
Jeremias, 36:2
Era uma vez, no meu tempo do era proibido, em que duas coisas me eram expressamente interditadas. A televisão é a primeira, a segunda era todo livro que não fosse a Bíblia. Nesse caminho do dois posso apontar também dois fatores que preponderavam nessas duas proibições. O primeiro era a Fé da minha mãe e o segundo, não menos relevante, era a nossa situação precária de camponeses nômades.


Quando aquele pitoco de gente, magricela e orelhudinho, pronunciava a última palavra do salmo ou da história era uma comoção geral. As senhoras presentes choravam e gritavam “Aleluia!”. “É um anjo!”, exclamavam e repetiam para os ouvidos orgulhosos de dona Daluz e sua filha Serdilete, a minha mãe.
O entusiasmo para continuar com a obra do instrumentinho do Senhor só aumentava. Lembro-me que não havia censura de qual história da Bíblia eu poderia decorar, já que todas eram de inspiração de Deus mesmo! Era assim que a minha caminhada bíblica ia do Éden à Ilha de Patmos. Peregrinação que me fez passar por Abraão, Josué, Moisés e o seu cajado mágico, Davi e o gigante Golias, Elias e sua capa mágica, o temente rei Josias que foi coroado com oito anos, o paciente Jó, o sábio rei Salomão e inúmeros outros. Passei pelo caminho do Gólgota várias vezes e fiz o caminho de Damasco diversas outras.
Mas entre os meus maiores fascínios estavam as mulheres bíblicas. E começava lá com a Eva, esse pedaço da costela de Adão que os levou à expulsão do Paraíso. Depois posso recomeçar a enumerar pela rainha vilã Jezebel, a sedutora Cleópatra, a extravagante rainha de Sabá, a ardilosa Dalila, a ambiciosa Salomé, a fiel Maria Madalena e dentre tantas outras a mítica, e para mim a sempre mais fascinante, mulher que foge do dragão. Esta última é puro símbolo, nem nome ela tem. Está, portanto, muito distante da densidade chã de uma Dalila ou Salomé. Coisa que sempre me faz perguntar o que nela me impressiona tanto. Por isso terei que contar aqui a história dela para ver se alguém se habilita a me ajudar na investigação do que seria tão impressionante nessa mulher:

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça.
E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz.
E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas.
E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho.
E deu à luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono.
E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias.
E houve batalhas no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhava o dragão e seus anjos.
Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. [...]

E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente.
E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar.
E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a sua boca e tragou o rio que o dragão lançara da sua boca.
E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao resto da sua semente, [...].
(Apocalipse 12. Da tradução de João Ferreira de Almeida.)
O que dizer dessa fugitiva toda vestida de sol, coroada com estrelas e com a lua debaixo dos pés?!
O fato é que a vovó Daluz ficou para trás, se tornando apenas uma lembrança cercada pela imaginação na memória de um rapagão, hoje com 29 anos, que aos cinco anos teve que deixar os avós para acompanhar o pai nômade.
Movido pela promessa de riqueza, meu pai resolveu sair do sul e migrar para o norte. Foi em 1984 que, junto a mais outra família, atravessamos o país escondidos na sufocante carroceria de um caminhão. E foi lá, no território amazônico, morando na floresta e em situações cada vez mais precárias, que as minhas histórias bíblicas mantidas acesas pela minha mãe passaram a conviver com as aventuras do Pedro Malasarte e histórias de assombração contadas por meu pai ao pé da lamparina. Mas isso já é outra história!
Josias Padilha, 29 anos, Ator e Contador de Histórias
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