this I know, and felt, and believed...


fter being conditioned as a child to the lovely never-never land of Magic, of fairy queens and virginal maidens, of little princes and their rosebushes, of poignant bears and Eeyore-ish donkeys, of life personalized, as the pagans loved it, of the magical wand, and the faultless illustrations – the beautiful dark-haired child (Who was you) winging through the midnight Sky on a star path in her mother’s Box of reels – of Griselda in her feather clock, walking barefoot with the Cuckoo in the lantern-lit world of nodding mandarins, of Delight in her flower garden with the slim-limbed flower sprites... all this I know, and felt, and believed. All this was my life when I was young. To go from this to the world of “grown-up” reality... To feel the sex organs develop and call loud to the flesh; to become aware of school, exams (the very words as unlovely as the sound of chalk shrilling on the blackboard), Bread and butter, marriage, sex, compatibility, war, economics, death and self. What a pathetic blighting of the beauty and reality of childhood. Not to be sentimental, as I sound, but why the hell are we conditioned into the smooth strawberry-and-cream Mother-Goose-world, Alice-in-Wonderland fable, only to be broken on the Wheel as we grow older and become aware of ourselves as individuals with a dull responsibility in life? To learn snide and smutty meanings of words you once loved, like “fairy”.

Sylvia Plath (1932 – 1963), poet.

Trecho extraído do livro “Mirror, mirror on the wall: women writers explore their favorite fairy tales” editado por Kate Bernheimer – 2nd Anchor Books, 1998.

Trilogia de Pequenos Contos com Lobos

Com desenhos da autora.

I

stava tão indefesa que o próprio Lobo, sensibilizado, retirou-se da cena, balbuciando desculpas incompreensíveis sob um sorriso amarelo. Comoveu o Lobo chauvinista com doses macisas de ingenuidade crédula. Acabou sozinha na cama. Talvez ainda comemore a vida preservada apesar dos desfeitos sonhos débeis.


II
Foi capaz de perceber o momento justo em que o Lobo se desfez de sua armadura, como uma lesma, e tartamudenado saiu porta afora vestindo seu disfarce. Ao dar-se conta dos riscos corridos, na segurança da cama vazia, surpreendeu-se com o poder da verdade nua, e ainda mais com a estranheza que causa sorrisos ingênuos. Sobreviveu, distraída, e foi cuidar do jardim que mantém no vaso. Pérola aos porcos.

III
Chocado com o risco a que se expôs, o próprio Lobo tratou de gracejar desculpas, de leve, como se nada fosse senão acaso. Foi saindo, vestindo as calças, sorrindo amarelo, com cara de susto. Já na porta virou-se, de certa forma ofendido por livrar-se fácil demais da aventura irresponsável. Queria ser retido. Titubeou. Queria ser querido. Vacilante entre Lobo e seus outros papéis, perdeu o sorriso, perdeu a pose, perdeu a certeza, quando a porta fechou-se atraz de si, com um beijo inacabado e nenhuma promessa. O Lobo, sozinho, já não é Lobo, animal qualquer, sem força, mistério ou atrevimento. Querido, teria medo em deixar-se acarinhar. Solto, livre, lhe amedronta a solidão. Inseguro, busca o que não quer. Não sabe o que quer. Quer ser querido mas não sabe como. Com esta palavra, justamente, pronunciada no feminino ao telefone, despediu-se dias depois, desejando que a noite fosse boa, não mais lobo, agora menino refazendo o caminho.

Misteriosa, 48 anos, artista plástica.

Como vocês podem ver



uando eu tinha 5 anos, tive o mesmo sonho duas vezes. Bem, quase o mesmo sonho. Eu vivia num pais frio, com neve, tinha dois narizes e um fusca azul e caminhava por uma cidade que nevava até que atravessei o espelho e fui parar numa floresta espessa. Até aí os dois sonhos se repetiram. No primeiro sonho segui o caminho da floresta. No segundo sonho segui o caminho da lagoa, como sugeriu a mãe da Chapeuzinho Vermelho. Achei que nunca saberia aonde levariam esses dois caminhos e por duas vezes acordei na encruzilhada.

Na última vez que fui a Paris, no último dia fomos a um restaurante muito antigo todo decorado com pinturas de um mundo distante. Foi quando eu vi uma imagem que instantaneamente me reportou aos meus sonhos de criança e me revelou aonde iam dar os dois caminhos. O primeiro caminho levava até a choupana nas margens do lago, e ao fundo se avistavam montanhas nevadas e um majestoso castelo que só poderia ser alcançado pelo caminho da floresta.

