19 de mai de 2009

Floresta de símbolos


esde que vi esse blog fiquei pensando na possibilidade de escrever. Fui vendo as coisas escritas, mas não me senti enquadrado no perfil das estórias que estavam aparecendo porque as histórias que, de fato, povoaram a minha infância, não vinham dos disquinhos nem dos filmes da Disney (teve a "Montanha enfeitiçada"!) ou da literatura infantil (teve o “Menino do dedo verde”... ) que, no geral, eu odiava por serem no final vinculadas a uma moral que eu sempre achava horrível.

Passei a infância em Brasília na SQN 415, uma quadra no final da Asa Norte absolutamente isolada, nem ônibus chegava lá. Havia a quadra no meio, o lago no fundo e o mato em volta, tanto que parte desse mato, hoje, virou um parque. Então as coisas que povoavam a minha infância eram criaturas que viviam no mato, na "floresta", e histórias que contavam sobre uma suposta casa de fazenda que teria existido próxima ao laguinho do parque. Nós, as crianças, fazíamos viagens de exploração na "fazenda". Descobrimos os restos de um calçamento no meio do mato e de uma construção em alvenaria. Isso funcionou como um "selo" capaz de garantir a veracidade de todas as histórias que contavam sobre a fazenda.

Tinham as histórias de escravos, os espíritos da floresta, as histórias de bichos (cobras principalmente) e das crianças perdidas. Nossa, essas eram um terror! Sempre alguém havia sido raptado semana passada. O velho tarado do parquinho, a velha do saco, a eterna memória da morte da Ana Lídia; lembra dela? O primeiro assassinato de criança em Brasília? E o pior é que eu estudava no mesmo colégio que ela, o Madre Carmen Salles que, aliás, contavam, tinha o corpo sem se decompor em uma capela em um lugar na Itália. Teve o caso de um japonês encontrado morto dentro do laguinho, boiando com uma cobra enrolada em volta do corpo. Olhando assim parecia que eu estava no meio de um cemitério: era gente morta para todo o lado e de todas as épocas. Para piorar a situação, o meu pai era espírita.

Tinha também o clima. Pela proximidade com o lago e gente sempre pegava a neblina de manhã quando íamos para a escola, a mesma neblina de "A casa de noite eterna" que passou no sábado a noite, depois da novela, que eu vi escondido ora no corredor do apartamento, ora em baixo da mesa e depois, por vários anos, assim que eu fechava os olhos para dormir.

Passou um pensamento na minha cabeça agora: Peter Pan. Essa era uma história que eu gostava. Não era num reino distante; não era na idade média e a realidade fantástica vinha visitar a gente de noite. Tinha a confusão de ser uma coisa de verdade. As crianças realmente saíram de casa, os pais ficaram preocupados e no final voltaram de um lugar em que realmente estiveram. Eram como as almas que estavam no mato, ou no meio da neblina. Eram figuras reais, históricas e não figuras de estórias. Eu não entendia como é que não saia no jornal nacional todas as vezes que Tóquio era destruída por um monstro, nem como ninguém entrevistava o Spectreman.

Eu me lembro de um programa de rádio AM, “Histórias que o povo conta”, que a empregada sempre ouvia de manhã, às10:00 e um quadro no fantástico que tinha o mesmo mote, com histórias medonhas. Uma especificamente me alucinava: contava a aventura de um homem que comprou uma fazenda no interior da Bahia, na Serra da Capivara, depois de Ibotirama, (eu sei porque sempre passávamos por lá indo de carro para Pernambuco nas férias e eu sempre entrava em pânico) e foi à casa de um amigo de infância buscá-lo para uma caçada. Encontrou com o sujeito e foram para mata. Chegou a noite e o amigo sumiu. O sujeito deu tiros para o sinalizar ao amigo que não respondeu. Procurou um canto para dormir no meio da noite foi atacado por uma criatura como um pé-grande. Deu uns tiros na criatura que nem se abalou e deu-lhe uma surra. Foi acabar na caverna da criatura em meio a um monte de ossos humanos. Conversa vai conversa vem e ele conseguiu fugir do lugar. Voltou à casa do amigo e encontrou com a esposa dele que lhe relatou que o marido havia sido morto por um bicho em uma caçada havia dois anos.

