29 de mai de 2009

O homem e seus lobos

Freud explica...


ecordava ele que havia sofrido de um medo na infância, que sua irmã explorava com o propósito de atormentá-lo. Havia um determinado livro de figuras no qual estava representado um lobo, de pé, dando largas passadas. Sempre que punha os olhos nessa figura começava a gritar, como um louco, que tinha medo de que o lobo viesse e o comesse. A irmã, no entanto, sempre dava um jeito de obrigá-lo a ver a imagem, e deleitava-se com o seu terror.

Entretanto, ele se amedrontava também com outros animais, grandes e pequenos. Certa vez estava correndo atrás de uma grande e bonita borboleta, com asas listradas de amarelo e acabando em ponta, na esperança de apanhá-la. De repente, foi tomado de um terrível medo da criatura e, aos gritos, desistiu da caçada. Também sentia medo e repugnância dos besouros e das lagartas. Ainda assim, conseguia lembrar-se de que, nessa mesma época, costumava atormentar os besouros e cortar as lagartas em pedaços. Também os cavalos despertavam nele um estranho sentimento. Se alguém batia num cavalo, ele começava a gritar, e certa vez foi obrigado a sair de um circo por causa disso. Em outras ocasiões, ele próprio gostava de bater em cavalos.

Certa vez em que as crianças ganharam uns confeitos coloridos em forma de bastão, a governanta, que era propensa a fantasias desordenadas, disse que eram pedaços de cobra cortada. Ele lembrou-se, depois, de que o pai encontrara uma vez uma cobra, ao caminhar por uma picada, e a fizera em pedaços com uma vara. Ouviu a história lida em voz alta, de como o lobo queria pescar no inverno e usou a cauda como isca, e como, dessa maneira, o rabo do lobo se congelou e partiu. Aprendeu os diferentes nomes pelos quais se distinguem os cavalos, conforme estejam intactos ou não os seus órgãos sexuais. Assim, ocupava-se com pensamentos sobre a castração, mas ainda não acreditava nela, nem a temia. Outros problemas sexuais surgiram para ele nos contos de fadas com que se havia familiarizado nessa época. No ‘Chapeuzinho Vermelho’ e em ‘Os Sete Cabritinhos’, as crianças eram tiradas do corpo do lobo. Seria o lobo uma criatura feminina, então, ou poderiam os homens ter também crianças dentro do corpo? Nessa época, a questão não se colocara ainda. Mais que isso, na época dessas perguntas ele não tinha ainda medo de lobos.

"Meu Sonho". Sergei Pankejeff, 1964.

Esse foi um sonho que teve na ocasião:

‘“Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. (Meu leito tem o pé da cama voltado para a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho, e de noite.) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães pastores, pois tinham caudas grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como cães quando prestam atenção a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei. Minha babá correu até minha cama, para ver o que me havia acontecido. Levou muito tempo até que me convencesse de que fora apenas um sonho; tivera uma imagem tão clara e vívida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na árvore. Por fim acalmei-me, senti-me como se houvesse escapado de algum perigo e voltei a dormir.

A única ação no sonho foi a abertura da janela, pois os lobos estavam sentados muito quietos e sem fazer nenhum movimento sobre os ramos da árvore, à direta e à esquerda do tronco, e olhavam para mim. Era como se tivessem fixado toda a atenção sobre mim. - Acho que foi meu primeiro sonho de ansiedade. Tinha três, quatro, ou, no máximo, cinco anos de idade na ocasião. Desde então, até contar onze ou doze anos, sempre tive medo de ver algo terrível em meus sonhos.”

Ele acrescentou um desenho da árvore com os lobos, que confirmava sua descrição. Em todo caso, suas afirmações e atitudes justificam a suposição de que, durante esses anos da sua infância, passou por um ataque de neurose obsessiva, facilmente reconhecível.

A análise do sonho trouxe à luz o seguinte material: Ele sempre vinculara este sonho à recordação de que, durante esses anos de infância, tinha um medo tremendo da figura de um lobo num livro de contos de fadas. Na figura, o lobo achava-se ereto, dando um passo com uma das patas, com as garras estendidas e as orelhas empinadas. Achava que a figura deveria ter sido uma ilustração da história do “Chapeuzinho Vermelho”.