No início do ano eu comprei meu apartamento após um tempestuoso e exaustivo percurso. O tempo todo me confrontava com palácios e choupanas. Depois das reformas, já em vias de me mudar de fato, ocupei o paço das artes e resolvi então construir uma casinha branca, como a casinha da floresta da fada azul do Pinóquio, dentro do castelo. Eu pedia mapas aos visitantes, propunha trocas às crianças. A questão é que dessa vez eu decidi que não queria escolher entre esse ou aquele caminho, pois se no sonho eu tinha dois narizes, esse era um sinal de que eu podia reunir as duas soluções num só lugar.

Como vocês podem ver
é um vídeo produzido durante a Ocupação do Paço das Artes em agosto de 2005. A instalação foi desenvolvida diante do público, num exercício constante de exposição do processo criativo, do precário e do inacabado. Resolvi acampar provisoriamente no museu, transportando cerca de três caminhões de objetos pessoais para o espaço da ocupação. Comecei a trabalhar com esses objetos criando territórios imaginários nômades e movediços, num jogo de deslocamentos e apropriações.

Criei então uma floresta onde os sentidos se embaralhavam. Nesse mundo era preciso ter a coragem de arriscar um pensamento selvagem de bricoleur, sempre alerta para desmontar os quebra-cabeças da linguagem. No final, quando eu estava empacotando tudo, essa atividade se transformou espontaneamente num laboratório de sonhos e fábulas. Coloquei para tocar alguns disquinhos de contos de fadas que eu tinha comigo e interagi com as estórias de forma improvisada e imprevisível. Tomava coisas quebradas, usadas, inapropriadas para dar lhes outros usos e criar novos mundos.

Uma nova instalação foi criada na Galeria Emma Thomas para abrigar o vídeo performance do Paço das Artes.[2007]

“...eu sei quem eu era quando me levantei hoje pela manhã mas já me transformei muitas vezes desde então...” Alice do país das Maravilhas

13/05/2009

Terá sido mera coincidência?






aquela época eu mergulhava compulsivamente no universo de Lewis Carroll para fazer minhas ilustrações de Alice, vejam só:



http:// http://adrianapeliano.blogspot.com/search/label/Alices//

Eu morava em Brasília, no Lago Sul, para quem conhece, na QI 11 – conjunto 09, para quem entende. Tudo começou com algumas cartas para a Alice. Mais tarde vieram as visitas para jantar com a Alice, ou não seria um chá mais apropriado? Entre o sonho e a realidade, eu suspeitava de um complô do universo que me lançava para dentro das estórias que eu lia, reconheço que sou um pouco exagerada. Até que um dia recebemos um enorme carregamento de coca-cola, para quem? Alice, claro. Na minha imaginação alucinatória as garrafas todas diziam “beba-me, beba-me” ! Intrigada, eu descobri a lógica surpreendente dessa história toda. A Alice, uma Alice de verdade, tinha um restaurante, sabe aonde? Na QI 11 – conjunto 09, numa casa no mesmo número da minha, só que no Lago Norte, entende? Eu morava no SHIS (Setor Habitacional Individual Sul) e ela no SHIN (Setor Habitacional Individual Norte), o resto do endereço era idêntico. Por isso tanto troca troca. E olha que em Brasília é muito raro ter um restaurante numa zona residencial, quase impossível. Foi quando eu conclui que eu também era uma Alice, uma Alice do outro lado do espelho. (Lembre que Brasília tem o desenho de um avião, uma cidade quase simétrica...)

Me mudei de Brasília e a Alice mudou de endereço. “Alice não mora mais ali.” Já em São Paulo, rodei, rodei e rodei para encontrar um apartamento para morar. Mais de duzentos, sem exagero. Foi quando me apaixonei a primeira vista por um recanto encantado, lar de milmaravilhas. E eis que sou novamente surpreendida pela ex-proprietária do apartamento. Como será que ela se chamava? Alice? Não, Branca Regina! Quem já leu “Alice através do Espelho” conhece a Rainha Branca, meu personagem predileto nessa estória. Com ela aprendi muitas coisas como treinar todo dia para acreditar em coisas impossíveis. “As vezes acontece de eu acreditar em seis coisas impossíveis antes mesmo do café da manhã!” disse a Rainha. Nessa estória você pode acreditar!


Anairda Onailep, 35 anos, artista plástica.

