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28 de set. de 2009

Três Histórias



o final da vida Charles Dickens confessou que Chapeuzinho Vermelho foi seu primeiro amor: “Eu sentia que se eu tivesse me casado com Chapeuzinho Vermelho, teria encontrado a felicidade”.


Angela Carter relembra seu primeiro encontro com a Chapeuzinho Vermelho de Charles Perrault: “Minha avó costumava dizer: ‘levante a trava e então entre e para concluir, quando o lobo pulava em cima da Chapeuzinho Vermelho, minha avó fingia que iria me comer, o que me fazia vibrar de prazer.” A avó de Carter vira o jogo da versão popular do conto em que a neta come a carne e bebe o sangue da avó. O depoimento de Carter sobre sua experiência com Chapeuzinho Vermelho mostra que o conto se trata da rivalidade entre gerações além de revelar como o sentido da história se faz quando ela é contada. A cena em que uma história é lida ou contada pode afetar a sua audiência de forma mais poderosa do que suas morais e verdades atemporais incorporadas no texto por Perrault, Grimm e outros.


A experiência infantil de Luciano Pavarotti foi muito diferente da de Carter:

Na minha casa, quando eu era um menino, era o meu avô que contava as histórias. Ele era maravilhoso. Ele contava histórias violentas e misteriosas que me encantavam. Minha história favorita era Chapeuzinho Vermelho. Eu tinha os mesmos medos que ela. Eu não queria morrer, embora não soubesse ao certo o que fosse a morte. Eu esperava ansiosamente pela chegada do caçador.

A morte de Chapeuzinho Vermelho não é engraçada ou erótica. Ao contrário, é um espaço de violência, drama e mistério. A mistura de medo e encantamento captura o fascínio que atrai as crianças. Pavarotti, como Dickens, é apaixonado pela Chapeuzinho Vermelho, mas o que o atrai é a capacidade de Chapeuzinho de sobreviver à morte e ressurgir da barriga do lobo, desafiando a morte.


The Classic Fairy Tales. Edited by Maria Tatar. New York: A Norton critical edition, 1999.

25 de set. de 2009

Out of old tales



et us agree on this: that we live our lives through texts. These may be read, or chanted, or experienced eletronically, or come to us, like the murmurings of our mothers, telling us of what conventions demand. Whatever their form or medium, these stories are what have formed us all, they are what we must to make our new fictions.
...Out of old tales, we must make new lives.


Carolyn Heilbrun in. The Classic Fairy Tales. Edited by Maria Tatar. New York: A Norton critical edition, 1999.

16 de set. de 2009

O dever das histórias



ara que uma história realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam."

Bruno Bettelheim, “Psicanálise dos Contos de Fadas”.

13 de set. de 2009

Livros, desejo e paixão em Clarice Lispector


Ilustração de J. Guillin: Reinações de Narizinho, 1930.

elicidade Clandestina (o livro) foi publicado pela primeira vez em 1971, e reúne 25 contos que tematizam a adolescência, a infância, e a família, sem deixar, em momento algum de se referir as angústias da alma, tal como é próprio da autora. Felicidade Clandestina (o conto) é o primeiro texto da coletânea. Nele Lispector desenvolve a história de uma menina, protagonista e narradora, que vive uma paixão intensa pelos livros, em especial, pelos de Monteiro Lobato.

A narrativa, carregada de pequenas epifanias e mergulhada no estilo intimista característico da autora, gira em torno do desejo, por parte da narradora, de ler o livro As Reinações de Narizinho, e da promessa, por parte de uma colega, de emprestar a obra a ela. A colega não valorizava a leitura, muito menos o privilégio de possuir os mais diversos títulos, e inconscientemente se sentia inferior às outras, sobretudo à “menina devoradora de livros.” Certo dia, a filha do livreiro informou à narradora que podia emprestar-lhe o referido livro, mas que fosse buscá-lo em casa.

A narradora passou a sonhar com o livro. Mal sabia a ingênua menina que a colega queria vingar-se: todos os dias ela passava na casa e o livro não lhe era entregue, sob a alegação de que fora emprestado a outra pessoa. Esse suplício durou muito tempo, até que a mãe da colega cruel interveio na conversa das duas e percebeu a atitude da filha; então, emprestou o livro à sonhadora por tanto tempo quanto desejasse. Neste momento o leitor do conto se surpreende com a atitude da narradora: “Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava umas falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.” (LISPECTOR, 1998, p. 06).

