7 de dez de 2009

Doralice


oralice é um ser inigualável: bruxa e fada numa só. Não é do país das maravilhas, mas adora Alice, seu modelo de menina e moça. Nasceu assim, desse jeito indefinido, nem lá nem cá, imprevisível. Por isso mesmo se mantinha escondida em si mesma a bela junto com a fera, ninguém sabia, nem seus país e irmãos. Sua família de fadas e fados, todos portugueses de Trás os Montes, ou detrás deles ou trazendo-os para ficar bem alto, longe da planície. Ela descobriu isto no dia que foi fazer a 1ª comunhão e a hóstia fugiu-lhe da boca e foi parar no chão, ela tentou abocanhá-la novamente, mas não teve jeito. O jeito foi transformá-la numa aranha peçonhenta, que ela saboreou-a com prazer e gosto. Pensou: melhor ficar quieta e não contar para ninguém, assim vou sendo uma e outra quanto melhor eu me sentir. E foi vivendo assim vestida de fada e sendo bruxa também. Às vezes se via fada, outras bruxa, fazia coisas do bem quando o sangue lhe corria calmo nas veias e fazia coisas do mal quando o coração quase lhe saía pela boca. Até o dia em que encontrou Ali Cê, fado descendente das Arábias, aliás um encantamento súbito, inescapável e definitivo das arábias! Quase saído de uma lâmpada mágica. Ele um gajo divino maravilhoso, ela a fina flor da flor mais fina das redondezas. Não teve jeito, seu coração batia-lhe no peito e onde mais fosse chamando sua atenção para o inevitável: seu coração queria ir ter ao coração dele de uma vez por todas. De uma vez por todas, portanto, o encantamento desceu-lhe às faces, ao coração, ao corpo e ela teve de correr aos braços de Ali Cê e neles ficar desfrutando o enlace. Ele nem se fala, ali Ali Cê se, se entregou. Encontro fadado às fadas e fados somente. Encontro marcado por coisas de contos de fadas. Mas a bruxa dentro dela disse: Alto lá donzela e a madame aqui como fica? E fica? Doralice repentinamente se deu conta que sua conta a pagar ao romance seria enorme se ficasse fada e bruxa, ou melhor bruxa e fada. Não podia se fazer de uma e outra na mesma freqüência que fazia. O que fazer? Não podia revelar o segredo a ninguém, nem mesmo a Leo, seu camaleão de estimação. Pensou, pensou, pensou. Foi para lá, veio para cá, parou, sentou-se, levantou-se e voltou a fazer tudo de novo. Horas e horas, dias e dias, mesmo quando se via nos braços de seu encantado. Sua alma gêmea, no entanto, o seu espelho Lis, que sabia de tudo e nunca disse a ninguém tampouco a ela, esperou chegar-lhe à frente e revelou-lhe o segredo dela que era também segredo de Doralice: eu sei de tudo e sei o que você deve fazer. Decida ser fada de vez! Somente cabe a você fazer isto, para tanto você deve ter uma ajudazinha de uma dose da infusão fantástica – lascas de brotoejas, cataporas, verrugas e uma boa dose de cuspe. Ela lhe mantém fada, mas deixa a bruxa amansada em você. Assim, quando você precisar, traga a bruxa de volta, use e abuse dela e volte a ser novamente a fada encantada e cheia de amor para dar! Assim fez Doralice para viver feliz para todo o sempre ao lado de seu amado! O que não é muito diferente do que a maioria das humanas deve fazer para deixarem de freqüentar divãs de analistas, terreiros, cartomantes, rezadeiras e novenas!

José Carlos Peliano, 61 anos, escritor.

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