7 de uma vez!

Cibele, 4 anos, Valéria, 6 anos e André acho que 7 anos ou mais.

ão como eu lembrava, mas como meu pai me contou, nossa amiga e vizinha era bem "mandona" e ela que escolhia os personagens que seríamos nas brincadeiras. Depois de um "decreto da princesa Estela” rsss, o que me restou foi ser os sete anões, enquanto minha irmã se desdobrava na função de príncipe e ela linda e brilhante como princesa mimada rsssss.

A foto que estou mandando sou eu (pequena), minha irmã, e o vizinho que achei que era o príncipe....ahhh!!! Bem, aí está o príncipe dos meus sonhos de criança e a história como ela é.


Cibele, 34 anos, psicóloga.

Blog da Cibele

12/05/2009

Uma história sem fim


ão sou tão moderno quanto pareço, se é que pareço moderno, quando na verdade isso também não passa de mais uma daquelas ilusões que arbitrariamente criamos para nos proteger do ameaçador cotidiano banal que nos cerca. Talvez por isso, em função desse medo, quando pequeno gostava muito de ouvir histórias, aquelas que só nossas mães sabem contar, e num sortilégio das muitas que ouvi guardei, não sei por que exatamente, as passagens de um conto de uma menina mimada e seu tourinho branco.

O enredo simples ficava, a cada vez que eu ouvia o conto, mais e mais fantástico. Não sei se por truques da minha imaginação, ou se por criatividade da minha mãe. A mesma história era sempre uma nova história, que narrava as aventuras da filha de um grande proprietário de terras viúvo, que para salvar um tourinho que lhe foi dado por sua mãe no leito de morte, das garras de sua ambiciosa e invejosa madrasta, foge com o animal encantado. No entanto, a madrasta mantinha pactos malignos com monstros, que por sua vez travavam sangrentas batalhas com o pobre tourinho.

A cada noite a menina fugia no lombo de seu precioso animal até certo ponto, onde eram obrigados a atravessar pequenas e estreitas pontes, passagens, passarelas, como o máximo de cuidado possível, evitando assim que o monstro responsável pela guarda do local despertasse. Infortunadamente, no meio da travessia, sempre algo dava errado, a menina espirrava, ou seu sapatinho caia, ou seu vestido grudava nos pontiagudos arames da cerca. Então o tourinho era obrigado a travar aquela batalha contra os seres mais assustadores, ficava cada vez mais fraco, ainda assim prosseguia sua jornada.

Não me recordo do fim desse conto, não sei se chegou a existir um fim, ou simplesmente deletei essa informação. Mas guardei essa história, talvez por ser uma história de amizade, talvez por se tratar de uma aventura. Talvez pelo medo que sentia ao ouvir determinadas passagens. Ou talvez simplesmente por gostar de ouvir minha mãe contando histórias. Não sei. O fato é que esse conto continuará guardado aqui, bem dentro de mim, como uma espécie de elo eterno entre eu, minha infância e minha mãe.


Diego Krisp, 23 anos, ator.

Blog do Diego

Revisitando a minha memória de menina (parte 1)


uitas estórias me marcaram, mas duas em especial: “O Soldadinho de Chumbo” e “O gato de botas”. Lembro-me de ter um livro grande, de capa dura, quadrado e fino, que eu manuseava e "lia" sempre em voz alta. É bem provável que eu tivesse outros livros, porém esse é o que ficou na minha memória.

Não me recordo de alguém lendo a história para mim. Na minha memória só há espaço para a minha imagem da menina, do livro e da história. De interferências, lembro-me apenas de alguém observando que mesmo sem ler "de verdade", eu lia a história "ipsis litteris". O que quer dizer que alguém muitas vezes deve ter lido a história para mim, mas isso foi para o esquecimento.

Eu sentia muita tristeza pela sina do soldadinho, embora houvesse um certo conforto em saber que o amor que ele sentia pela bailarina era correspondido, mesmo que ele não soubesse disso. O que me movia para o encantamento era a percepção de que as forças sociais (ele era excluído por ter um defeito de fabricação), as naturais (foi levado pela chuva ralo abaixo até alcançar as forças oceânicas), não foram suficientes para separá-lo da bailarina, pois, ao ser engolido por um peixe, o mesmo acaba sendo comprado pela dona da casa aonde vivia a bailarina e, assim, os dois se reencontram.