A felicidade clandestina da menina, expressão que intitula o texto e o livro, refere-se ao fato da narradora fazer questão de “esquecer” que estava com o livro para depois ter a “surpresa” de achá-lo. Trata-se da maneira que ela encontrou de deliciar-se lentamente com a posse do livro, além de alastrar, desta maneira, o prazer da espera da “degustação” da leitura. Ao final do conto Lispector sintetiza a paixão da menina pelos livros, e por aquele livro em especial na seguinte expressão: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.” (LISPECTOR, 1998, p. 06).



Fragmento do texto de Fabiano Tadeu Grazioli, mestre em Estudos Literários e diretor do Teatro de Gaiola.

Acesse o texto completo

9 de set. de 2009

Um mundo sem fadas


“ra uma vez uma menina tímida que passou sua infância ouvindo contos de fadas. Cresci sonhando cor-de-rosa e continuo reverenciando estas histórias tão anacrônicas de princesas lindas e indefesas. Junto com os sonhos, esta mesma tia incutiu em mim uma fervorosa paixão pela narrativa, pelo texto, pelas histórias. Virei jornalista; não deixo, pois, de ser uma contadora de histórias. No livro estão reunidas reflexões sobre meu papel de mulher num mundo sem fadas ou príncipes encantados.”

Kátia Canton, no livro “E o príncipe dançou...” O conto de fadas da Tradição Oral à Dança Contemporânea.
São Paulo: Editora Ática, 1994.

Repertório emocional



sse processo foi narrado no livro de Raimund Hoghes que permaneceu com a companhia de Pina Basch durante os ensaios da peça. Os contos de fadas foram usados como fontes na criação de cenas da peça Barba Azul, empregados para estimular as lembranças e o repertório emocional dos intérpretes. As diversas frases, brotadas das memórias dos intérpretes – de diversos países e formações culturais – recordam vários contos. Apesar disso, todos se referem a clichês que homogeneizaram e mitificaram as histórias:

“Eu sou Cinderela e o sapato serve em mim ... Agora o Imperador tem um rouxinol mecânico mas vou esperar até que ele quebre e cantarei para ele... Sou a Chapeuzinho Vermelho e mal posso esperar para encontrar o lobo na casa da vovó... Já joguei 11 sapatos contra a parede, mas não tinha nenhum príncipe dentro... Sou a bela adormecida e estou dormindo há 99 anos. Espero que algo aconteça logo! Sou Pinóquio e comecei a viver.”



Kátia Canton, no livro “E o príncipe dançou...” O conto de fadas da Tradição Oral à Dança Contemporânea.
São Paulo: Editora Ática, 1994.

23 de jun. de 2009

Contos, retalhos e tijolos

s crianças têm um particular prazer em visitar oficinas onde se trabalha visivelmente com coisas. Elas se sentem atraídas irresistivelmente pelos detritos, onde quer que eles surjam – na construção de casas, na jardinagem, na carpintaria, na confecção de roupas. Nesses detritos, elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas assume para elas, e só para elas. Com tais detritos, não imitam o mundo dos adultos, mas colocam os restos e resíduos em uma relação nova e original. Assim, as próprias crianças constroem seu mundo de coisas, um microcosmo no macrocosmos.

O conto de fadas é uma dessas criações compostas de detritos – talvez a mais poderosa na vida espiritual da humanidade, surgida no processo de produção e decadência da saga. A criança lida com os elementos dos contos de fadas de modo tão soberano e imparcial como com retalhos e tijolos. Constrói seu mundo com esses contos, ou pelo menos os utiliza para ligar seus elementos. O mesmo ocorre com a canção e com a fábula.


Walter Benjamin (1892 - 1940), crítico literário, tradutor e filósofo.

Trecho extraído do livro “Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.” São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

22 de jun. de 2009

Sobre as ilustrações


As pessoas têm me perguntado bastante sobre as ilustrações desse blog. Fui eu que fiz? Encontrei na internet?

Um pouco de cada. Respondi uma vez que as ilustrações são colagens que faço sobre imagens que pesquiso bastante e, em geral, capturo na rede. Tem algumas que mudo muita coisa, outras faço uma leve interferência no original. Quando a imagem aparece tal e qual eu encontrei, eu costumo avisar. Agora, como é natural numa colagem, dificilmente se precebe quem fez o que. Independente disso o principal é o sentido da ilustração. Ou seja: uma imagem de outro contexto, com outro sentido, se desloca e passa a participar de um novo jogo de idéias em relação com o texto.

