21 de mai de 2009

Elogio à concisão

Agora estou colecionando também depoimentos de escritores sobre a importância dos contos de fadas em suas vidas e em suas obras. Aceito colaborações.


e num determinado período da minha atividade literária senti certa atração pelos contos populares e as historias de fadas, isso não se deveu à fidelidade a uma tradição étnica ( dado que minhas Raízes se encontram numa Itália inteiramente moderna e cosmopolita), nem por nostalgia de minhas leituras infantis (em minha família as crianças deviam ler apenas livros instrutivos e com algum fundamento científico), mas por interesse estilístico e estrutural, pela economia, o ritmo, a lógica essencial com que tais contos são narrados. Em meu trabalho de transcrição de fábulas italianas, que fiz com base em documentos de estudiosos de nosso folclore do século passado, encontrava especial prazer quando o texto original era muito lacônico e me propunha a recontá-lo respeitando—lhe a concisão e procurando dela extrair o máximo de eficácia narrativa e sugestão poética. Por exemplo:

"Um Rei adoeceu. Vieram os médicos e disseram: “Majestade, se quereis curar-vos é necessário arrancar uma pena do Ogro. É um remédio difícil de arranjar, pois o Ogro come todos os cristãos que encontra.
O Rei falou a todos mas ninguém se prestou a ir. Pediu a um de seus súditos, muito fiel e corajoso, e este disse: “Eu vou”. Mostraram-lhe o caminho: “Em cima de um monte há sete cavernas; numa delas está o Ogro.”
O homem lá se foi e a noite o surpreendeu no caminho. Parou numa hospedagem..." (Fábulas Italianas, 57)


Nada se informa sobre a doença de que sofre o Rei, de como será possível que um Ogro tenha penas, ou como podem ser tais cavernas. Mas tudo que é nomeado tem uma função necessária no enredo. A principal característica do conto popular é a economia de expressão: as peripécias mais extraordinárias são relatadas levando em conta apenas o essencial; é sempre uma luta contra o tempo, contra os obstáculos que impedem ou retardam a realização de um desejo ou a restauração de um bem perdido. O tempo pode até parar de todo, como no castelo da Bela Adormecida, bastando para isso que Charles Perrault escreva:

“(...) até mesmo os espetos no fogo, cheios de perdizes e faisões, haviam adormecido e bem assim o fogo. Tudo isso aconteceu num breve instante: as fadas não perdiam tempo no executar dos seus prodígios.”

Ítalo Calvino (1923 – 1985), escritor.
Fragmento colhido do livro “Seis propostas para o próximo milênio”, p.50

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