O fato dos dois serem queimados no fogo da lareira, não me entristecia, pois morriam juntos e reviviam em outro tempo e espaço. A morte deles para mim, na verdade, era uma nova vida.


Débora Brenga, 51 anos, espalhadora de estórias (escritas e orais).

Revisitando a minha memória de menina (parte 2)


u considerava o "Gato de Botas" muito inteligente, pois conseguia transformar, de uma maneira criativa, a vida miserável de seu dono. Eu não o via como um enganador, mas como um animal que precisava salvar seu dono e que usava de peripécias para criar situações que viessem beneficiar o dono.

Eu queria muito ter uma bota daquelas, pois eu atribuía a elas todo o brilhantismo de sua inteligência. Me encantava a forma em que o gato acabava com a vida do ogro, ou seja, se utilizando das próprias artimanhas dele. Mais ou menos, como diz o ditado: "o peixe morre pela boca".

O "Gato de Botas", me dava uma sensação interna de ser o sujeito de minha própria vida, de depender de mim mesma essa capacidade de modificar a realidade vivida, apenas, contando com os atributos de minha inteligência criativa. Claro que isso não era explícito e, se alguém, me perguntasse por que era uma das minhas estórias preferidas, eu não saberia responder. Hoje é que eu tenho condições de fazer essa leitura, de atribuir esse significado ao conforto que essa estória me oferecia.


Débora Brenga, 51 anos, espalhadora de estórias (escritas e orais).

11/05/2009

Manchas na parede


a minha casa, quando eu era criança, tinha poucos brinquedos mas Muitos livros. Livros de fantasia, livros de mitologia, livros de conto de fadas. Agente mesmo viajava criando nossas próprias historinhas. Adorava Andersen e os irmãos Grimm, com muitas histórias brutais e horrendas, muito diferentes dos desenhos da Disney. Eu adorava isso. Achava bacana pois nem todas as histórias tinham final feliz. Como o caso das irmãs da Cinderela que mutilaram os pés para calçarem o sapatinho encantado e tiveram os olhos arrancados no final.

Mas a minha estória preferida de todas foi por muito tempo João e Maria. Isso começou na época em que passamos necessidade lá em casa e eu me sentia como os dois meninos pobres e desamparados. Eu também sonhava encontrar uma casinha de doces como aquela. Mas eu saia na rua e só via cascalho.

Nossa imaginação era estimulada de muitas formas, naquela época agente não era tão envolvido com televisão. O quintal, por exemplo, era um encantamento só. Dia de chuva não dava pra brincar lá fora. Agente lia. Lia e admirava aquele mofo mágico que subia pelas paredes. Em suas manchas avistávamos um lindo bosque sob a neblina.
Será que ainda faz sentido falar em floresta para as crianças de hoje?


Rodrigo Alvarenga, 31 anos, embusteiro e contador de histórias.

10/05/2009

Disquinho mágico



inhas memórias com os contos de fadas são bem fugazes... Não me lembro bem se meus pais ou outras pessoas me contavam muitas histórias, mas tenho certeza que vários personagens me marcaram e estão presentes até hoje em minha vida.

Lembro bem da casa de uma tia, onde tinha todos os disquinhos de estória e vários livros, e eu adorava todos eles. Até hoje quando escuto essas histórias sou transportado para um tempo onde não sei bem que idade tenho, e que fica muito claro a força da imaginação.

Os personagens que mais me marcaram foram as bruxas, acho que pelo poder mágico delas, além delas lidarem com o lado da maldade que todos temos. Elas têm vassouras que voam, se transformam em outras pessoas ou animais e provocam medo, muito medo... Além disso acho que gostaria muito mais de ser uma bruxa do que uma princesa, as bruxas são bem mais interessantes.

Anos depois, já "adulto" passei a contar histórias para outras crianças, e me divirto muito com todo o tipo de reação delas além do gosto que toda criança tem em ouvir estas histórias. Alguns anos atrás, uma prima minha veio me falar sobre uma história que inventei para ela, estávamos brincando na casa de um tio, e eu, vendo um lote vago, bem próximo com uma casa em construção, disse a ela que ali moravam os duendes, e inventei milhões de histórias sobre eles. Eu nem me lembrava mais deste dia, mas ela veio me contar sobre esta lembrança. Fiquei muito surpreso de como esta história marcou a vida dela e que agora faz parte também da minha memória. Acho que é isto, ter contato com a nossa imaginação e com toda a mágica que nossa cabeça é capaz de criar é muito bom, e os contos de fadas são uma ótima porta para este universo. Entre e verá!!!