Depois disso achei num livro "por acaso" esse texto oportuno.

Novas formas surgem ao longo do processo criador, muitas vezes, a partir da metamorfose de formas já existentes, inclusive formas do próprio artista. O “novo” é uma inflexão de uma forma anterior; a novidade é, portanto, sempre uma variação do passado. Esse aspecto, que envolve o ato criador, abre espaço para se observar questões relativas à intertextualidade.

As combinações intertextuais dão origem a “textos” que são tecidos de citações, saídas dos mil focos da cultura que, para Barthes, implica a morte do autor. A transformação se dá, portanto, por meio de re-significações e deformações de formas apreendidas. Assim, combinações insólitas acontecem na complexidade da ação criadora que, segundo a perspectiva aqui proposta, abre espaço para as autorias novas.

Essas novas formas estão, certamente, relacionadas com os diferentes processos de apreensão do mundo. Encontramos, assim, a unicidade de cada obra e a singularidade de cada artista na natureza das combinações e no modo como estas são concretizadas.


Cecília Almeida Salles. Gesto Inacabado. São Paulo: Annablume, 2007.

19 de jun. de 2009

Ritos primitivos

ueria relatar uma história bastante impressionante e que leva a pensar. Ela retrata o caso de uma menina de dois anos e meio, na sua primeira fase de teimosia, que, quando ela e a mãe faziam compras, recebeu de presente uma ilustração de Chapeuzinho Vermelho e o lobo. Na imagem era visível que o lobo, vestido com a touca e a camisola da avó, esperava Chapeuzinho Vermelho. A menina, que conhecia o conto de fada somente até o encontro do lobo com Chapeuzinho Vermelho no bosque, agora queria saber porque o lobo estava na cama. Ela ouviu atentamente o conhecido diálogo entre o lobo e Chapeuzinho Vermelho. O diálogo precisou ser repetido umas dozes vezes, pelo menos.

Nas noites seguintes a criança dormia muito inquieta e acordava com pavor do lobo mau. Não houve melhor meio para ajudá-la do que procurarem a figura, cortarem o lobo fora dela e o queimarem. Assim a criança ficou mais calma durante a noite, porém durante o dia ela perguntava muitas vezes, interessada, pelo animal. Cada vez era necessário dizer que o lobo tinha sido queimado, que não havia mais lobo nenhum, a não ser bem longe na Rússia.

Umas semanas apos estes fatos o pai da menina queria levá-la a um passeio até o bosque vizinho. A mãe, preocupada, dizia-lhe enquanto a vestia para sair: “Agora você vai com papai ao bosque para ver os coelhinhos engraçadinhos!” Radiante, a menina saiu. Mas na escada da casa encontraram um vizinho idoso que perguntou à menina aonde ela ia. Para surpresa de todos a menina respondeu, bem decidida, sem hesitar: “Ao bosque, para ver o lobo da Ússia”!

É interessante notar como mesmo essa criança sensível procura o encontro com o lobo poderoso e temível, e isso por iniciativa própria. Parece que ela dispõe de forças que a estimulam a buscar esse monstro devorador de crianças e opor-se a ele.

Observamos que essa criança espontaneamente procura um acontecimento que encontramos, em forma cristalizada, nos ritos de iniciação das culturas primitivas. Aparentemente, nesses rituais parte-se do princípio que o amadurecimento só advém por meio do sofrimento, dor e tormento. Um grau de maturidade ulterior só pode ser alcançado apos dissolução do grau anterior. Durante as solenidades introdutórias à puberdade, nas culturas primitivas, ainda se evocam de “fato” no iniciando, e dispõe de uma catálogo para nós incrível, de crueldades. Nas formas mais altas dessas solenidades de iniciação que, como é sabido, podem ir até os processos espirituais mais elevados, eles só se apresentam sob forma simbólica. Suas imagens mostram, porém, inteiramente, o mesmo caráter que conhecemos pelos contos de fadas e ritos primitivos.


Trecho extraído do livro “Contos de fadas vividos” de Hans Dieckmann. São Paulo: Paulinas, 1986.

Chapeuzinho Amarelo

Essa é uma estória que eu adoro escrita pelo Chico Buarque. Ela também fala sobre como os contos de fadas transformam a vida das pessoas e como as pessoas transformam as estórias, se transformando.

Chapeuzinho Amarelo


ra a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.

Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra.
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo.

Era a Chapeuzinho Amarelo...
"E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.

Mesmo assim a Chapeuzinho tinha cada vez mais medo do medo do medo do
medo de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.

