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30 de out. de 2009

Histórias reais



u sempre me senti como Cheherazade, a moça esperta das mil e uma noites. Não porque sou esperta, mas porque de algum modo sempre soube que contar histórias me salvava de perder não a cabeça, como era o caso de Cheherazade, mas de perder a mim mesma. Quando era muito pequena e ainda não sabia ler, imaginava histórias para escapar do medo do escuro. Contava para mim mesma na minha cama de bebê crescido. Quando entrei na escola, imaginava enredos que me carregavam para além das crueldades infantis que me aterrorizavam tanto ou mais que os monstros noturnos. Quando cresci virei jornalista e passei a contar histórias reais para poder viver. Sempre soube que contar histórias me salvava da versão adulta do medo do escuro. Agora, que sou gente grande, contar histórias ordena o caos da vida, me dá sentido e identidade.

Eliane Brum, jornalista.

1 de ago. de 2009

Aladim e o Silvo maravilhoso...

sso aconteceu quando eu tinha 8 anos.
Foi assim...

Era noite e eu estava assistindo televisão. Comecei a divagar como seria bom ter um gênio numa lâmpada à minha disposição. Eu suspeitei então que ele talvez já existisse dentro da minha própria casa e resolvi abrir o armário da sala para investigar. Para disfarçar eu peguei uma lata de Silvo e assim poderia esfregar a prataria sem ninguém desconfiar. Esfregava tudo para ver se aparecia algum gênio. Fui me animando e já estava polindo toda a prataria. Foi quando as pessoas lá de casa acordaram com o barulho e me flagraram com toda aquela confusão. Logo eu que achei que estava tão bem disfarçado...


Anos depois eu tenho esse disco na minha coleção:

Luciano Padilha, 45 anos, médico.

A dança da morte

lá Adriana, conheci o seu blog e me encatei com o que vi.

Com 41 anos e ainda que bem velhinha para acreditar em contos de fadas, confesso: eu acredito. Acredito sobretudo que a literatura ilumina os caminhos obscuros da nossa chamada vida real.

Na UFPA desenvolvo um trabalho com literatura oral, vem daí o encanto pelos contos de fadas, lendas, fábulas, etc. Por isso lhe escrevo, para contar uma das histórias que a minha mãe contava a mim e meus irmão para dormir. Era mais ou menos assim:


MAIS UMA HISTÓRIA DE MARIA

Maria morava em uma pequena cidade, com sua mãe, seu pai e sua irmã.
Uma noite Maria resolveu ir à uma festa. Escondida de sua mãe, Maria se vestiu e da sua casa saiu.
Dançou a noite quase toda com um estranho e esse estranho lhe disse que na noite seguinte iria até a sua casa buscá-la.
Maria sentiu muito medo, pois na mesma noite ela descobriu que o estranho com quem ela dançara era a Morte. E que iria buscá-la em sua casa na noite seguinte.
Arrependida de ter desobedecido as ordens da mãe, Maria ansiosa, temia a chegada da noite e com ela a chegada da Morte para levá-la.
Naquela noite, Maria foi deitar mais cedo, a mãe estranhou, mas nada disse. E Maria se embrulhou dos pés a cabeça. E ainda que estivesse toda agasalhada, Maria tremia, de medo...
Chegando a hora prometida, Maria, somente Maria ouvia uma voz que dizia:
_ Maria, estou na calçada da tua casa.
_ Maria estou no pátio da tua casa.
_ Maria, estou na sala da tua casa.
_ Maria estou no quarto dos teus pais.
_ Maria estou no quarto da tua irmã.
_ Maria estou no teu quarto.
_ Maria estou debaixo da tua rede...
_ ...E TE PEGUEI.


Era o grito minha mãe finalizando a história que deveria nos fazer dormir. Mas agora, nós, meus irmãos e eu nos imaginávamos no lugar da Maria. E o medo nos fazia companhia... Todas as noites ouvíamos a mesma história e todas as noites era o mesmo medo dentro de nós.

Obrigada Adriana por dividir a sua visão artística com os que estão tão distantes.

Giselle Ribeiro, 41 anos, poeta, colagista e professora de Teoria Literária na Universidade Federal do Pará.

21 de mai. de 2009

A menina e a figueira



u escutei esta história quando era adolescente (nem foi minha avó quem me contou!) e fiquei bastante impressionada... Mexeu muito comigo, de verdade. Além disso, eu adorava a canção que tinha bem no meio dela. É uma história que faz parte da cultura popular; um conto de encantamento...

Outro dia, minha mãe foi me ouvir em uma das apresentações como contadora de estórias. Eis que me deu um troço, e fiquei com vontade de contar a dita cuja! O fato é que minha mãe chorou muito e disse que jamais esquecerá da emoção que eu lhe transmiti, enquanto contava a história. Fiquei também muito emocionada! Espero que goste.