Jonnatha Horta Fortes, 28 anos, ator.

João e o pé de sonhos


ontos de fada para mim significaram muito: Sempre fui fascinado com as clássicas Fábulas de Esopo, La Fontaine e também os contos de fadas de Charles Perrault.

Quem não sentia o clima cálido e morno do sol do "mais à tardinha ao sol poente" de Chapeuzinho Vermelho?
Ou quem não teve vontade de passar um tempo em cada uma das casas (palha, madeira e pedra) dos três porquinhos?

Sempre achei instigante, em especial, a história de João e pé de feijão: Cenário básico da Europa antiga, mas que também poderia ser em qualquer parte do mundo, no Brasil, por exemplo: Uma família muito pobre que mora no campo tem a perspectiva de conseguir uma renda extra com a venda - em uma feira temporária na cidade - de uma vaca leiteira gorda. Mandam o rebento João seguir viagem para tentar vender a vaca Mimosa e trazer um dinheirinho para a sobrevivência da família. João chega lá com a Mimosa, provavelmente não comeu nem bebeu nada durante a viagem e, caindo no papo de um sabichão aproveitador, troca a vaca por três supostamente mágicos grãos de feijão. De volta à casa é repreendido por seu ato "impensado" que deixaria a família em completo desespero e miséria. O pai de João revoltado atira longe os grãos de feijão e vão dormir. No dia seguinte, bem cedinho, João acorda e a surpresa é a de que havia um enorme pé de feijão que arranhava o céu, na janela de sua casa. Como um azougue ele salta de sua cama e alcança o pé de feijão, escalando-o até as nuvens...

A história segue com dados verdadeiramente surrealistas e, para mim, sempre criei claras imagens do castelo do Gigante no céu, do pé de feijão ao lado da casa e das machadadas que encerram a trama, e, sem esquecer da queda final do gigante. Com isto, acredito que esta história trouxe vários sonhos criativos e maneiras de ver a vida como o João do pé de feijão, que arriscou a fazer uma compra insana e, inconscientemente acreditando no poder mágico dos feijões, lidando com o inconsciente ao entrar num mundo onírico e surreal característico ao universo da criança.


Henrique Mourão, 28 anos, ator.

De um porquinho...


ra uma vez, no tempo em que os animais ainda falavam, três porquinhos que viviam felizes na casa da sua mãe. A mãe fazia tudo pelos filhos, sendo que dois deles não ajudavam a mãe em nada. Já o terceiro sofria muito de vê-la trabalhando sem parar.

Meu pai contava esse história incessantemente, hoje sei bem o que ele queria com isso: queria nos educar para colaborarmos mais com a nossa mãe. Somos três homens em casa e eu sempre senti que minha mãe fazia tudo por nós enquanto meus irmãos eram uns folgados. Lembro do meu pai frisando bem que dois dos porquinhos eram preguiçosos e o terceiro era muito apegado à mãe, que fazia tudo pelos filhos, sem nenhum reconhecimento.

Cresci assim, olhando minha mãe, prendada e dedicada. Quando meu pai morreu, meus dois irmãos encostaram-se à aposentadoria que ele deixou para ela. Isso me revoltava e me fazia dedicar mais a ela. Quando meu irmão começou a se envolver com coisas mais pesadas eu tinha que ajudar a cuidar dele também e às vezes pensava: Porque a minha mãe não leu ela mesma os três porquinhos!? Teria nos mandado morar sozinhos para aprendermos a ter responsabilidade na vida e teria sido outra a nossa história.

Ainda moro com minha mãe, mas não me esqueço que tenho a meta de construir para mim uma casa mais resistente como a casa de tijolo da história. Acho que até agora construí uma casinha de madeira. Não que eu seja preguiçoso como os porquinhos, mas cuidando da minha mãe sozinho acabo caindo uma armadilha! Será que é complexo de Édipo? Ahahahah! Não acredito!

O que mais me influenciou nesse conto foi ver que o quanto ele pode de fato representar a vida real das pessoas. Ouvi-lo quando criança na linguagem infantil nos oferece possibilidades de fazer escolhas e decidir os caminhos a seguir. Com certeza não escolhi construir meu alicerce de palha, mas ainda não fiz minha fundação consistente. Sei bem onde quero chegar: na minha linda casinha de tijolos!


Samir Isaac, 30 Anos, cabelereiro.