E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele.
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós, .
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz...
E um chapéu de sobremesa.

Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.

O lobo ficou chateado de ver aquela menina olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
-E feito um lobo sem pêlo.
Um lobo pelado.

O lobo ficou chateado.

Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada, com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO umas vinte e cinco vezes,
Que era pro medo ir voltando e a menininha saber com quem não estava falando:
LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO

Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!"
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.

Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo, porque sempre preferiu de chocolate,
Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
Com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
Com a sobrinha da madrinha
E o neto do sapateiro.
Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.

E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:
O raio virou orrái; barata é tabará; a bruxa virou xabru; e o diabo é bodiá.

FIM

(Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo: o Gãodra, a Jacoru, o Barão-tu, o Pão Bichôpa... E todos os tronsmons. )

A vida real dos contos de fadas

uando comecei a minha pesquisa para esse blog, investiguei no Orkut as comunidades existentes sobre contos de fadas. A grande maioria delas se dividia no seguinte dilema: A vida é ou não é um conto de fadas? Existem vários exemplos tendendo para os dois lados.

Recebi recentemente algumas imagens que brincam com essa idéia de maneira crítica e divertida. Acredito que são também "Dizcontos de Fadas" por fazerem esse cruzamento entre a ficção e a realidade, revelando uma apropriação subjetiva desses contos. Estou divulgando as imagens exatamente como as recebi. Não sei o autor.

Tente descobrir quem são as "princesas".











Fotos: Dina Goldstein
Fonte: Revista Bravo!/Ago 09.


15 de jun. de 2009

Contos de fadas vividos

uando se pergunta a um grande número de pessoas, sem preparo analítico: “Qual foi, na sua infância, o seu conto de fadas preferido?”, poucas poderão dar resposta verdadeira e honesta. Na maior parte essas histórias estão submersas no inconsciente, e é por isso que se coloca questão – por meio de qual estratégia podem elas ser trazidas à consciência? Outra pergunta é, quais os meios para que esses contos possam ser usados na terapia, a fim de promover o processo de cura e de individuação durante o tratamento?
Não só os motivos oníricos de contos e fadas, mas também certos contos de fada, em si mesmos, podem apresentar relações profundas com o destino, o mundo interior, certas formas de experiência, modos de comportamento, doenças e fraquezas e ainda como méritos e forças do homem. Pode ser o caso de um conto de fada um uma história parecida com conto de fada, pela qual uma pessoa foi profundamente fascinada em sua infância, por que a amava muito ou ficou por ela aterrorizada. Mais tarde esse conto foi esquecido ou reprimido e submergiu no inconsciente, onde, porém, conservou vitalidade notável e desenvolveu efeitos que o adulto nunca tinha percebido como tendo qualquer conexão com o conto.

Trecho extraído do livro “Contos de fadas vividos” de Hans Dieckmann. São Paulo: Paulinas, 1986.

13 de jun. de 2009

As maçãs


Existe uma famosa compilação de contos de fada da Índia cuja primeira história começa assim: Todos os dias aparece na sala de audiência do Rei um mágico que lhe entrega uma linda maçã. Distraído, o Rei remete a seu ajudante de ordens que, por sua vez, manda jogá-la num quarto distante. Assim se faz durante um ano inteiro, até que um dia o macaco da Rainha, que se tinha soltado, pula dentro da sala de audiências, pega a maçã e a morde. Quando faz isso, todos vêem com admiração que esta maçã contém em seu interior uma pedra preciosa muito bela. Aí o Rei, naturalmente, investiga às pressas o lugar onde estavam as outras maçãs. De fato, encontram-se de baixo da polpa apodrecida das frutas desprezadas, um monte de pedras preciosas de grande valor, cujo número corresponde exatamente aos dias do ano.

Assim acontece conosco quanto aos contos de fadas. Após a infância jogamo-los fora como se não tivessem valor. “É somente um conto de fada”, dizemos, e os deixamos apodrecer num quarto distante. Até que quem sabe, passamos a viver uma situação – seja uma séria doença da alam, seja uma crise na vida – em razão da qual, por necessidade, abrimos esse quarto.

