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17 de mai. de 2009

Angústias


ozinho em uma noite fria no quarto de um prédio de periferia uma pesada sensção de vazio dominava meus sentimentos. Um copo de vinho barato e um computador de segunda mão ajudava a passar o tempo. Pensamentos vagavam pela cabeça sem fixarem-se em nada de interessante e o olhar passeava pela tela sem encontrar qualquer coisa que despertasse a atenção. Eis que, de repente, uma proposta inovadora se destacou em uma infinidade de coisas desinteresssantes: buscar no passado histórias infantis que tivessem, de algum modo, marcado sua vida ou fossem alvo de boas recordações. Por que nâo? Se o futuro nada prometia, por que não voltar ao passado para buscar alguma inspiração? Já havia passado muito tempo sem que tivesse me preocupado com isso e a memória não ajudava a recuperar algo que fosse interessante. Passado alguns minutos duas histórias muito conhecidas e repetidas pipocavam em minha mente - os 3 porquinhos e a cigarrra e a formiga. Por que, raios, só me contavam histórias com subliminares mensagens de ensinamentos morais: responsabilidade, trabalho e prudência. Talvez por isso tenha me rebelado e me tornado um cantor de tango. Pouco trabalho, muita festa e alegria. Afinal sempre achei que a cigarra era mais interessante que a formiga e que o lobo era um personagem menos perigoso que os porquinhos ( a gripe suina está aí para confirmar). Mas, para que fui seguir o que a proposta me recomendava? A lembrança me deixou ainda mais deprimido. Agora que os amantes da boa música estão desaparecendo não há mais emprego para cantores de tango. Sem dinheiro e sem perspectiva, o retorno ao passado aumentou o vazio. Resta ao menos encher o copo de vinho e me esquecer dessas histórias e de suas lições.

Ramón Vargas, cantor de tango, 61 anos, aposentado

10 de mai. de 2009

De um porquinho...


ra uma vez, no tempo em que os animais ainda falavam, três porquinhos que viviam felizes na casa da sua mãe. A mãe fazia tudo pelos filhos, sendo que dois deles não ajudavam a mãe em nada. Já o terceiro sofria muito de vê-la trabalhando sem parar.

Meu pai contava esse história incessantemente, hoje sei bem o que ele queria com isso: queria nos educar para colaborarmos mais com a nossa mãe. Somos três homens em casa e eu sempre senti que minha mãe fazia tudo por nós enquanto meus irmãos eram uns folgados. Lembro do meu pai frisando bem que dois dos porquinhos eram preguiçosos e o terceiro era muito apegado à mãe, que fazia tudo pelos filhos, sem nenhum reconhecimento.

Cresci assim, olhando minha mãe, prendada e dedicada. Quando meu pai morreu, meus dois irmãos encostaram-se à aposentadoria que ele deixou para ela. Isso me revoltava e me fazia dedicar mais a ela. Quando meu irmão começou a se envolver com coisas mais pesadas eu tinha que ajudar a cuidar dele também e às vezes pensava: Porque a minha mãe não leu ela mesma os três porquinhos!? Teria nos mandado morar sozinhos para aprendermos a ter responsabilidade na vida e teria sido outra a nossa história.

Ainda moro com minha mãe, mas não me esqueço que tenho a meta de construir para mim uma casa mais resistente como a casa de tijolo da história. Acho que até agora construí uma casinha de madeira. Não que eu seja preguiçoso como os porquinhos, mas cuidando da minha mãe sozinho acabo caindo uma armadilha! Será que é complexo de Édipo? Ahahahah! Não acredito!

O que mais me influenciou nesse conto foi ver que o quanto ele pode de fato representar a vida real das pessoas. Ouvi-lo quando criança na linguagem infantil nos oferece possibilidades de fazer escolhas e decidir os caminhos a seguir. Com certeza não escolhi construir meu alicerce de palha, mas ainda não fiz minha fundação consistente. Sei bem onde quero chegar: na minha linda casinha de tijolos!