‘Por que havia seis ou sete lobos? Não parecia haver resposta para esta pergunta, até eu levantar uma dúvida sobre saber se a figura que o assustava estava vinculada à história de “Chapeuzinho Vermelho”. Este conto de fadas só oferece oportunidade para duas ilustrações - Chapeuzinho Vermelho encontrando-se com o lobo na floresta e a cena em que o lobo se deita na cama, com o capuz de dormir da avó. Teria de haver, portanto, algum outro conto de fadas por trás de sua recordação da figura. Ele logo descobriu que só podia ser a história de “O Lobo e os Sete Cabritinhos”. Nesta, ocorre o número sete, e também o número seis, pois o lobo só comeu seis dos cabritinhos, enquanto que o sétimo se escondeu na caixa do relógio. O branco também nela aparece, pois o lobo fizera branquear sua pata no padeiro, após os cabritinhos haverem-no reconhecido, em sua primeira visita, pela pata cinzenta. Além disso, os dois contos de fadas possuem muito em comum. Em ambos existe o comer, a abertura da barriga, a retirada das pessoas que haviam sido comidas e sua substituição por pesadas pedras, e, finalmente, em ambas o lobo mau perece. Além disso tudo, na história dos cabritinhos aparece a árvore. O lobo deitou-se sob uma árvore, após a refeição, e roncou.

Durante o tratamento, ele se dedicou com perseverança incansável à tarefa de vasculhar os sebos até encontrar o livro ilustrado da sua infância, reconhecendo o seu mau espírito numa ilustração da história de ‘O Lobo e os Sete Cabritinhos’. Achou que a postura do lobo nessa gravura poderia ter-lhe recordado a do pai. Em todo caso, a ilustração tornou-se o ponto de partida.

Este é o mais antigo sonho de ansiedade que o jovem que sonhou recordou de sua infância, e seu conteúdo, tomado juntamente com outros sonhos que o seguiram pouco após e com certos acontecimentos de seus primeiros anos de vida, é de interesse muito especial. Temos de limitar-nos aqui à relação do sonho com os dois contos de fadas que têm tanto em comum um com o outro. “Chapeuzinho Vermelho” e “O Lobo e os Sete Cabritinhos”. O efeito produzido por estas histórias foi demonstrado no pequeno que as sonhou mediante uma fobia animal comum. Esta fobia só se distinguia de outros casos semelhantes pelo fato de o animal causador da ansiedade não ser um objeto facilmente acessível à observação (tal como um cavalo ou um cão), mas conhecido dele somente de histórias e livros de figuras. Observarei apenas, que essa fobia acha-se em completa harmonia com a característica principal apresentada pela neurose de que o atual sonhador padeceu mais tarde na vida. Seu medo do pai era o motivo mais forte para ele cair doente e sua atitude ambivalente em relação a todo representante paterno foi o aspecto dominante de sua vida, assim como de seu comportamento durante o tratamento.

‘Se, no caso de meu paciente, o lobo foi simplesmente um primeiro representante paterno, surge a questão de saber se o conteúdo oculto nos contos de fadas do lobo que comeu os cabritinhos e de “Chapeuzinho Vermelho” não pode ser simplesmente um medo infantil do pai. Além disso, o pai de meu paciente tinha a característica, apresentada por tantas pessoas em relação aos filhos, de permitir-se “ameaças afetuosas”; e é possível que, durante os primeiros anos do paciente, o pai (embora se tornasse severo mais tarde) pudesse, mais de uma vez enquanto acariciava o menininho ou com ele brincava, tê-lo ameaçando por brincadeira “de engoli-lo”. Uma de minhas pacientes contou-me que seus dois filhos nunca puderam chegar a gostar do avô, porque, no decurso de seus ruidosos e afetuosos brinquedos, com eles, costumava assustá-los dizendo que lhes cortaria as barrigas.’

Pra encurtar a história, ao estudar as associações do "Homem dos lobos" durante a sua terapia, Freud chegou à conclusão de que o sonho refletia uma "cena primária" testemunhado pelo paciente, de seus pais tendo relações sexuais.


Adaptação dos textos ‘A Ocorrência, em Sonhos, de Material Oriundo de Contos de Fadas’ (1913) e “História de uma neurose infantil” (1914), de Sigmund Freud.

Um comentário:

  1. Adorei. O vaso sabe. Mas saber e seu unico aspecto.
    sascove.lucihano775@hotmail.com

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