
Ilustração de J. Guillin: Reinações de Narizinho, 1930.

A narrativa, carregada de pequenas epifanias e mergulhada no estilo intimista característico da autora, gira em torno do desejo, por parte da narradora, de ler o livro As Reinações de Narizinho, e da promessa, por parte de uma colega, de emprestar a obra a ela. A colega não valorizava a leitura, muito menos o privilégio de possuir os mais diversos títulos, e inconscientemente se sentia inferior às outras, sobretudo à “menina devoradora de livros.” Certo dia, a filha do livreiro informou à narradora que podia emprestar-lhe o referido livro, mas que fosse buscá-lo em casa.
A narradora passou a sonhar com o livro. Mal sabia a ingênua menina que a colega queria vingar-se: todos os dias ela passava na casa e o livro não lhe era entregue, sob a alegação de que fora emprestado a outra pessoa. Esse suplício durou muito tempo, até que a mãe da colega cruel interveio na conversa das duas e percebeu a atitude da filha; então, emprestou o livro à sonhadora por tanto tempo quanto desejasse. Neste momento o leitor do conto se surpreende com a atitude da narradora: “Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava umas falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.” (LISPECTOR, 1998, p. 06).
A felicidade clandestina da menina, expressão que intitula o texto e o livro, refere-se ao fato da narradora fazer questão de “esquecer” que estava com o livro para depois ter a “surpresa” de achá-lo. Trata-se da maneira que ela encontrou de deliciar-se lentamente com a posse do livro, além de alastrar, desta maneira, o prazer da espera da “degustação” da leitura. Ao final do conto Lispector sintetiza a paixão da menina pelos livros, e por aquele livro em especial na seguinte expressão: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.” (LISPECTOR, 1998, p. 06).

Fragmento do texto de Fabiano Tadeu Grazioli, mestre em Estudos Literários e diretor do Teatro de Gaiola.
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