

"Um Rei adoeceu. Vieram os médicos e disseram: “Majestade, se quereis curar-vos é necessário arrancar uma pena do Ogro. É um remédio difícil de arranjar, pois o Ogro come todos os cristãos que encontra.
O Rei falou a todos mas ninguém se prestou a ir. Pediu a um de seus súditos, muito fiel e corajoso, e este disse: “Eu vou”. Mostraram-lhe o caminho: “Em cima de um monte há sete cavernas; numa delas está o Ogro.”
O homem lá se foi e a noite o surpreendeu no caminho. Parou numa hospedagem..." (Fábulas Italianas, 57)
Nada se informa sobre a doença de que sofre o Rei, de como será possível que um Ogro tenha penas, ou como podem ser tais cavernas. Mas tudo que é nomeado tem uma função necessária no enredo. A principal característica do conto popular é a economia de expressão: as peripécias mais extraordinárias são relatadas levando em conta apenas o essencial; é sempre uma luta contra o tempo, contra os obstáculos que impedem ou retardam a realização de um desejo ou a restauração de um bem perdido. O tempo pode até parar de todo, como no castelo da Bela Adormecida, bastando para isso que Charles Perrault escreva:
“(...) até mesmo os espetos no fogo, cheios de perdizes e faisões, haviam adormecido e bem assim o fogo. Tudo isso aconteceu num breve instante: as fadas não perdiam tempo no executar dos seus prodígios.”
Ítalo Calvino (1923 – 1985), escritor.
Fragmento colhido do livro “Seis propostas para o próximo milênio”, p.50
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