Fórmula mágica


em um conto de fadas, ou melhor, uma história que eu lia muito quando era pequena e que me deixava encantada.
Tratava-se de uma menina poderosa, capaz de alterar seu tamanho, com o seguinte versinho:

Areia da grossa
Areia da fina
Areia me faça
Ficar pequenina.

Eu recitava este versinho com bastante convicção, imaginando que, uma vez pequena, poderia ficar quase invisível, entrar em todos os lugares sem ser percebida, conhecer os mundos submersos, os lugares inacessíveis para as pessoas comuns, no momento que eu quisesse. Esta fórmula mágica me levaria para um país imaginário ao qual poucos teriam acesso. Acho que até hoje procuro estes lugares inacessíveis e difíceis. O poder de crescer e diminuir desta menina era similar ao biscoito de Alice "Coma-me" ou ao líquido "Beba-me" capazes de alterar seu tamanho tornando-a ou muito grande ou muito pequena. Esta era uma história que também me agradava muito. Através das palavras ou, através da comida ou bebida, entrava-se numa outra dimensão. Sair da nossa dimensão usual pode ser um sonho que só se realiza nos próprios sonhos, nos contos de fadas ou então na arte. Quando fazemos arte vamos para um outro lugar onde as fronteiras do real se diluem e redescobrimos tudo que no cerca. Transformar-se através de um passe de mágica pertence ao universo das crianças, é muito sedutor, e alimenta algo que no futuro pode ser alcançado através da arte, uma tarefa custosa, para poucos e raros.


Ione de Medeiros, diretora de teatro.

Site do Grupo Oficcina Multimédia

09/05/2009

Sheila e a Bruxa


obre o escrito abaixo, posso dizer que faz parte das memórias de longo prazo, memórias biográficas. Não esqueço de jeito nenhum. A imagem que tenho desta breve "estória" é nítida e o "que" a lembrança dela me causa também... Foi assim:

Estava num campo, correndo alegre com minha pequena cachorrinha preta, Sheila. Corríamos e brincávamos. De repente ouvi um grande barulho.... vindo do céu! OH!!!!!!! Era ela! A bruxa de vestido preto comprido, de chapéu pontudo preto e com um nariz enorme e uma verruga na ponta. A B R U X A!!!!! A mais fiel imagem daquela que naquele momento roubava a paz da minha noite. Ela vinha num helicóptero grande e barulhento. O enorme barulho abaixou e ela estendeu seu braço elástico e zuuupt!!!! Pegou a Sheila! depois zuuupt! Me pegou!!!! O helicóptero rapidamente afastou-se do chão e ela às gargalhadas ameaçava jogar minha pequena cadelinha lá de cima!!!! Eu, h o r r o r i z a d a, gritava, gritava e chorava compulsivamente.... De repente, acordei com minha tia me balançando. Estava tudo bem. A Sheila dormia aos meus pés. UFFF. Adormeci.


Mônica Ribeiro, 38 anos, atriz, bailarina e professora universitária.

08/05/2009

Frevo de ninar


o meu caso, o que mais me marcou não foram as estórias, mas sim as músicas. Meu pai todas as noites me embalava na rede cantarolando bois da cara preta, sapos cururús e sempre o mesmo frevo pernambucano, Evocação nº2 ( acho que esse é o nome) que nada tem a ver com música de ninar crianças. A letra dizia assim: “Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon cadê seus blocos famosos…”, e assim por diante.

Quando cresci ficava pensando o que levaria um pai a cantar esta música para sua filha dormir. Bem, a razão eu nunca soube. Só sei que adoro os frevos e os blocos pernambucanos e que talvez aquela música tenha me dado a energia e a animação que tenho pela vida e pelas coisas que faço.


Heliana Mestrinho, professora universitária, dentista e "boadrasta" da autora deste Blog.

07/05/2009

Cama sonolenta


embro-me que, quando pequena, minha mãe tinha o hábito de me contar a estória de um livro chamado "A casa Sonolenta", que assim começava:

" Era uma vez uma casa sonolenta, onde todos viviam dormindo. Nessa casa tinha uma cama, uma cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo".

Posso dizer, com toda certeza, que foi essa a estória que mais me inspirou na vida. Fiz de minha cama dura, dura como uma porta, a coisa mais aconchegante de todos os tempos. E, desde então, eu durmo, durmo e durmo, em minha cama aconchegante, em meu quarto sonoleto, onde vivo dormindo.

Acho que minha mãe, hoje em dia, se arrepende um pouco de não ter comprado um livro chamado "A casa acordada".