A força criadora plástica e a sabedoria profunda dos contos de fadas nunca mais me deixaram desde que pela primeira vez estive em contato com a sua plenitude, quando menino ainda, na casa da minha avó. Os contos de fadas se reavivaram quando comecei a contá-los ao meu primeiro filho, e finalmente reencontrei todos esses amados da minha infância no inconsciente de meus pacientes quando fui ser psicanalista. Freqüentemente, os contos estavam esquecidos, há tempo, na consciência dos pacientes, mas lá no inconsciente estavam vivos. Surgiram nos seus sonhos e disseram a essas pessoas muitas coisas estranhas, às quais nunca haviam prestado atenção e ao largo das quais tinham passado, mas que vieram evidenciar-se agora, de repente, como as maiores preciosidades da sua alma.


Trecho extraído do livro “Contos de fadas vividos” de Hans Dieckmann. São Paulo: Paulinas, 1986.

10 de jun. de 2009

Qual é o seu conto de fadas favorito? (parte 1)


ual é o seu conto de fadas favorito? – É uma pergunta que gosto de fazer a amigos e conhecidos.

A maioria das mulheres responde “Cinderela” sem pensar, enquanto homens parece confusos, fazem uma pausa e respondem:
- Não consigo me lembrar de nenhum. Será que “Peter Pan” vale?

Depois de alguns minutos de reflexão, contudo, a maioria das pessoas pesca algumas imagens que vêm à superfície, carregadas de significado, mesmo que o esboço do enredo tiver sido esquecido. A escolha (que, afinal, pode acabar não sendo “Cinderela”) oferece uma visão de vislumbre da alma do interlocutor, ainda que sua relevância permaneça oculta. Tantas imagens enchem os contos de fadas clássicos que eles estão destinados a conter uma dúzia de diferentes matizes para uma dúzia de leitores, o que torna a interpretação de contos de fadas para uma pessoa algo tão tentador e arriscado quanto desenredar o sonho dela.



Trecho extraído do livro "Fiando Palha, Tecendo Ouro" de Joan Gould. São Paulo: Rocco, 2007.

Qual é o seu conto de fadas favorito? (parte 2)


ual é o seu conto de fadas favorito? – É uma pergunta que gosto de fazer a amigos e conhecidos.

- "Rumpelstiltskin” – disse-me uma mulher, uma resposta incomum. – Éramos pobres, de modo que eu não tinha muitos brinquedos quando era pequena, e pensava como seria maravilhoso pegar um fardo de palha e entrelaçá-lo até virar ouro de modo que pudesse comprar todos os brinquedos que queria.

- "Rumpelstiltskin” – disse-me outra mulher, mais jovem. – Eu me via como a heroína que era ameaçada com a morte se não fiasse a palha de modo que se transformasse em ouro, e assim prometeu ao anão que se ele tecesse a palha para ela iria lhe dar seu primogênito. Esse é meu medo secreto, um sentimento de que meu bebê não é realmente meu. Eu não o fiz, posso não merecê-lo, ele pode não ficar comigo, por não ser meu. Algum dia precisarei pagar um resgate para salvá-lo do destino.

- O anão, não a Rainha, é o pivô da história – observou um psiquiatra. – Seu sentimento de que seu nome, que é a sua identidade, tem de ser mantido em segredo, caso contrario ele será revelado ao mundo como o corcunda, a criatura ridícula, murcha e enrugada que ele sabe ser. E se isso acontecer, ele desaparecerá.


Trecho extraído do livro "Fiando Palha, Tecendo Ouro" de Joan Gould. São Paulo: Rocco, 2007.

30 de mai. de 2009

Num contínuo e interminável “Conto de fadas”...


ara começar, peço licença de contar um pouco o que significou, para a criança que fui, ainda antes de chegar ao Brasil, a constante convivência com a palavra, a literatura, as histórias maravilhosas, encantadas, fantásticas, incríveis, mas sempre “verdadeiras”! Histórias em prosa e em versos, de várias fontes, origens e idiomas, num contínuo e interminável “Conto de fadas”. Histórias que povoavam a minha cabeça, o meu coração, manha imaginação, minhas emoções e, sim, levavam ao pensar! A ponto de contribuírem, sem dúvida, ao desenvolvimento da minha – e não direi precoce – weltanschaung juvenil, ao alimentarem o meu insaciável apetite por mais e mais “alimentos”.

E por que falo aqui da minha experiência pessoal? Por que ela não é pessoal, mas sim, como entendo, geral e coletiva, atingindo todas as crianças que tenham a sorte de ser expostas ao conto maravilhoso, ao conto de fadas – e a todas as outras.


Tatiana Belinky , 90 anos, escritora.

Fragmento colhido do livro O Conto De Fadas (2008) de NELLY NOVAES COELHO. Edições Paulinas, 2008.