Samir Isaac, 30 Anos, cabelereiro.

7 de mai. de 2009

As tias da gente


uero falar da importância das tias na imaginação infantil. Ao menos das tias de antigamente, que não precisavam (ou não podiam) trabalhar fora. Viviam para nos alimentar – com comida e histórias. Eu tive três tias que me contavam histórias. Uma delas se alimentava na coleção “Tesouros da Juventude”, de modo que seu repertório era vaaasto. Eu gostava de ouvi-la porque ela contava sempre do mesmo jeito. Podiam ser mil vezes, ela não mudava uma vírgula, e mantinha o mesmo gosto e a mesma delicadeza no contar.

Lembro da fábula do macaco e do boneco de piche. Aquela em que a velha doceira, para não ter seus biscoitos roubados pelo macaco, resolve fazer um moleque de piche. O bicho se aproxima e pede um doce. Como o “menino” não responde, o macaco ameaça bater nele e, todas as vezes que faz isso, fica com uma parte do corpo grudada no boneco. No final da estória, a velha dava uma surra no animal, pra ele aprender a não roubar o ganha-pão dos outros. Na hora da surra a minha tia caprichava nos detalhes, eu ria demais da conta – crueldades infantis - e, invariavelmente, pedia pra ela repetir. Tenho certeza absoluta de que muito da minha paixão pela criação de estórias vem dessa experiência aconchegante com a minha tia contadeira.


Adélia Nicolete, 44 anos, dramaturga.

6 de mai. de 2009

As galinhas ruivas


mamãe (Vovó Lourdes) contava com prazer inédito a estória da galinha ruiva... Também adorava a estória dos três porquinhos e da cigarra e a formiga. Contos que estimulassem o trabalho eram com ela mesma que enfatizava a moral da estória toda vez que contava. “Quem não trabuca não manduca”.

Por essas e por outras não é à toa que hoje tem quatro filhas workaholics.

Anna Peliano, 61 anos, socióloga. (mamãe)

5 de mai. de 2009

Quem tem medo do lobo mau?


ma vez eu contei a estória dos três porquinhos para o meu sobrinho. Eu estava em Copacabana, na frente de uma floresta enorme e resolvi dizer para ele que o lobo morava lá naquela floresta. Eu fazia as casinhas dos porquinhos com uns descansos de copo, depois soprava e derrubava tudo, ele adorava. Só que à noite... à noite ele nem conseguiu dormir, de tanto pesadelo que teve com o lobo. Ainda assim, ele continuou me pedindopara contar essa estória. “De novo tia”. E eu dizia: “- Toc, toc, toc! – Quem é? – Sou eu, seu lobo! – O que é que você quer? – Quero te comer! – Não vou abrir! – Então eu vou soprar até a casa cair!”

Anna Peliano, 61 anos, socióloga.

3 de mai. de 2009

A Cigarra e a Formiga


uitos anos depois eu percebo finalmente como era amiga dos insetos e bichinhos pequeninos. Meu prediletos eram os tatu-bolinhas. Mas uma vez eu fiquei encucada com a estória da Cigarra e da Formiga, do La Fontaine. Estava revoltada com o desprezo da formiga pela cigarra, que eu achava a mais legal de todas. Queria até ser amiga íntima dela. Foi quando eu decidi ir até o quintal e catar uma cigarra entre tantas que cantavam insistentemente naquela época. Eu achava que esta, em especial, estava me chamando. Peguei então a cigarra, amarrei numa linha e pendurei ela num prego na parede do meu quarto. Ela ficava voando e gritando indignada, eu acho. Mas eu, ingênua, achava que ela também queria ser minha amiga. Até que subitamente meu padrasto jogou fora aquele “bicho nojento”. Eu fiquei desconsolada e comecei a espernear e a gritar como a cigarra.

Adriana Peliano, 35 anos, artista plástica.