Luísa Mestrinho Peliano, 21 anos, estudante de direito.

As tias da gente


uero falar da importância das tias na imaginação infantil. Ao menos das tias de antigamente, que não precisavam (ou não podiam) trabalhar fora. Viviam para nos alimentar – com comida e histórias. Eu tive três tias que me contavam histórias. Uma delas se alimentava na coleção “Tesouros da Juventude”, de modo que seu repertório era vaaasto. Eu gostava de ouvi-la porque ela contava sempre do mesmo jeito. Podiam ser mil vezes, ela não mudava uma vírgula, e mantinha o mesmo gosto e a mesma delicadeza no contar.

Lembro da fábula do macaco e do boneco de piche. Aquela em que a velha doceira, para não ter seus biscoitos roubados pelo macaco, resolve fazer um moleque de piche. O bicho se aproxima e pede um doce. Como o “menino” não responde, o macaco ameaça bater nele e, todas as vezes que faz isso, fica com uma parte do corpo grudada no boneco. No final da estória, a velha dava uma surra no animal, pra ele aprender a não roubar o ganha-pão dos outros. Na hora da surra a minha tia caprichava nos detalhes, eu ria demais da conta – crueldades infantis - e, invariavelmente, pedia pra ela repetir. Tenho certeza absoluta de que muito da minha paixão pela criação de estórias vem dessa experiência aconchegante com a minha tia contadeira.


Adélia Nicolete, 44 anos, dramaturga.

06/05/2009

Abandono



sses contos de fadas são muito cruéis... A história do João e Maria, por exemplo, é terrível! Primeiro legitima o assassinato, ou seja, quem é mau deve morrer mesmo, como é o caso da bruxa, depois perdoa os pais que abandonam os filhos... Pelo visto nessa história não tinha nem constituição e nem estatuto da criança!


Nathalie Beghin, 46 anos, economista.

Um presente do Sol

Minha gente, concordo que a idéia inicial era colecionar estórias pessoais sobre contos de fadas e afins. Tive que abrir essa excessão pois as duas estórias seguintes são muito legais e foram escritas pelo meu pai.

eu pai tirou da cartola dele um procedimento fantástico, digno de ser reverenciado. Marcou-me pelo resto da vida quanto ao perceber que a coisa e a imaginação caminham juntas. O mesmo que hoje diria a turma do filme WHAT THE BLEEP DO WE KNOW? de que um evento em si só existe em nossa vida porque cada um de nós faz parte dele ou, em outras palavras, a coisa só é porque somos, o universo auto-referenciado!

Pois bem, meu pai dizia que falava com o sol e juntava meus irmãos e eu ao redor dele; fechava os olhos e conversava com a entidade sol e lhe perguntava o que ele tinha trazido para nós. De repente, depois de muita conversa jogada fora, ele nos dizia para procurarmos em determinado lugar, fosse a sala, os quartos, a cozinha, para acharmos o que o sol havia reservado para nós. Meu pai tratava de sempre conseguir um presentinho para cada um de nós. Era uma felicidade e, para mim, um alumbramento, como meu pai tinha o dom de falar com o sol? Pois, a presença do sagrado, o inefável, o impossível, sempre me acompanhou ao longo de meus anos: é o que acredito sempre me levar para frente em todas as situações, boas ou más, para que eu não desista de conseguir meus sonhos, projetos, enfim, o mundo do faz de conta, da minha conta! Tomei de empréstimo a idéia luminosa e a reproduzi algumas vezes para as minhas filhas.


José Carlos Peliano, 61 anos, poeta e economista.

O universo e além


ão é propriamente um conto de fadas o estopim, mas foi-me certamente soprado pelas fadas o conto que conto a seguir sem desconto. Quando menino, por volta dos meus oito ou nove anos, talvez, fiquei dias e dias perturbado com a seguinte observação: se o universo, e olhe que o universo naquela época era ainda de meu tamanho de menino!, com suas estrelas, planetas, cometas e que tais, ocupa todo esse espaço, é sinal que esse espaço já existia antes que tudo aparecesse. Se é assim, ou mais ou menos assim, o que significava o espaço vazio, sem nada, nadica de nada dentro? Ele já estava aí esperando ser preenchido? Que coisa mais sem jeito!! Aí me dei conta que o espaço cheio precisava do espaço vazio para existir e vice-versa. Hoje eu diria que o todo faz parte do nada e este precisa do todo para ser em si. Não sei se os físicos gostam da idéia, mas para mim faz sentido e me fez acalmar na época e até hoje, embora já com prolongamentos que suspeito interessantes. Por sinal, comentei o achado com o meu pai e lembro de ele me dizer que eu não ficasse preocupado porque há coisas na vida que não têm explicação racional, elas apenas são! O mesmo que disse Ronald Laing, anti-psiquiatra inglês, já falecido, em palestra em Belo Horizonte em 1979 ou 1980 em um dos auditórios da UFMG. E se, como dizia um professor meu de mestrado, romeno, Nicolas Georgescu Roegen, na Universidade de Vanderbilt, EUA, tudo em ciência é verdade até que provem o contrário, logo a minha verdade é ciência até que ela caia de madura ou ou deixe de ser um tranqüilizante para mim.

