

Claro que, naquela época, eu não formulava esse raciocínio em minha cabeça, mas sabia que isso era o que me incomodava. E se eu também fosse feia? Nunca seria aceita? O pobre patinho, que na verdade era um cisne, enfrentou até bicadas de galinhas. Sentia profundamente aquelas bicadas. Chegava a imaginar a dor do coitado. Com lágrimas nos olhos, ouvia o canto das avezinhas que entoavam com suas vozinhas finas a canção “nós somos as garcinhas, somos umas gracinhas...”. Imaginava se elas eram mesmo tão bonitinhas e quanto devia partir o coração do patinho ouvir isso. Ele que era só um cisnezinho novo que nem conhecia o mundo, que nem conhecia a si próprio.
Ainda bem que no final tudo se resolvia. Sentada ao pé da vitrola, sem quase nem respirar para não fazer barulho e perder a história, eu realmente sentia um grande alívio quando a tormenta passava. Quando terminava o vinil, eu o pegava e ficava admirando. Como cabia uma história tão pesada como aquela daquele disquinho azul claro? Guardava na capinha rota de nem sei quantos anos. Sempre pensava que um dia ouviria de novo. No fundo, queria que na próxima vez a história tivesse mudado. Queria que o patinho não sofresse tanto. Já naquela idade eu tentava aprender formas de não enfrentar a dor.
Sabrina Davanzo, 26 anos, publicitária.
Blog da Sabrina
Eu tinha a história da baratinha nas sua busca de um amor... ADOOOORO!
ResponderExcluirAMEI sua história, Sabrina... E a imagem do seu conto... ficou sensacional... a Adriana é mesmo uma "captadora" de imagens....rs!