O tema de raptos e abduções era frequente. Ana Lídia, as histórias do rádio, Peter Pan, João e Maria, os quadros do fantástico. Meu pai tinha um sítio perto de Luziânia e ia para lá todo sábado. Era um inferno! Ele costumava chegar em casa por volta das seis da tarde. Quando dava sete horas e ele não chegava, eu entrava em pânico. Sabia que as estradas eram escuras e que a realidade era muito variada. Nessa hora toda aquela maluquice de todas as estórias juntas tomavam forma. Vez por outra ainda faltava luz! Era a morte! Naquela época sempre faltava luz em Brasília. Tinha até torcida quando a luz volatava.

Quando no sábado, às sete da noite, meu pai estava desaparecido e faltava luz, era a visão da besta-fera! E na década de 70 era tudo muito sem explicação. A falta de luz eram problemas nas linhas de transmissão, mas ninguém explicava nada para a gente. Mas todas as crianças sabiam que tudo o que acontece tem uma causa. E como todo mundo dizia que a causa de todas as coisas - o copo que quebrou, o ralo que entupiu, o peido no ar - é culpa da criança, a causa de todas as coisas fantásticas poderiam até não ter explicação, mas com certeza haveria uma causa que poderia ser eu mesmo. Apesar de criança, tinha consciência das minhas máculas. Havia motivos que me faziam crer na fatalidade de ser punido. No meu caso específico, eu adorava roubar frutas na venda! Até os oito anos de idade eu era um mão-leve da melhor qualidade. Adorava roubar laranjas, mangas e goiabas. E sabe quando se passa debaixo de um poste e ele, só ele, dentro todos os postos da rua, apaga? Vem a reação: "Credo!"; "uruca!"; "preciso de um descarrego!" etc. Então era só somar dois e dois.

Outra coisa eram os sinais fantásticos. Era imprescindível saber lê-los. Se podíamos perceber os efeitos dessa realidade ampliada, sofrer sua ação - o poste que se apagava, o pai que se atrasava - então havia como manipular essa realidade. Os exemplo eram vários. O mais impressionante deles eram os grupos marianos, de adoração à Nossa Senhora, que juntavam um monte de gente e atravessavam a quadra com velas acesas, eventualmente no meio de um apagão e antes que as velas se apagassem a luz voltava! Havia variantes de comportamento menos coletivos: nunca andar de costas, senão a mãe morre; nunca deixar porta aberta, para não atrair ladrão. Então quando se via alguém andando de costas, essa pessoa tinha problemas com a mãe e por aí vai.

Anos mais tarde no meio de um encontro de estudantes em Natal/RN, uma estudante foi raptada. O pânico da infância voltou com todo o seu poder e me agarrei aos meus cristais e mentalizei uma barreira policial e a menina sendo salva. Isso de fato aconteceu. Em uma barreira policial parou um carro e a menina estava no porta malas. O meu cristal estourou, quebrou, partiu bem na ponta. para os usuários de cristal, isso acontece quando muita energia é deslocada através cristal; gera um curto circuito.

Bom, isso tudo é para dizer que a minha relação com as histórias - contos de fadas - é muito mais próxima do que eu imaginava quando comecei a escrever esse texto. Mas eu sempre entendi que se tratavam não de histórinhas para boi dormir. Elas montavam o meu entendimento das coisas. As relações que eu fazia para gostar das histórias - personagens que se parecessem comigo, a idéia de uma realidade histórica - foram coisas que eu vivia o tempo todo. Não era uma quarta parede que separava realidade do palco, eu era personagem também. E ainda sou até hoje.


Sávio Ivo, 38 anos, arquiteto e artista plástico.

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