José Carlos Peliano, 61 anos, poeta e economista.

As galinhas ruivas


mamãe (Vovó Lourdes) contava com prazer inédito a estória da galinha ruiva... Também adorava a estória dos três porquinhos e da cigarra e a formiga. Contos que estimulassem o trabalho eram com ela mesma que enfatizava a moral da estória toda vez que contava. “Quem não trabuca não manduca”.

Por essas e por outras não é à toa que hoje tem quatro filhas workaholics.

Anna Peliano, 61 anos, socióloga. (mamãe)

05/05/2009

Quem tem medo do lobo mau?


ma vez eu contei a estória dos três porquinhos para o meu sobrinho. Eu estava em Copacabana, na frente de uma floresta enorme e resolvi dizer para ele que o lobo morava lá naquela floresta. Eu fazia as casinhas dos porquinhos com uns descansos de copo, depois soprava e derrubava tudo, ele adorava. Só que à noite... à noite ele nem conseguiu dormir, de tanto pesadelo que teve com o lobo. Ainda assim, ele continuou me pedindopara contar essa estória. “De novo tia”. E eu dizia: “- Toc, toc, toc! – Quem é? – Sou eu, seu lobo! – O que é que você quer? – Quero te comer! – Não vou abrir! – Então eu vou soprar até a casa cair!”

Anna Peliano, 61 anos, socióloga.

03/05/2009

A Cigarra e a Formiga


uitos anos depois eu percebo finalmente como era amiga dos insetos e bichinhos pequeninos. Meu prediletos eram os tatu-bolinhas. Mas uma vez eu fiquei encucada com a estória da Cigarra e da Formiga, do La Fontaine. Estava revoltada com o desprezo da formiga pela cigarra, que eu achava a mais legal de todas. Queria até ser amiga íntima dela. Foi quando eu decidi ir até o quintal e catar uma cigarra entre tantas que cantavam insistentemente naquela época. Eu achava que esta, em especial, estava me chamando. Peguei então a cigarra, amarrei numa linha e pendurei ela num prego na parede do meu quarto. Ela ficava voando e gritando indignada, eu acho. Mas eu, ingênua, achava que ela também queria ser minha amiga. Até que subitamente meu padrasto jogou fora aquele “bicho nojento”. Eu fiquei desconsolada e comecei a espernear e a gritar como a cigarra.

Adriana Peliano, 35 anos, artista plástica.

Cinderela em quadrinhos


inha mãe sempre me deu livros e revistinhas de presente. Meu irmão mais velho colecionava livros de ficção. Minhas tias Teresinhas (eu tenho duas) eram leitoras obsessivas e tinham uma estante abarrotada, cada uma em sua casa. O resultado dificilmente seria outro: desde pequena minha companhia constante é a literatura. Mas em cada fase temos nossas preferências.

Meu livro preferido entre os 8 e os 9 anos foi uma edição da Cinderela em quadrinhos que ganhei de uma prima do interior. Achava fascinante ver, cena a cena, a história daquela menina órfã, abandonada pelo pai às garras de uma madrasta que já tinha duas filhas megeras. Eu simplesmente não parava de ler! Lia deitada, lia sentada. Um dia comecei a ler de trás pra frente. Depois lia pulando páginas e voltando pra ler o que faltava. Acho que aquela coisa de salvamento milagroso (os bichinhos ajudando-a a costurar as roupas) e de justiça final (o príncipe encontrando a verdadeira dona do sapatinho) confortava de alguma maneira a minha alma. Criança tem medo das coisas. E a Cinderela me dizia pra eu confiar, que tudo daria certo no final das contas.


Adélia Nicolete, 44 anos, dramaturga.