A menina e Figueira
Era uma vez, um senhor viúvo, que tinha uma filha muito bonita, com os cabelos longos e da cor do ouro. Sua mãe em vida, penteava e cuidava dos seus cabelos como se realmente fossem fios de ouro.
Na vizinhança morava uma moça que queria se casar com o pai da menina e, por isso, fazia-lhe tantos agrados, que ela chegou ao pai e lhe disse:
- Meu pai, por que você não se casa com a vizinha? Ela é tão boa para mim! Todos os dias quando vou a sua casa, ela me dá pão com mel.
- Minha filha, quando ela se casar comigo, lhe dará pão com fel.
Mas a menina não acreditava, e tais agrados a moça lhe fez que o pai acabou se casando com ela.
Depois do casamento, a madrasta começou a maltratar a menina, castigando-a pela falta mais insignificante.
O marido tinha no jardim uma enorme figueira, e a pequena era obrigada a vigiá-la o dia todo, para que os passarinhos - seus amigos - não comessem os figos e quando isto acontecia, a madrasta batia-lhe sem piedade.
Aconteceu, um dia, que os pássaros comeram os figos, e tendo viajado o marido, a madrasta enterrou a menina num capinzal que havia no jardim.
No dia seguinte, o marido chegou e procurou a filha; a madrasta disse-lhe que havia desaparecido.
Mais tarde, o jardineiro foi cortar capim para dar ao cavalo e ao passar a foice no capim, ouviu este canto triste e se pôs a escutar:

Jardineiro de meu pai
Não me corte os meus cabelos,
Minha mãe me penteou, minha madrasta me enterrou,
Pelos figos da figueira que o passarinho bicou.
Xô passarinho, xô passarinho, da figueira de meu pai.

Então o jardineiro foi contar ao patrão o que acabara de ouvir. Este foi ao capinzal, mandou o jardineiro passar a foice no capim, e novamente ouviram o canto.
Reconhecendo a voz da filha, mandou o jardineiro cavar a terra e, encontrando a menina ainda com vida, levou-a para casa. Botou a mulher para fora e não quis mais saber dela ficando só com a filha.
Era uma vez a vaca Vitória. Caiu no buraco; depois vem outra história...


Débora Kikuti, 40 anos, contadora de histórias.

Blog da Débora

12 de mai. de 2009

Uma história sem fim


ão sou tão moderno quanto pareço, se é que pareço moderno, quando na verdade isso também não passa de mais uma daquelas ilusões que arbitrariamente criamos para nos proteger do ameaçador cotidiano banal que nos cerca. Talvez por isso, em função desse medo, quando pequeno gostava muito de ouvir histórias, aquelas que só nossas mães sabem contar, e num sortilégio das muitas que ouvi guardei, não sei por que exatamente, as passagens de um conto de uma menina mimada e seu tourinho branco.

O enredo simples ficava, a cada vez que eu ouvia o conto, mais e mais fantástico. Não sei se por truques da minha imaginação, ou se por criatividade da minha mãe. A mesma história era sempre uma nova história, que narrava as aventuras da filha de um grande proprietário de terras viúvo, que para salvar um tourinho que lhe foi dado por sua mãe no leito de morte, das garras de sua ambiciosa e invejosa madrasta, foge com o animal encantado. No entanto, a madrasta mantinha pactos malignos com monstros, que por sua vez travavam sangrentas batalhas com o pobre tourinho.

A cada noite a menina fugia no lombo de seu precioso animal até certo ponto, onde eram obrigados a atravessar pequenas e estreitas pontes, passagens, passarelas, como o máximo de cuidado possível, evitando assim que o monstro responsável pela guarda do local despertasse. Infortunadamente, no meio da travessia, sempre algo dava errado, a menina espirrava, ou seu sapatinho caia, ou seu vestido grudava nos pontiagudos arames da cerca. Então o tourinho era obrigado a travar aquela batalha contra os seres mais assustadores, ficava cada vez mais fraco, ainda assim prosseguia sua jornada.

Não me recordo do fim desse conto, não sei se chegou a existir um fim, ou simplesmente deletei essa informação. Mas guardei essa história, talvez por ser uma história de amizade, talvez por se tratar de uma aventura. Talvez pelo medo que sentia ao ouvir determinadas passagens. Ou talvez simplesmente por gostar de ouvir minha mãe contando histórias. Não sei. O fato é que esse conto continuará guardado aqui, bem dentro de mim, como uma espécie de elo eterno entre eu, minha infância e minha mãe.


Diego Krisp, 23 anos, ator.

Blog do Diego