13 de jun de 2009

As maçãs


Existe uma famosa compilação de contos de fada da Índia cuja primeira história começa assim: Todos os dias aparece na sala de audiência do Rei um mágico que lhe entrega uma linda maçã. Distraído, o Rei remete a seu ajudante de ordens que, por sua vez, manda jogá-la num quarto distante. Assim se faz durante um ano inteiro, até que um dia o macaco da Rainha, que se tinha soltado, pula dentro da sala de audiências, pega a maçã e a morde. Quando faz isso, todos vêem com admiração que esta maçã contém em seu interior uma pedra preciosa muito bela. Aí o Rei, naturalmente, investiga às pressas o lugar onde estavam as outras maçãs. De fato, encontram-se de baixo da polpa apodrecida das frutas desprezadas, um monte de pedras preciosas de grande valor, cujo número corresponde exatamente aos dias do ano.

Assim acontece conosco quanto aos contos de fadas. Após a infância jogamo-los fora como se não tivessem valor. “É somente um conto de fada”, dizemos, e os deixamos apodrecer num quarto distante. Até que quem sabe, passamos a viver uma situação – seja uma séria doença da alam, seja uma crise na vida – em razão da qual, por necessidade, abrimos esse quarto.

A força criadora plástica e a sabedoria profunda dos contos de fadas nunca mais me deixaram desde que pela primeira vez estive em contato com a sua plenitude, quando menino ainda, na casa da minha avó. Os contos de fadas se reavivaram quando comecei a contá-los ao meu primeiro filho, e finalmente reencontrei todos esses amados da minha infância no inconsciente de meus pacientes quando fui ser psicanalista. Freqüentemente, os contos estavam esquecidos, há tempo, na consciência dos pacientes, mas lá no inconsciente estavam vivos. Surgiram nos seus sonhos e disseram a essas pessoas muitas coisas estranhas, às quais nunca haviam prestado atenção e ao largo das quais tinham passado, mas que vieram evidenciar-se agora, de repente, como as maiores preciosidades da sua alma.


Trecho extraído do livro “Contos de fadas vividos” de Hans Dieckmann. São Paulo: Paulinas, 1986.

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